Ainda não temos indícios fortes de crime, diz secretário do AM sobre desaparecidos

***ARQUIVO*** Atalaia do Norte, AM. 18/06/2021 - Base da Funai do rio Itui, na confluência como rio Itacoai, que funciona como um posto de

controle para entrada na Terra Indígena do Vale do Javari, no Amazonas.  (Foto Lalo de Almeida/ Folhapress)
***ARQUIVO*** Atalaia do Norte, AM. 18/06/2021 - Base da Funai do rio Itui, na confluência como rio Itacoai, que funciona como um posto de controle para entrada na Terra Indígena do Vale do Javari, no Amazonas. (Foto Lalo de Almeida/ Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Enquanto o secretário da Segurança Pública do Amazonas, general Carlos Alberto​ Mansur, afirmou nesta quarta-feira (8) que não há "indícios fortes de crimes" no caso do desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, o superintendente regional da Polícia Federal disse que nenhuma hipótese está descartada —inclusive a de que ambos tenham sido vítimas de homicídio.

As declarações ocorreram em coletiva de imprensa com diferentes órgãos envolvidos nas buscas por Pereira e Phillips, desaparecidos na região do Vale do Javari (AM) desde domingo (5).

"Ainda não temos indícios fortes de crime, estamos investigando", declarou Mansur.

O superintendente da PF, por sua vez, declarou: "Temos um inquérito policial instaurado para apurar a organização criminosa ou organizações que atuam nessa região, dedicadas ao tráfico de drogas e crimes transfronteiriços. Claro, paralelo a isso, sem prejuízo dessa investigação, nós também vamos apurar eventual homicídio caso tenha ocorrido. Não descartamos nenhuma linha investigativa".

Durante a coletiva, Mansur afirmou que foi apreendido material "com suspeita de ter alguma ligação com o fato" do desaparecimento, mas não forneceu detalhes.

Participaram da apresentação à imprensa Polícia Federal, Forças Armadas e as autoridades policiais no estado.

De acordo com Mansur, até o momento seis pessoas foram ouvidas nas investigações, sendo cinco na condição de testemunhas e uma como suspeita.

O suspeito, no entanto, foi preso em flagrante por causa de suposta porte de munição restrita e uma determinada quantidade de drogas.

"Ele por enquanto não tem nada a ver ainda, está em investigação. Não fizemos a ligação dele com o fato do desaparecimento", disse Mansur.

Porém, mais cedo nesta quarta, a Polícia Militar do Amazonas disse ter obtido indicações de que o homem preso sob suspeita de porte de munição proibida seguiu Pereira e Phillips pelo rio Itacoaí na manhã em que eles desapareceram.

Segundo divulgou a PM, testemunhas que viram a lancha de Pereira e Phillips descer o rio rumo a Atalaia do Norte no domingo "avistaram também uma outra lancha de cor verde, com o slogan da 'Nike' bem visível, que trafegava no rio, logo após passar a lancha dos desaparecidos".

O barco foi rastreado até ser identificado com Amarildo, 41, conhecido como Pelado e que estava na comunidade de São Gabriel —a mesma onde a dupla desaparecida foi vista pela última vez.

Com o pescador, os policiais encontraram também munições de uso restrito, de rifle 762, e um cartucho calibre 16, além de 16 chumbinhos. A polícia diz ainda que apreendeu uma pequena porção de entorpecente.

Dentre as outras pessoas ouvidas estão os também pescadores Jâneo e Churrasco —ambos foram liberados na noite da última segunda-feira (6), após o depoimento.

Churrasco, inclusive, é quem Pereira e Phillips iriam encontrar na manhã de domingo, quando retornavam de uma viagem. Eles chegaram a passar pela comunidade de São Rafael, onde ele vivia, mas não o encontraram.

Na coletiva desta quarta, os representantes dos diferentes órgãos argumentaram que atuam nas buscas desde o comunicado do desaparecimento. Segundo Fontes, o efetivo que atua atualmente nas buscas é formado por 250 agentes das diferentes estruturas.

Dom Phillips, 57, e Bruno Pereira, 41, desapareceram quando viajavam de barco da Terra Indígena Vale do Javari para o município de Atalaia do Norte.

O desaparecimento foi divulgado na segunda (6) por ONGs que atuam junto aos indígenas da região.

O caso tem provocado repercussão internacional, como em manifestação do assessor especial da Casa Branca John Kerry.

A demora nos operativos despertou críticas ao governo de Jair Bolsonaro (PL), e a Justiça Federal determinou que fossem imediatamente disponibilizados helicópteros, embarcações e equipes de buscas, da Polícia Federal, das forças de segurança ou das Forças Armadas.

Segundo a ONG Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), o último local onde eles foram avistados foi passando pela comunidade de São Gabriel, onde Pelado foi encontrado.

Segundo Eliésio Marubo, advogado da Univaja, Pelado "fez algumas ameaças contra a equipe" da entidade no último final de semana. O grupo era acompanhado por Pereira e Phillips. Nenhum advogado do homem preso foi localizado para comentar o caso.

Bruno Pereira é servidor licenciado da Funai e chefiava a Coordenação de Índios Isolados da fundação até ser exonerado, em 2019. Phillips vive no Brasil há 15 anos e colabora para o jornal britânico The Guardian. Ele escreve um livro sobre a preservação da floresta.

As autoridades criaram um comitê de crise para acompanhar o caso e disseram que informações serão prestadas diariamente.

Questionados, eles disseram que no momento as buscas não têm prazo determinado para acabar.

O superintendente da PF foi questionado sobre ameaças sofridas por Pereira e relatadas às autoridades.

"Nós temos um documento enviado há questão de um mês relatando ameaças, mas sem apresentar suspeitos", disse Fontes. Ele também informou que um inquérito foi instaurado a partir da denúncia e que as investigações estão em andamento.

Segundo a Univaja, dias antes da viagem, Marubo, Pereira e outros membros da instituição haviam recebido uma carta com ameaças de morte.

O documento fala em acerto de contas: "Sei que quem é contra nós é o Beto Índio e Bruno da Funai, quem manda os índios irem para área prender nossos motores e tomar nosso peixe".

A carta continua ainda ameaçando que "se continuar desse jeito vai ser pior" e diz esse é o único aviso que os pescadores darão.

Como revelou a Folha, membros da Univaja relataram às autoridades policiais ameaças sofridas em uma praça pública em Atalaia do Norte, em abril.

Segundo um boletim de ocorrência ao qual a reportagem teve acesso, três integrantes da instituição foram confrontados por dois pescadores na noite do dia 19 de abril, na cidade no interior do estado do Amazonas.

De acordo com o boletim, um dos pescadores tentou agredir um indigenista com um soco. Na sequência, outro se aproximou dizendo para "não chamar a polícia, pois se o mesmo chamasse a polícia, ele iria pegá-lo, pois ele sabia onde o mesmo morava". O documento foi registrado na 50ª delegacia da Polícia Civil do Amazonas.

O relato continua afirmando que o primeiro pescador "estava ameaçando dar um tiro na cara" de um membro da Univaja e que "iria acontecer [...] o mesmo que aconteceu com o falecido Max", referência ao colaborador da Funai Maxciel Pereira dos Santos, morto com tiros na cabeça em Tabatinga, em 2019.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos