Além da falta de testes, Brasil tem dificuldades para rastrear variantes do coronavírus, diz diretor do Instituto Butantan

Ana Letícia Leão
·3 minuto de leitura

SÃO PAULO - O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, demonstrou preocupação sobre o rastreamento das novas variantes do coronavírus no Brasil. Segundo o especialista, que participou de uma mesa redonda virtual promovida pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), nesta quinta-feira, o país não está preparado para acompanhar a evolução das novas novas cepas.

— A quantidade de amostras (analisadas) é muito pequena. Estamos fazendo um grande esforço em São Paulo de analisar pelo menos 300 amostras que sejam epidemiologicamente significantes, mas isso não é o que acontece no Brasil. O país não tem essa capacidade, da mesma forma que não teve capacidade de fazer exames PCR — avaliou o diretor do Butantan. Fiocruz entrega 2,8 milhões das 15 milhões de doses de vacina prometidas inicialmente para março

Nesta quinta-feira, o governo de SP anunciou que foi identificada a variante sul-africana do vírus Sars-CoV-2 em uma paciente de Sorocaba, no interior de são Paulo. A nova cepa foi detectada em uma mulher de 34 anos que apresentou sintomas leves. O monitoramento dos familiares está a cargo da vigilância sanitária do município. A análise preliminar mostra que há assinaturas um pouco diferentes da variante original [da África do Sul], o que indica uma provável origem local mesmo, a partir da variante P1.Durante sua fala, que durou cerca de 30 minutos, Covas classificou o sistema de vigilância epidemiológica do Brasil como "extremamente frágil", desafio que já vinha sendo observado nas epidemias de zika e em surtos de febre amarela.

— Mostraram extrema fragilidade e falta de preparo, chegando ao cúmulo de ter mortes de pessoas que não tinham sido vacinadas. O Brasil já não era muito preparado, aí vem uma epidemia como essa. Além do despreparo, soma-se a falta de competência de quem está no comando.

Kit intubação: Estados estocam remédios e podem prejudicar outras unidades da federaçãoSegundo Covas, a sobreposição das variantes nos casos de Covid-19 impactam diretamente na gravidade da pandemia e, consequentemente, nas internações em UTIs. Além de um maior número de casos, as novas cepas têm infectado pessoas mais novas, que têm entre 40 e 60 anos. Em São Paulo, diz, mais de 60% das amostras testadas já são da variante de Manaus, a P1. A preocupação, nesse sentido, está no fato de que ainda não se sabe o real impacto da vacinação nas variantes.

— É muito preocupante porque de todas essas variantes, incluindo a inglesa, a da África do Sul é a que tem demonstrado maior resistência em relação à neutralização, seja no sangue do soro de indivíduos infectados previamente, seja em indivíduos já vacinados. — Se as vacinas anteriores não são eficientes no sentido da produção de anticorpos neutralizantes significa que podemos estar diante de um potencial problema, visto que as vacinas são majoritariamente baseadas na composição da proteína S. Se houver de fato uma resistência nesse momento, essas vacinas precisam ser revistas — completou.Ainda durante a mesa, Covas duras críticas ao enfrentamento da pandemia pelo governo federal, principalmente ao ex-ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello.

— A gente fica submetido a uma situação de total falta de coordenação, falta de entendimento e de ações efetivas. Do ponto de vista de combate epidêmico e coordenação, é total caos..A mesa-redonda virtual "As variantes do novo coronavírus e suas implicações no enfrentamento da pandemia" foi organizada pelos comitês Científico e Central Unesp Covid-19, com objetivo de debater temas de relevância relacionados ao coronavírus. Também participaram do encontro Jayme Augusto de Souza-Neto, vice-presidente do Comitê Científico da Unesp e o biólogo da UFG, José Alexandre Diniz.