Ajuda humanitária em risco no Afeganistão por falta de mulheres

No Afeganistão, os talibãs proibiram as mulheres de trabalharem para as organizações não-governamentais.

Para além de atentar contra os direitos das mulheres, a decisão deixa as ONG's impossibilitadas de prestarem assistência às populações, como refere Jan Egeland, Secretário-Geral do Conselho Norueguês para os Refugiados, em entrevista à Euronews.

"O que os líderes talibãs me dizem é que querem que possamos retomar o trabalho o mais depressa possível. E digo que só o poderemos fazer se as nossas colegas femininas puderem trabalhar ao nosso lado e em conjunto, com igualdade para os trabalhadores humanitários masculinos", afirma Egeland, explicando em seguida: "Sem pessoal feminino, não somos capazes de chegar às mulheres, viúvas, mães solteiras com filhos, às mulheres que se encontram em situações muito difíceis. É definitivamente contra os valores e tradições em muitas regiões que os homens assistam as mulheres, que não são diretamente da sua família".

O responsável do Conselho Norueguês para os Refugiados, que se encontra esta semana no Afeganistão para exortar os talibãs a inverterem a proibição sobre o trabalho para as trabalhadoras humanitárias, pergunta, indignado:

"Onde estão os embaixadores? Onde estão os diplomatas? Onde está a comunidade internacional que disse que as mulheres e as crianças do Afeganistão eram a sua prioridade número um? Gastaram centenas de milhares de milhões de dólares, de euros ao longo dos anos. Onde estão eles hoje em dia, realmente? Não se veem muitos. Por isso, gostaria que se empenhassem e nos ajudassem. Estamos praticamente sozinhos aqui agora".

Egeland publicou na sua conta Twitter o sentimento das mulheres afegãs.

Desde que em dezembro de 2022, os talibãs proibiram as mulheres de trabalhar para as ONG, cerca de 150 organizações humanitárias suspenderam totalmente ou em parte o seu trabalho no país.

Esta proibição seguiu-se a outras que têm esmagado os direitos das mulheres, como a proibição de as raparigas frequentarem o ensino secundário, decidida em março, e depois as universidades em dezembro, e agora a retirada dos seus empregos.

As organizações internacionais e locais são uma linha de salvação no meio da atual emergência humanitária do Afeganistão.

A economia do país entrou em colapso assim que os talibãs tomaram o poder em agosto de 2021, com a retirada das tropas dos EUA.

De acordo com a ONU, cerca de metade de toda a população recebeu alguma forma de assistência na primeira metade de 2022 e cerca de 28 milhões de pessoas estão necessitadas, com 20 milhões a enfrentarem uma crise alimentar aguda.