Alcindo relembra episódio em que separou briga de Cuca no Grêmio

Alcindo em amistoso beneficente em 2011 (Heuler Andrey/Agif/Gazeta Press)

Por Felipe Portes (@portesovic)

Esperamos o fim da colheita de agosto para poder conversar melhor com Alcindo Sartori. Hoje fazendeiro, em São Miguel do Iguaçu, no Paraná. Pequeno produtor de soja, o ex-atacante se distanciou um pouco do futebol. Mas é difícil esquecer o que ficou para trás. O passado sempre o convida para novas visitas.

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Ídolo no Flamengo e no Kashima Antlers, Alcindo sempre aparece em eventos de masters e jogos festivos com a camisa do Fla. Não à toa, é lembrado por um período especial do clube carioca: a conquista da Copa União em 1987 e da Copa do Brasil de 1990. Esteve na Gávea no fim da carreira de Zico, convivência que anos mais tarde, rendeu uma transferência para o Japão.

Morando na pequena cidade paranaense, ele acompanha de longe o filho, Igor Sartori, de 25 anos, que segue carreira como profissional. Eles conversam quase que diariamente pela internet. Assim como o pai, Igor foi jogador de base e promovido ao profissional do Flamengo. O herdeiro, depois disso, passou pelo Kashima Antlers e rodou por Bragantino e Red Bull Brasil antes de acertar com o Tai Po, de Hong Kong, sua equipe atual. Igor marcou 17 gols na temporada passada, renovou contrato e mira clubes de maior expressão no cenário asiático para o futuro.

Mas não há nada como a nostalgia. Ao longo de sua carreira, que durou pouco mais de uma década, Alcindo provou da glória nacional e jogou por grandes clubes, conviveu com estrelas inesquecíveis como Zico, Renato Gaúcho, Bebeto, Leonardo, Telê Santana, Raí, entre outros. Essas passagens o credenciam a falar um pouco sobre o que viu nos anos 1980 e 90. A Copa do Brasil, em especial, tem um pedaço importante dedicado ao ex-camisa 7. Foi de Alcindo o primeiro gol da história do torneio, em 1989, contra o Paysandu.

A partir desse recorte temporal, conversamos com ele sobre Flamengo, São Paulo, Grêmio e a participação de cariocas e gaúchos nesse ano movimentado para ambos. Confira na íntegra a entrevista e relembre algumas histórias vividas pelo artilheiro.

No primeiro jogo da Copa do Brasil, em 1989, contra o Paysandu, o Flamengo venceu jogando na Gávea. O que você lembra daquele jogo e especialmente daquele gol, que ficou para a história do torneio?

O que me lembro é do Léo Jaime, o cantor, chegou para mim antes do jogo e falou: “tô sentindo que você vai fazer o gol, hoje”. Encontrei ele, me lembro, depois de muitos anos, no Maracanã. E comentei: “Poxa, Léo, você não deve lembrar, mas foi minha inspiração para aquele primeiro gol da história da Copa do Brasil. Você pressentiu que eu ia fazer o gol! É uma memória que tenho”.

Sobre a jogada, veio um cruzamento e o Zico tocou rapidinho pra mim. Dominei e bati. O Zico ainda falou: “pô, porque você não bateu de primeira?” Falei pra ele que queria cortar o zagueiro pra chutar.

Você jogou no último grande Flamengo, aquele time de 1987 que tinha muito talento. Zico, Leonardo, Jorginho, Bebeto, Renato, Leandro, Aílton, Edinho, Zinho. Como era dividir espaço com tantos caras bons? Isso mexeu com a sua cabeça, de início?

Então, como eu subi para o profissional em 1986, tive um pouco de experiência. O [Sebastião] Lazaroni que me colocou no time principal. Às vezes eu descia de novo para jogar com os juniores. Mas aí chegou a Copa União de 1987, eram muitas estrelas, muitos jogadores, a briga maior era conseguir ficar no banco, ou de sobreaviso. Graças a Deus tive a oportunidade de estar no meio dessas feras todas, na final entre Flamengo e Internacional.

Foi uma bênção, uma alegria muito grande aquele gol do Bebeto. Poder participar de um grupo daquele não tem preço. É muita alegria poder ter vivido isso. Recentemente, fomos reconhecidos pela torcida do Flamengo [Fla Nação] em uma homenagem por essa histórica conquista.

Apesar da frustração na Copa do Brasil em 1989, com a derrota na semifinal para o Grêmio, o Fla buscou o título em 1990. Qual foi sua participação no torneio, antes da ida para o São Paulo?

O Flamengo estava em uma situação complicada. Ganhamos a Copa União em 1987, em 88 e 89 já não estava ganhando muita coisa. Nós perdemos o Carioca para o Botafogo, que estava praticamente na nossa mão. Aí houve uma troca. Veio o Jair Pereira para o Flamengo. Depois, eu e Leonardo fomos mandados para o São Paulo, Nelsinho e Bobô foram para o Flamengo. O Francisco Horta que realizou a operação. Havíamos disputado metade dos jogos da Copa do Brasil, então fomos campeões também. Acho até que fiz gol, não me lembro. Eu achei curioso de estar no São Paulo e torcer para o Flamengo, até pelos amigos que fiz lá. Foi muito legal ver isso de longe, depois daquela derrota para o Grêmio, a volta por cima, no título contra o Goiás.

A opção de ir para o São Paulo foi sua? Como se deu a negociação e o que você tinha em mente quando aceitou o convite? O Tricolor ainda estava engatinhando para ser a potência que se transformou sob o comando de Telê Santana.

A minha ida para o São Paulo foi porque Bobô e Nelsinho estavam desgastados por lá. Daí teve uma conversa. Naquela época, todo mundo falava muito bem do São Paulo, em termos de organização e estrutura. Eu e Leonardo fomos chamados, imagino que ele pensou a mesma coisa que eu, de buscar novos ares. O técnico ainda era o [Pablo] Forlán. Fomos buscando aos poucos os resultados e chegamos na final do Brasileiro, em 1990, aí já era o Telê Santana. Perdemos para o Corinthians, mas o São Paulo estava em uma transição e acabou se reerguendo. Consequentemente conquistou os títulos de 1992 e 93, Libertadores e Mundial, ganhou tudo com o trabalho do Telê. Acho que foi uma experiência muito válida a de jogar lá, principalmente pela estrutura. Falava-se muito bem do São Paulo e do Cruzeiro, mas poucos clubes tinham isso antigamente.

De 1991 a 93, você atuou pelo Grêmio. Mas a fase não era boa e o time gaúcho jogava a Segunda Divisão. Na segunda fase, você engrenou e marcou três gols, fundamentais dentro do contexto da competição. Como foi a experiência de jogar em um grande que lutava para retornar à elite, em um tempo que ainda não era comum ver esse tipo de situação?

Voltei para o Flamengo, depois do empréstimo para o São Paulo. Joguei a Libertadores, mas o time contava com muitos atacantes. No Grêmio, o [Valdir] Espinosa, que já havia trabalhado no Flamengo, me chamou. O clube já estava na segunda divisão e me lembro de ter ido pra lá. Fui vendido, eram tempos muito difíceis. O Grêmio não pagava salários, o elenco estava muito rachado. Teve uma coisa de equipe grande como aquela estar disputando a segunda divisão. Perdemos alguns ídolos, outros jogadores saíram, o Assis, irmão do Ronaldinho, estava machucado.

Do momento da minha chegada na metade de 1991, até a saída, no fim de 1992, o elenco estava se reformulando. Só tive alegrias lá, apesar de todos os problemas que enfrentamos. Tive sorte de ter me acertado com a camisa gremista e com a torcida. Também fui jogar lá em homenagem ao meu pai, gremista doente. Meu nome é Alcindo por causa do atacante que passou pelo Tricolor nos anos 1960 [1964-71]. Era uma honra defender aquele clube. Tenho orgulho até hoje por essa oportunidade de jogar com o Grêmio. Me sinto muito feliz pela passagem que tive lá, foi positiva, só não consegui conquistar títulos, mas voltamos à primeira divisão. Aí apareceu o Kashima Antlers, o Grêmio me vendeu e fui embora para o Japão…

Houve um processo de desistência do Grêmio em jogar a Série B, já que nem com as mudanças no regulamento, o time conseguiu o acesso. O que foi passado para vocês jogadores na época?

Esse processo de não disputar a Série B, especialmente, não me lembro. Não veio ao meu conhecimento, pelo menos no meu caso. Ou não estou me lembrando. Nós éramos apenas atletas. Jogávamos, mas isso não foi passado pra gente. A preocupação quando estávamos na segundona era devolver o Grêmio à elite.

Apesar da má fase do clube, você terminou o ano com 17 gols. Mas logo depois veio o convite do Japão. Algum time brasileiro te procurou antes da sua ida para o Kashima Antlers?

Então, eu fui bem no Grêmio, pelo fato de ter feito gols e caído nas graças da torcida. Joguei com honra e muita vontade. Apareceram muitas sondagens, na época, para que eu deixasse a equipe, mas nada concreto. Tanto é que quando apareceu o Kashima, a convite do Zico, eu estava vendido há três meses. Só esperei chegar ao final do campeonato e tive paciência, fiquei quieto e não falei nada a ninguém sobre a transação. Negociei com o presidente do Grêmio e os representantes do Kashima, em definitivo, no dia 28 de dezembro de 1992. Eu já sabia bem antes disso que estava para acontecer. Foi algo marcante, ninguém esperava. Fui para o Japão para ganhar 30 vezes mais.

Acho que acertei. Sempre agradeço ao Zico pela oportunidade, por ter lembrado de mim e me levado para lá, apostado no meu futebol. Tive a chance de melhorar financeiramente a minha vida a partir dali.

Como você vê o Flamengo nessa segunda metade de 2018? O time foi eliminado da Libertadores, mas segue vivo na Copa do Brasil e no Brasileiro. Existe margem para crescimento, ou você acha que o momento é de muita tensão e de conseguir resultados minimamente satisfatórios?

O que eu vejo no Flamengo é uma equipe em ascensão. Os jogadores melhoraram muito em relação ao ano passado. Eles entenderam o que é defender o Flamengo, essa camisa, que é uma das mais importantes do Brasil. Não que as outras não sejam, mas eles têm a maior torcida. Traz público, traz alegria, traz mídia, sabe? Traz a curiosidade mundial de conhecer o clube. O gostoso de ver é o Flamengo sempre vencendo.

Jogar no Flamengo não é fácil. Eu entendo que vários jogadores de outras equipes chegando lá e eles empacam, não têm continuidade. É complicado. Você tem que entender que vestir essa camisa é diferente de tudo, de todos os outros clubes. Pude jogar no São Paulo, no Grêmio, no Corinthians, no Fluminense. Mas no Flamengo é diferente. Não que seja melhor, não é isso. Em relação à mídia, à torcida, à cobrança. Ganhar títulos lá engrandece mais, até o lado pessoal do jogador. Tem que ter vontade. Se não tiver tesão, objetivo de vencer, não consegue chegar.

Falta muito ainda para o Flamengo ganhar algo. Tem muitos jogadores bons, mas a hora que os mais novos se acertarem, vai ser possível. O atleta, acima de tudo, é um ser humano. A gente sabe que tem que ter cobrança em cima deles, mas às vezes o erro é de quem contrata, não deles que estão lá em campo. Em muitas ocasiões, o cara chega lá e não tem muito o que evoluir, é aquilo que ele sabe e pronto. É minha opinião, claro…

Você conviveu com o Renato nos tempos de Fla. E agora ele se notabiliza como grande treinador. O que você vê nele que já vinha desde a fase como atleta? A facilidade de entender e gerir o elenco?

Rapaz, eu dividi quarto com o Renato. Sempre fui fã dele. Tive a oportunidade de jogar ao lado dele no Flamengo, em 1987. Admiro muito ele. É um cara que tem muita personalidade e sempre dizia: “quando eu parar de jogar bola, vou ser treinador”. Sempre respeitou, nunca menosprezou ninguém, ajudou muita gente, por onde passou, em todos os clubes. Mas é aquela coisa, não tem como não aparecer alguém que não goste dele. A vida é assim.

Torço muito por ele. Ele sabe como funciona o futebol. Tem muita gente que tá no meio do esporte e que nunca deu um chute na bola. Isso atrapalha. Muita gente que jogou, com experiência, não pode chegar lá, não pode trabalhar, ou fica impedido de atuar. Renato, a meu ver, matou a pau quando disse que não precisa ir lá para fora para aprender algo. Traz novidade, e a novidade é o que ele está fazendo no Grêmio. Se você for ver, todas equipes vivem seus momentos.

Veja o Telê, que em 1982 e 86 não ganhou nada, todo mundo falava que era bom, mas que só foi ganhar crédito no São Paulo. O clube acreditou nele e provou que era bom. Foi campeão de tudo lá. Você pega o Vanderlei Luxemburgo, que pegou muitos times grandes, conquistou diversos títulos. O próprio Felipão. Toda regra tem exceção. Às vezes tem um ou outro que nunca jogou bola e não viveu no meio do futebol, mas que consegue ganhar alguma coisa. É mais difícil, porém…

Cuca: temperamental e predestinado

Vale a pena dar uma pausa nas perguntas. Durante a conversa, Alcindo se recorda de um episódio vivido com Cuca. Durante a eliminação santista da Libertadores em 2018, o treinador foi visto em momento tenso, enquanto tentava acalmar um policial que rendia um torcedor no campo, após invasão. Nesse intervalo, quase partiu para a briga e precisou ser retirado do local por alguns de seus jogadores. Não foi a primeira vez que Cuca estourou dentro do futebol. Alcindo recupera uma memória especial.

“Joguei com o Cuca no Grêmio, em 1992. Tive uma passagem curiosa com ele. Naquele tempo, aconteceu uma discussão dele com um diretor, lá no Olímpico. A sala da presidência ficava em cima da arquibancada. Ficávamos olhando o estádio em dias sem jogos, então subíamos por lá para falar com os dirigentes. Um dia, então, deu um problema lá com esse diretor e eles quase saíram na porrada. O Cuca quis bater no cara. Segurei ele, se acalmou, e tudo mais. Sentamos ali no concreto da arquibancada e ele me falou assim: “Alcindo, um dia vou ser treinador. Quando eu parar de jogar, vou estudar e me formar nisso. Vejo tanto cara ruim por aí… o futebol não tem segredo.”

“Fico orgulhoso dessa história. Nunca mais falei com o Cuca. Quero ver se ele lembra disso quando a gente se encontrar. Tá aí ganhando títulos, né? Sofreu um pouco, mas ganhou”, conta Alcindo.

O Grêmio perdeu um pouco do arranque que mostrou no ano passado, o que é normal. Desgaste, adversários mais preparados. Esse ano reserva algum título, ou você vê uma dificuldade maior para superar a distância no Brasileiro e na Libertadores?

É lógico que você não consegue manter um elenco firme e forte no Brasil como fazem lá na Europa. O Grêmio já perdeu o Arthur, que é um baita jogador, tem apenas 21 anos. Vem o cara lá de fora e leva o menino. Isso pode acontecer com qualquer um. Às vezes, você tira uma peça fundamental da equipe, que nesse caso foi fundamental para a conquista da Libertadores.

Tenho certeza que o Grêmio vai dar uma caída. Mas algum título eles papam esse ano. Ou mais, até, nunca se sabe. O que vale é disputar sempre, estar na boca para ganhar um título. O Tricolor ficou 15 anos na fila, aí foi lá e ganhou Copa do Brasil, Libertadores, Recopa. Não só o Grêmio, qualquer outra equipe. O Internacional, agora está na fila, mas daqui a alguns dias pode ganhar também.

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