Ala ideológica no Planalto: quem saiu e quem permanece no governo Bolsonaro

O Globo
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RIO - O gesto feito pelo assessor da Presidência para assuntos internacionais, Filipe Martins, considerado obsceno ou associado a supremacistas brancos, durante uma sessão do Senado, deflagrou uma nova crise causada pela ala ideológica no Palácio do Planalto. O grupo, que mantém a influência do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sobre a base mais radical do bolsonarismo, ocupa cargos importantes na estrutura do governo federal, já foi responsável por chancelar indicações de ministros, mas entrou em rota de colisão com o Centrão, que sustenta a governabilidade do presidente e, agora, "pede a cabeça" de figuras como Martins e o chanceler Ernesto Araújo.

Veja os nomes da ala ideológica que saíram do governo:

Ricardo Vélez Rodrigues, ex-ministro da Educação

Indicação do ideólogo de direita Olavo de Carvalho, o colombianao Ricardo Vélez Rodrigues, foi o primeiro ministro da Educação no governo Bolsonaro. A passagem curta pelo ministério, de apenas três meses, acumulou medidas, declarações e recuos de grande repercussão negativa, uma delas o pedido para que escolas filmassem alunos cantando o hino nacional e foi criticado publicamente pelo presidente do Inep (demitido, ele disse que o ministro era "gerencialmente incompetente").

No início de abril de 2019, Bolsonaro demitiu Vélez após ter dito em um café da manhã com jornalistas que o trabalho dele não estava sendo eficiente para o ministério e que talvez colocasse o anel do "casamento" dos dois "na gaveta".

Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação

O economista Abraham Weintraub foi nomeado para susceder Vélez Rodríguez na Educação. O tom beligerante a frente da pasta marcou sua gestão, com criticas de educadores sobre a condução das políticas educacionais, do ensino primário ao acesso à Universidade.

Com uma passagem de um ano e dois meses no ministério, Weintraub aparaceu defendendo a prisão de ministros do STF na reunião do gabinete ministerial de Bolsonaro, no dia 22 de abril do ano passado. Foi um dos integrantes do governo que mais criticou as relações com a China. Ele chegou a comparar uma decisão do Supremo com ações adotadas durante o nazismo.

Roberto Alvim, ex-secretário de Cultura

Nomeado como secretário da Cultura do governo Jair Bolsonaro, Roberto Alvim, fez um discurso com as mesmas palavras de uma fala de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda na Alemanha nazista.

Um dos episódios que gerou críticas da classe artística a Alvim foi quando ele atacou a atriz Fernanda Montenegro após ela se posicionar contra diversos relatos de censura nas artes. Foi demitido menos de três meses após a nomeação.

Fábio Wajngarten, ex-chefe da Secom

Fabio Wajngarten foi nomeado para chefiar a Secom no início do governo Bolsonaro. O empresário contava com o apoio dos filhos do presidente e era um crítico ferrenho da imprensa, com acusações e ameaças de cortes de publicidade contra veículos críticos ao governo. Ficou no governo até fevereiro deste ano.

Wajngarten se desentendeu com todos os seus chefes hierárquicos no governo. Antes de se desentender com o atual ministro das Comunicações, Fábio Faria, Wajngarten entrou em conflito com o ex-ministro da Secretaria de Governo (Segov) Carlos Alberto dos Santos Cruz e com o atual chefe da pasta, Luiz Eduardo Ramos, quando a Secom era subordinada ao ministério. Em junho do ano passado, a secretaria foi transferida para o Ministério das Comunicações, recriada para abrigar Faria. Na época, Wajngarten apoiou a mudança e a chegada do novo ministro ao governo.

Veja os nomes da ala ideológica que permanecem do governo:

Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores

O chanceler Ernesto Araújo acumula críticas de parlamentares, integrantes do próprio governo e de diplomatas pela condução da política externa do governo Bolsonaro. Na última semana, Araújo foi alvo de pedidos de renúncia de senadores ao participar de uma sessão no Senado. Os parlamentares creditam o fracasso nas relações entre o Brasil e outros países na aquisição de vacinas contra a Covid-19 ao ministro.

Araújo é alvo de críticas de diplomatas do próprio ministério e embaixadas pela forma como conduziu as relações com aliados econômicos do país, como a China e países árabes. Representantes chineses chegaram a repreender declarações do ministro e a ameaçar o Brasil com retaliações.

Filipe Martins, assessor para assuntos internacionais da Presidência

O assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, Filipe Martins, pode ser o próximo integrante da ala ideológica a deixar o governo nos próximos dias. Martins vai ter que prestar esclarecimentos à Polícia Legislativa do Senado por um gesto associado a supremacistas brancos durante sessão parlamentar. O sinal também pode ser interpretado com um xingamento obsceno.

Após o episódio, o assessor negou ter simpatia por movimentos de supremacia branca. O gesto supremacista foi usado por Brenton Tarrant, que em 2019 matou 51 pessoas a tiros em uma mesquita na Nova Zelândia, durante seu julgamento.

Naquele ano, Martins reproduziu em suas redes um poema que abria o manifesto de Tarrant. A frase segue em destaque em seu perfil no Twitter.

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é alvo de críticas de ambientalistas, empresários ligados ao agronegócio e de parlamentares pela condução na área ambiental. Nomeado no início do governo, foi durante a gestão de Salles em que houve recordes no número de queimadas e em que o desmatamento voltou a crescer consideravelmente na Amazônia.

O ministro é acusado ainda de desmontar a estrutura de fiscalização contra desmatadores ilegais e grileiros no Norte do país. Sob fortes críticas desde o início da gestão do governo Bolsonaro, Salles conta com o apoio da base fiel de Bolsonaro, mais radical.

Tercio Arnaud, assessor da Presidência

O presidente Jair Bolsonaro nomeou em janeiro de 2019 para o gabinete pessoal da Presidência o ex-assessor de seu filho, Carlos Bolsonaro (PSL), na Câmara de Vereadores do Rio, Tercio Arnaud Tomaz, conhecido por comandar a página “Bolsonaro Opressor 2.0”.

Tercio ocupava um cargo comissionado no gabinete de Carlos Bolsonaro, onde estava lotado desde dezembro de 2017. Em agosto, href="https://oglobo.globo.com/brasil/3046-os-recados-de-lula-em-cinco-pontos-24918167?fbclid=IwAR0TERoC7_1Ti3-6xXezUaLKaR6vlTsnxa5fd71fifAthtt8-jz2j8OOj7E">O GLOBO revelou que Tercio recebia salário da Câmara sem trabalhar de fato no legislativo da cidade. Na época da pré-campanha de Bolsonaro à Presidência, sua verdadeira ocupação era a produção de conteúdo digital, filmando e fotografando Bolsonaro em momentos de descontração e em intervalos de sua agenda como pré-candidato. Na ocasião, o chefe de gabinete de Carlos Bolsonaro, Jorge Luiz Fernandes, negou ao GLOBO que Tercio trabalhava na campanha.

Uma investigação sobre co ntas falsas removidas pelo Facebook ligadas ao presidente apontou Arnaud como administrador de alguns dos perfis que divulgavam fake news. Ele também é um dos integrantes do chamado "gabinete do ódio".

A apuração foi feita pelo Laboratório Forense Digital (DFRLab) somente com mensagens e posts divulgados nas páginas removidas.