Alas de PSDB, PSL e MBL defendem ir às ruas com a esquerda contra Bolsonaro, após agravamento da crise

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SÃO PAULO — A crise política enfrentada pelo governo federal e a disparada do ex-presidente Lula nas pesquisas eleitorais levaram a um recálculo de rota na oposição a Jair Bolsonaro. Se antes o centro e a direita hesitavam em aderir às manifestações de rua convocadas pela esquerda, agora esses grupos começam a debater o assunto.

Na última semana, suspeitas sobre a compra da vacina indiana Covaxin e a acusação de pedido de propina para aquisição de doses da AstraZeneca deram, segundo lideranças da oposição, munição mais "concreta" contra o presidente. Mas alguns grupos de direita entendem que deixar Bolsonaro sangrar até as eleições de 2022 poderia favorecer o PT e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por isso, o impeachment ganharia urgência, segundo esses líderes políticos.

Lula aparece na última pesquisa Ipec com 49% das intenções de voto, enquanto Bolsonaro tem 23%. O desgaste de Bolsonaro também recrudesceu, segundo o levantamento: a aprovação está em 24% e a reprovação, em 49%.

Grupos como MBL e Vem Pra Rua, que organizaram protestos de rua pelo impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e partidos como PSDB, Novo e PSL começam a planejar de que forma podem aderir aos atos, mas sem fortalecer a candidatura de Lula.

O coordenador nacional do MBL, Renan Santos, fez nesta semana uma defesa enfática dos atos de rua contra Bolsonaro e pediu aos seguidores para pensarem no assunto. O grupo diz estar medindo a aceitação dos apoiadores antes de tomar uma decisão oficial.

— Não vai ser com Twitter ou vídeo no YouTube ou com essa CPI que o Bolsonaro vai cair. Bolsonaro só vai cair se tiver rua. Eu sou minoritário no MBL nisso, eu sou favorável a ir às ruas. Se essa discussão não começar a acontecer, e a gente tomar uma posição para a gente levar o maior número possível de pessoas para as ruas, meu irmão, não vai ter impeachment. O impeachment só vai acontecer se você for para a rua —, declarou Santos num vídeo para as redes sociais.

Ao GLOBO, o MBL afirmou que o grupo deve convocar atos de rua nas próximas semanas, mas que não vai compartilhar local com as manifestações de esquerda: "não vamos participar de comício ou campanha antecipada de petista", diz o grupo, em nota.

No PSDB, a participação dos filiados nos protestos é tida como certa. Em São Paulo, o presidente estadual, Marco Vinholi, afirmou que não vai mobilizar os filiados, mas que "espontaneamente muita gente irá participar". Já Fernando Alfredo, à frente do diretório municipal, convocou a militância para se juntar à esquerda, no que chamou de "luta em defesa da democracia".

O PSL de São Paulo, abrigo de boa parte da tropa de choque de Bolsonaro na Câmara, como Eduardo Bolsonaro e Carla Zambelli, é favorável à participação. O presidente estadual, Junior Bozzella, que articula o embarque do MBL no partido após a filiação de uma das suas lideranças, o vereador Rubinho Nunes, disse que as recentes denúncias da gestão do governo federal na pandemia mudaram os ventos contra o presidente.

— Mudou muito na última semana. Já tem um sentimento mais apurado para as pessoas aderirem. Eu mesmo pretendo participar. E vou levar as pessoas que estão comigo, que estão filiadas ao PSL de São Paulo — declarou Bozzella.

Renato Sella, porta-voz do Vem Pra Rua, diz que o grupo pretende retomar os protestos presenciais, mas que vai esperar a vacinação avançar no Brasil, especialmente em São Paulo. Manifestações de rua voltarão a ser convocadas, segundo ele, quando a vacinação da população atingir entre 60% e 70%, o que Sella calcula que ocorrerá em meados de setembro.

— A instituição Vem Pra Rua, no momento, não sairá às ruas, por ter compromisso com a vida e a imunização. Isso não significa que iremos criticar aqueles que o estão fazendo. Mas estamos organizando, sim, saída as ruas — disse Sella.

Tanto Bozzella quanto Sella defendem que os atos precisam ter mais "verde e amarelo" para agregar outros setores da sociedade.

O diretório nacional do Novo, por sua vez, que se coloca como oposição ao governo Bolsonaro, tem orientado os apoiadores a "esperarem o momento mais adequado, diante da crise sanitária que vivemos".

Os atos pelo "fora, Bolsonaro" têm sido convocados por três organizações: as Frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular e pela Coalizão Negra por Direitos. Elas reúnem centenas de coletivos, grupos, associações e movimentos sociais, como MTST, MST, UNE, Educafro, Prerrogativas, CTB e CUT.

Recepção a grupos não é consenso na esquerda

Douglas Belchior, porta-voz da Coalizão, diz que a organização não tem previsão para articular a adesão de grupos mais à direita, mas que "todos os setores são importantes".

— Quanto mais ampla a mobilização pelo "fora, Bolsonaro", mais chances temos de derrubá-lo.

A recepção a grupos de direita nesses protestos, no entanto, não é consenso dentro da esquerda. Nesta quinta-feira, o presidente do PSOL, Juliano Medeiros, brincou com o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP) no Twitter ao convidá-lo a aderir aos atos de rua. Os seguidores de Medeiros criticaram a sugestão.

Apoiadores de Bolsonaro têm tentado associar o petista aos protestos que já foram realizados em duas oportunidades, em maio e junho, mas o próprio ex-presidente tem evitado se manifestar sobre os eventos. Apesar da presença da presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, nos atos anteriores, Lula se manteve discreto nas redes sociais.

Na última quarta-feira, Lula comentou a mobilização: "Parabenizo as forças de oposição ao Bolsonaro e os movimentos sociais que conseguiram unificar os mais de 120 pedidos de impeachment pra pressionar o Lira. Espero que as manifestações de rua convençam o presidente da Câmara a colocar em votação."

Uma ala do partido é contrária à ida às ruas. Para o senador Humberto Costa (PE), por exemplo, a crise sanitária ainda é grave e esses eventos não são seguros. Fora do PT, o ânimo é outro. Lideranças como Guilherme Boulos (PSOL) defendem tirar Bolsonaro o quanto antes, por considerá-lo "pior do que o vírus". Com o surgimento de novas denúncias contra o governo federal, os organizadores dos atos, inclusive, anteciparam os protestos que estavam previstos para o fim de julho.

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