Alckmin acerta ao ter Bolsonaro como alvo

Neto Talmeli/Futura Press

Por José Antonio Lima (@zeantoniolima)

Geraldo Alckmin resolveu nesta semana correr atrás de Jair Bolsonaro. Pressionado por correligionários e por seu desempenho ruim nas pesquisas de opinião, o ex-governador de São Paulo passou a fazer provocações e críticas mais intensas ao deputado federal do PSL, que lidera todos os levantamentos eleitorais para o Palácio do Planalto nos cenários em que Luiz Inácio Lula da Silva não é candidato. Até meme de John Travolta em Pulp Fiction está valendo. A ação evidencia que o círculo próximo do tucano vê o ex-capitão da reserva do Exército como uma ameaça significativa a sua campanha.

Nos últimos meses, Alckmin tentou se notabilizar como um candidato de “centro”, que seria o meio-termo entre os “extremismos” de Lula e Bolsonaro. Em 23 de maio, durante sabatina de veículos de comunicação, o tucano inclusive igualou os dois. “O Bolsonaro e o PT são a mesma coisa. É corporativismo puro. Não têm interesse coletivo, é defesa de corporação”, disse. “Ele votou igual ao PT em todas as pautas econômicas”, afirmou.

A dificuldade da tese “centrista” de Alckmin é o fato de que essa posição é reivindicada também por vários outros pré-candidatos, como Rodrigo Maia (DEM), Henrique Meirelles (MDB) e Michel Temer (MDB) enquanto este esteve na disputa.

Como colocado nesta coluna em 27 de abril, dificilmente se pode levar essa tese a sério. No governo após o impeachment, Temer e Meirelles colocaram em prática justamente o programa do PSDB, com ainda menos preocupação social do que os tucanos teriam. Essa turma – Alckmin, Maia, Temer, Meirelles – consiste, portanto, a direita no espectro político brasileiro. Ela não mudou de lugar por conta da presença de Bolsonaro. Bolsonaro é, na realidade, uma figura atípica, uma aberração na preferência política dos brasileiros, que até hoje jamais haviam dado tamanha relevância a uma figura da extrema-direita.

Mas por qual motivo Alckmin decidiu ir para o debate com Bolsonaro? Muito provavelmente porque sabe que muitos potenciais eleitores do candidato podem cair no seu colo. Não à toa, as provocações de Alckmin giram em torno da pauta da segurança pública, a principal de Bolsonaro. Também não foi à toa que Alckmin colocou em sua campanha nesta semana um general do Exército – João Camilo Pires de Campos – justamente para dar ideias de ações nesta área.

A relação entre uma possível desidratação da campanha de Bolsonaro em favor de Alckmin é um tema que vem sendo debatido por especialistas. Alguns avaliam que, apesar de estar bem à frente do tucano e de desfrutar dos efeitos da crise democrática, o deputado terá dificuldades para manter sua intenção de voto. E aí Alckmin seria beneficiado.

Seus bons resultados se devem a muitos fatores: à desilusão com o processo democrático, ao desgaste da classe política tradicional, à indignação com os casos de corrupção, à crise na segurança pública, à proeminência recente das Forças Armadas, entre outros. Mas esses sentimentos ficariam diluídos quando a campanha começar.

Em primeiro lugar, porque a campanha de fato ainda não começou. Apenas os mais atentos à política estão acompanhando o noticiário específico sobre o pleito. Em segundo lugar, porque Bolsonaro ainda não foi de fato testado em debates. Por enquanto, ele fala sozinho, sem adversários, e não precisa elaborar propostas mais detalhadas.

Para piorar a situação futura de Bolsonaro, segue este raciocínio, ele terá dificuldades não só na busca por conteúdo, mas por ter pouco tempo de televisão. Para completar, ele está em um partido sem capilaridade, o que pode atrapalhar a campanha.

Tudo isso é, por enquanto, uma análise especulativa, uma aposta de que o eleitor vai abandonar essa figura estranha ao sistema que é Bolsonaro e voltar para os velhos nomes da política quando a eleição se acirrar.

Pode ser, no entanto, arriscado apostar em uma desidratação automática de Bolsonaro. Não é desprezível a revolta da população contra o sistema e a classe política, como a paralisação dos caminhoneiros deixou claro. A maior parte da população apoiou o movimento mesmo sofrendo seus efeitos negativos.

Também não há garantia de que o PSDB vai conseguir tomar de volta a principal bandeira que usou nas últimas eleições: o antipetismo. Bolsonaro tem mostrado saber manejar este sentimento, em especial em um cenário no qual cada vez mais gente vê todos os partidos como “farinha do mesmo saco”.

Cabe destacar ainda que, neste ano, a campanha será de tiro curto. Os brasileiros terão meros 45 dias para escolher seu novo presidente. É um cenário que favorece candidaturas com apelos “inovadores”. O PSDB sabe disso. Em 2016, conseguiu eleger em São Paulo o aventureiro João Doria Jr., cujas propostas eram altamente questionáveis.

Ao que parece, a campanha de Alckmin resolveu não esperar que os votos de Bolsonaro eventualmente caiam em seu colo. Por isso, decidiu partir para cima do deputado e, já a partir de agora, tentar exibir o que imaginam ser seus pontos fracos. A intenção, óbvia, é se beneficiar dos eventuais deslizes do adversário. Para o PSDB, há muito em disputa. O partido esperava ser o grande beneficiário da derrocada do PT, com quem polarizou o sistema por duas décadas, mas agora corre o risco de cair na irrelevância e ver um extremista tomar seu lugar como oposição principal ao campo progressista.