Além da demora dos trens, passageiros reclamam da falta de máscara nas composições

Leticia Lopes
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Foto: FABIANO ROCHA / Agência O Globo
Foto: FABIANO ROCHA / Agência O Globo

RIO — Além de ter que esperar mais tempo para embarcar no trem, passageiros reclamaram que poucos usam máscaras nas composições. De volta ao trabalho presencial há três semanas, a analista de rede Camila Ribeiro, de 26 anos, faz baldeação para chegar ao trabalho, no Centro — um ônibus e o trem —, e acredita que os vagões e plataformas ficarão mais cheios com as mudanças no sistema.

— O trem está sempre cheio, e com muita gente sem máscara. Agora vai piorar. Ao invés de aglomerar só dentro do trem, vai ficar cheio também nas plataformas, porque a demora só aumenta — disse a jovem, que decidiu espera uma próxima composição, mais vazia: — Na volta é a mesma coisa, se não for pior, porque todo mundo quer chegar em casa rápido. A melhor opção são os trens, porque os ônibus também estão reduzidos, mas agora tem mais essa.

As mudanças efetuadas pela Supervia nesta quinta-feira, com aumento de intervalos na grade e redução da frota, não agradaram passageiros. A concessionária argumenta que precisou reajustar os horários para reduzir os custos das operações, considerando que durante a crise sanitária deixou de arrecadar cerca de R$ 246 milhões com a redução de 56 milhões de passageiros, desde março. Mas aqueles que não deixaram de embarcar no sistema durante a pandemia da Covid-19 demonstraram revolta com o novo esquema de horários, e preocupação com as consequências que ele pode trazer.

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Antes de a composição seguir viagem, funcionários identificados como "Equipe de Prevenção" passaram pelos vagões higienizando as barras de apoio, mas a proteção contra a Covid-19 esbarra, por exemplo, na falta de dispensers de álcool em gel nas composições e no volume de passageiros sem máscara, que embarcam nos trens sem serem advertidos.

O mesmo vale para ambulantes que atuam no sistema. Vendendo as mais variadas opções de produtos, como biscoitos, guloseimas, águas, mas também aparelhos eletrônicos, como fones de ouvido e carregadores de celular, e até remédios, muitos vendedores informais atravessam os vagões sem máscara, ou com o item de proteção sendo usado de maneira inadequada — apoiado no pescoço, abaixo do nariz ou pendurado na orelha.

A Supervia diz que a fiscalização das normas sanitárias cabe a Polícia Militar, mas que a empresa só vende bilhetes para quem está usando máscara. Sobre a distribuição de álcool em gel, a empresa argumenta que a obrigatoriedade é da instalação apenas nas estações.

— Eu esperei o próximo porque não tinha condições de pegar o outro, cheio do jeito que estava, mas aqui também está cheio de gente sem máscara. Com essa história de reduzir, vai aglomerar, e esse vírus ainda está aí — disse o aposentado Ezequiel Francisco, de 65 anos, que seguia para a estação Penha Circular.

Para avaliar os impactos das mudanças nas grades dos ramais, o Conselho Diretor da Agetransp, a agência reguladora do transporte público no Rio, determinou a intensificação da fiscalização no sistema.

De acordo com a agência, os técnicos analisam, principalmente, o atendimento aos passageiros, o cumprimento dos intervalos entre as viagens e a taxa de ocupação dos trens, fixada em 60% da capacidade máxima pelo governo estadual. A previsão é que as ações de fiscalização por conta dos novos horários durem uma semana, e devem gerar um estudo técnico a ser divulgado pela agência nos próximos dias.

A Comissão de Transportes da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) também acompanha os efeitos da redução na grade, e encaminhou à direção da Supervia um pedido de informações sobre o serviço.

Caso as informações não sejam satisfatórias, a comissão pode entrar como uma ação na Promotoria de Tutela de Defesa do Consumidor do Ministério Público (MPRJ) pedindo a suspensão da alteração e o retorno imediato de todas as composições e horários originais.

— Usar a pandemia para justificar a redução do número de composições e ajustes nos horários é covardia. Esse problema de superlotação já vem de longa data e sempre foi cobrado pela comissão e pelos usuários. Fala-se tanto em reduzir a aglomeração de pessoas devido a Covid-19, mas com essa decisão, fica claro que a empresa não está preocupada com isso e sim em faturar. Fica a pergunta: quem vai fiscalizar a aglomeração e o uso de máscara e álcool em gel nas plataformas e composições? Essa responsabilidade é da SuperVia — disse o presidente da comissão, o deputado Dionísio Lins (PP).

Em nota, a Supervia informou que a nova grade de horários, com ajuste em todos os ramais, manterá a taxa de ocupação das composições dentro do limite máximo estipulado pelo Estado e fiscalizado pela Agetransp. A empresa continuará cumprindo todos os decretos estaduais e a legislação vigente.