Guerra da Rússia contra o Telegram provoca danos colaterais

Arturo Escarda.

Moscou, 25 abr (EFE).- A guerra declarada pela Rússia ao aplicativo Telegram, serviço que o governo tenta, sem sucesso, bloquear no país há mais de uma semana, já prejudicou milhões de usuários e dezenas de empresas, como Google, Apple e Amazon.

"Alguns tiveram problemas para fazer ligações e mandar fotos no Viber. Essa situação tem relação com a decisão do regulador de bloquear o acesso a outro serviço de mensagens mediante o bloqueio de milhões de servidores do país", disse o Viber em uma mensagem enviada aos usuários do aplicativo.

O Viber foi apenas um dos serviços afetados. Internautas russos reclamaram de problemas para acessar o site da Amazon, usar os serviços do Google, como Youtube, Gmail e Google Drive, e para acessar as lojas de aplicativos da Apple, a App Store.

Por enquanto, apenas o Viber admitiu oficialmente que as dificuldades dos usuários estão relacionadas ao órgão de regulação das comunicações na Rússia, o Roskomnadzor, de bloquear o Telegram por considerar que o aplicativo descumpre a legislação nacional.

"Isso afetou o Viber e muitos outros serviços", disse o aplicativo na nota enviada aos usuários.

O Roskomnadzor já bloqueou pelo menos 18 milhões de endereços de IP para impedir o funcionamento do Telegram, mas, apesar dos esforços, o aplicativo de mensagem segue funcionando a pleno vapor na Rússia, resistindo há uma semana à guerra declarada pelo Kremlin.

O proprietário do Telegram, o russo Pavel Durov, residente no Reino Unido, iniciou uma contraofensiva para escapar do bloqueio, contratando IPs em serviços do Google e da Amazon.

Além disso, as lojas de aplicativos de Google e Apple mantêm a oferta do Telegram, apesar das exigências de Roskomnadzor para que o retirasse de circulação.

"O Roskomnadzor reitera que essas empresas (Google e Apple) devem bloquear o acesso ao aplicativo Telegram em suas lojas online", declarou o órgão no início desta semana.

Apesar de ter negado o bloqueio de IPs de vários serviços do Google, o Roskomnadzor alertou que tomará todas as medidas necessárias para impedir o funcionamento do Telegram, atendendo a uma decisão tomada por um tribunal de Moscou no último dia 13 de abril.

Alguns analistas expressaram suspeitas de que o Roskomnadzor possa estar pressionando Google e Apple para deixarem de apoiar Durov.

Ativistas dos direitos humanos em 13 países enviaram um abaixo-assinado aos gigantes da internet mundial para pedir que não ajudem a Rússia na guerra cibernética contra o Telegram.

O pedido, publicado pelo chefe da ONG internacional Agora, Pavel Chikov, alerta que esse é um perigoso precedente, que pode minar o direito à liberdade de expressão e à privacidade dos cidadãos.

As autoridades decidiram bloquear o Telegram pela recusa da empresa de compartilhar com os serviços de segurança da Rússia as chaves para descriptografar as mensagens trocadas no aplicativo. A medida atenderia a uma lei para prevenir atividades terroristas.

O Facebook também está na mira do Kremlin. A rede social de Mark Zuckeberg foi avisada de que pode ter o acesso restringido no país caso não cumpra até o fim deste ano algumas exigências da lei russa.

O Roskomnadzor exige que o Facebook transfira para a Rússia os servidores com as bases de dados dos internautas russos e que elimine algumas das informações proibidas no país na rede.

Em 2014, o criador do Telegram deixou a Rússia após denunciar pressões dos serviços de segurança para que revelasse informações de grupos da oposição que usavam a rede social Vkontakte, uma espécie de Facebook russo, desenvolvida por ele em 2006.

Durov, que criou o Telegram em 2013, declarou na época que não compartilharia dados ou códigos com terceiros, incluindo governos.

Disponível em mais de 20 idiomas, o Telegram, com sede em Dubai, tem mais de 200 milhões de usuários no mundo todo. EFE