AIEA duvida da 'natureza pacífica' do programa nuclear do Irã

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) levantou sua voz contra o Irã nesta quarta-feira (7), afirmando que "não pode garantir" que seu programa nuclear "seja exclusivamente pacífico".

Um relatório confidencial, ao qual a AFP teve acesso, aponta que não há "progresso" em relação a três instalações não declaradas nas quais foram descobertos vestígios de urânio.

O Irã pediu repetidamente o encerramento da investigação do órgão da ONU e se recusa a cooperar mais, apesar de o Conselho de Ministros da AIEA ter votado em junho uma resolução crítica.

A questão das instalações não declaradas é um dos principais entraves nas negociações iniciadas em abril de 2021 em Viena para reativar o acordo de 2015, que visa limitar o programa nuclear do Irã em troca do levantamento das sanções dos Estados Unidos que estrangulam sua economia.

- "Cada vez mais preocupado" -

No documento, apresentado antes da reunião do Conselho de Governadores da próxima semana, o diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, diz estar "cada vez mais preocupado com a falta de cooperação do Irã".

Por isso, pede à República Islâmica que "cumpra as suas obrigações legais" e ofereça "explicações tecnicamente credíveis".

A AIEA lamenta a decisão do Irã de remover 27 câmeras de vigilância de vários locais, citando "consequências prejudiciais para a capacidade" de verificar a natureza civil do programa nuclear.

A agência, que já sofre restrições nas inspeções desde fevereiro de 2021, cita "desafios consideráveis" para entender as atividades do Irã como um todo, mesmo que Teerã e as grandes potências cheguem a um acordo e o acesso seja restaurado.

"Não é uma tarefa impossível, mas exigirá muito esforço", confirmou à AFP um diplomata de Viena.

Apesar dos sinais positivos do mês passado, as negociações parecem ter parado novamente.

O pacto de 2015, conhecido por sua sigla JCPOA, visa impedir que o Irã adquira armas nucleares, um objetivo que sempre negou perseguir.

Mas após a retirada dos Estados Unidos do acordo e o restabelecimento das sanções americanas, o Irã tem renegado suas obrigações.

- "Purgatório" -

Os estoques de urânio enriquecido do Irã já ultrapassam 19 vezes o limite autorizado. Até 21 de agosto, os estoques eram de 3.940,9 kg, ante 3.809,3 kg em meados de maio, longe do teto de 202,8 kg com o qual o país havia se comprometido.

Dentro dessas reservas, o país tem 55,6 kg de urânio enriquecido a 60% (comparado aos 43,1 kg anteriores), um limite próximo aos 90% necessários para desenvolver uma arma atômica.

Segundo a mesma fonte diplomática, o Irã provavelmente levaria "três a quatro semanas" para atingir a quantidade necessária, sabendo que o processo para conseguir uma bomba inclui outras etapas.

"Enquanto o acordo permanece no purgatório, o Irã está usando o tempo para reforçar seu programa nuclear", disse Henry Rome, analista do Eurasia Group, em nota.

À luz desses dois relatórios, o Conselho de Ministros da AIEA pode decidir ir mais longe e encaminhar o conflito ao Conselho de Segurança da ONU, que tem o poder de impor sanções.

Mas, segundo o especialista, esse cenário é "improvável em um momento tão delicado".

E mesmo que as negociações fracassem, "nem o Irã nem os Estados Unidos parecem dispostos a uma intensificação das tensões bilaterais", aponta.

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