AIEA denuncia ataques 'deliberados' em central nuclear na Ucrânia

O diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) denunciou, neste domingo (20), ataques "deliberados e seletivos" contra a central nuclear de Zaporizhzhia e pediu o fim do que chamou de "loucura", da qual Rússia e Ucrânia se acusam mutuamente.

"As notícias de nossa equipe ontem e nesta manhã são extremamente perturbadoras", disse em comunicado o argentino Rafael Grossi, o titular desta agência reguladora da ONU.

"Ocorreram explosões no recinto desta grande usina de energia nuclear, o que é completamente inaceitável", insistiu. "Quem quer que esteja por trás disto, deve parar imediatamente", acrescentou.

A maior central nuclear da Europa, controlada há meses pela Rússia, sofreu uma dezena de explosões na noite de sábado para domingo, algumas delas vistas pelos especialistas da AIEA presentes no local.

Em declarações à emissora francesa BFMTV, Grossi foi claro: "As pessoas que fazem isto sabem onde estão atacando. São [ataques] absolutamente deliberados e seletivos."

O diplomata argentino também manifestou indignação pelo fato de que alguns "considerem que uma central nuclear é um alvo militar legítimo" e instou os responsáveis a "acabar com esta loucura".

- Troca de acusações -

A AIEA não atribuiu responsabilidade a nenhuma das duas partes, que se acusaram mutuamente de bombardear a central nuclear.

O Ministério da Defesa da Rússia denunciou que "o regime de Kiev não cessa suas provocações para criar a ameaça de uma catástrofe na central nuclear de Zaporizhzhia".

Segundo a nota do governo russo, o exército ucraniano disparou entre sábado e domingo mais de 20 "obuses de grosso calibre" contra a central.

Apesar dos bombardeios, "os níveis de radiação no perímetro da central estão conforme a norma", indicou o Ministério da Defesa russo.

Em contrapartida, a agência nuclear ucraniana acusou a Rússia de bombardear a área da central e de "organizar, mais uma vez, uma chantagem nuclear".

"Na manhã deste 20 de novembro de 2022, após muitos bombardeios russos, detectaram-se ao menos 12 disparos no perímetro da central nuclear de Zaporizhzhia", indicou a agência nuclear Enerhoatom.

- Execuções sumárias? -

Em outra frente, o parlamento ucraniano respondeu às acusações recentes de Moscou sobre supostas execuções de prisioneiros de guerra russos com base em vídeos difundidos nas redes sociais.

Na gravação, que não pôde ser verificada de maneira independente pela AFP, aparentemente via-se soldados russos rendidos que eram obrigados a se deitar e, em seguida, ouviam-se disparos.

Também circularam outras imagens com dezenas de corpos e uma enorme mancha de sangue.

O comissário do parlamento ucraniano para os direitos humanos, Dmytro Lubinets, disse que os "trechos de vídeo" mostram soldados que "se fizeram de rendidos" para atacar as forças de Kiev.

"Responder ao fogo não é um crime de guerra. Pelo contrário, aqueles que utilizam a proteção internacional para matar devem ser castigados", afirmou.

A ONU alertou esta semana que muitos soldados capturados por ambos os lados estão sendo torturados e disse ter recebido "denúncias confiáveis" de execuções sumárias de prisioneiros de guerra russos.

- Kherson no front -

No front de guerra no sul do país, a cidade de Kherson, recentemente libertada pela Ucrânia, enfrentava agora ataques de artilharia que forçaram alguns moradores a deixarem o local.

"Depois do bombardeio de ontem, minha mulher disse: 'Não nos arrisquemos mais e vamos embora'", explicou Yuri Mosolov, cuja casa fica próxima de uma área industrial atingida por projéteis.

A contraofensiva ucraniana empurrou os russos para a outra margem do rio Dnieper que passa ao lado da cidade, mas a batalha não acabou.

"Os duelos de artilharia continuam [...] Kherson é agora a linha de frente", disse Dmytro Pletenchuk, porta-voz militar da Ucrânia na região.

O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, também informou em seu discurso diário sobre quase 400 ataques russos no leste do país no domingo, com batalhas especialmente intensas na província de Donetsk.

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