Alckmin discute com fintechs abertura de mercado de crédito agrícola

Ex-governador Geraldo Alckmin, candidato a vice do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Por Lisandra Paraguassu

SÃO PAULO (Reuters) - O ex-governador Geraldo Alckmin (PSB), candidato a vice na chapa à presidência de Luiz Inácio Lula da Silva(PT), recebeu nesta semana representantes da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintech) com o objetivo de discutir proposta do setor para autorizar a entrada dos bancos digitais no sistema que oferece crédito agrícola obrigatório no país.

O encontro é parte do protagonismo que Alckmin tem ganhado na campanha onde, além de cumprir agenda ao lado de Lula, tem mantido reuniões com interlocutores de setores da economia, como varejo e agronegócio.

Dentro do programa de governo de Lula, que lidera as pesquisas de opinião, o ex-governador paulista trabalha em um grupo de propostas para agilizar e desburocratizar a criação e o financiamento dos negócios.

Na reunião nesta quarta-feira, em São Paulo, os representantes da ABFintech defenderam que a proposta que apresentaram vai aumentar o acesso dos produtores a recursos além de aumentar a concorrência aos bancos públicos no segmento.

A reivindicação das fintechs é que possam entrar na rede de bancos que concedem o crédito agrícola obrigatório, baseado nos depósitos compulsórios que os bancos precisam recolher ao Banco Central. Hoje esse tipo de operação é restrita aos bancos tradicionais, que sequer conseguem emprestar tudo que poderiam e acabam tendo que pagar multa pela não alocação.

"São poucos bancos que detém essa carteira de crédito e um desses cinco é majoritário. Não existe estímulo para redução da tarifas, custo dos empréstimos", disse à Reuters Diego Perez, presidente da ABFintech.

Hoje, em média, explica, os bancos cobram CDI mais 5% ou 6% aos produtores. Com a alta de Selic, em 13,5% ao ano, o custo das operações pode chegar a quase 20% ao ano. Esse é o valor oferecido aos agricultores para além do Plano Safra --que este ano tem juros entre 5% a 6%. O plano, no entanto, não cobre toda a necessidade do setor e produtores.

"É muito alto por um reflexo da Selic. O objetivo é tentar reduzir o mais próximo para o CDI, sem acréscimo, e tenha novos modelos de financiamento", explicou Perez.

Ainda que as fintechs não recolham os compulsórios, elas podem, segundo Perez, integrar a cadeia de distribuição desses recursos."Podemos tanto ser correspondentes bancários como agências de crédito direto. Isso consegue aumentar a capilaridade e o alcance das ofertas de crédito", defende.

Hoje existem cerca de 600 Fintechs filiadas à associação. Dessas, em torno de 20 já operam diretamente no setor agropecuário.

As conversas da ABFintech não são exclusivas com o PT. Negociações para mudar a legislação e permitir a entrada nesse segmento estão sendo feitas há algum tempo com o Ministério da Agricultura, com o Banco Central e com o Congresso Nacional, já que a legislação precisaria ser alterada.

Mas, frente a possibilidade real de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva venha a vencer as eleições deste ano, a associação decidiu apresentar suas propostas já à campanha petista.

No encontro, Alckmin disse ao representante das empresas que a ideia iria ser levada a Lula e a núcleos que preparam o programa de governo para que sua viabilidade seja analisada.

O coordenador do programa de governo de Lula, Aloizio Mercadante, disse à Reuters que as propostas foram recebidas, mas descartou que uma decisão seja tomada agora ou que sejam incorporadas ao plano de governo.

"Recebemos demandas que estamos analisando, não temos ainda uma avaliação conclusiva. É uma discussão que envolve Bacen e outros organismos do governo, é um tema de governo. Nesta reta final de campanha dificilmente podemos nos debruçar sobre este tipo de proposta", disse Mercadante. "Mas estará registrada e será encaminhada para as equipes de transição, no caso da eleição do ex-presidente Lula."