Aldir Blanc arrefeceu o tempo e nos libertou

Capa do álbum Vida Noturna, de Aldir Blanc

Se não tivesse optado por viver na zona rural de uma cidade de 11 mil habitantes no interior paulista, meu tio Mauro Romera provavelmente seria amigo e parceiro de poemas e composições da nata da nata da MPB. Na chácara que ele transformou em morada, ele construiu um bar onde, a depender do humor, se erguia ou se afundava noite adentro entre amigos, copos, garrafas, luz neon, música, recortes e quadros dos seus artistas favoritos. 

O bar era a extensão de uma casa que ele construiu sem derrubar a mata nativa. Quem quisesse tomar água à noite que cuidasse de se desviar da árvore que ele se negou a tirar do caminho entre o fogão e a geladeira.

Meu tio morreu em março, vítima de um ataque cardíaco. Eu estava, literalmente, do outro lado do mundo, contando as horas para voltar, abraçar e ser abraçado por meus familiares. Quando cheguei, o país entrava em quarentena, com todos os abraços adiados, inclusive em minha mãe, sua irmã, e meus avós.

A morte prematura do meu tio interrompeu uma conexão musical iniciada há mais de 37 anos -- os últimos, com trocas diárias de mensagens de WhastApp, onde celebramos refrões e lamentamos juntos cada perda da música brasileira. (Uma das últimas, a de Tavito, choramos juntos, a 205 quilômetros de distância; ele no bar, eu em um ônibus, em Campinas).

Quando ele morreu, pedi ao tempo que fizesse jus à fama e borrasse as memórias do que ainda doía.

Dias atrás, por muito pouco não corri ao celular e enviei uma mensagem a ele para maldizer a vida pela morte do Moraes Moreira. Me contive.

Hoje, pela manhã, soube da morte do Aldir Blanc, autor de ao menos duas das composições obrigatórias de qualquer antologia da música popular brasileira. Uma delas é “O Bêbado e a Equilibrista”, que tantas vezes ouvimos juntos naquele bar da mata. Outra é “Resposta ao Tempo”.

Quando recebi a notícia, pensei no meu tio, no bar, no cenário que ele montou no meio da mata e onde hoje, em vez de homenagens, choros, sons e trocas de mensagem, a passagem do Aldir Blanc correrá em absoluto silêncio.

Esse silêncio doeu como no dia de sua partida. Doeu duas vezes.

Para suportar, botei o fone de ouvido e o tênis de corrida e saí andando para disfarçar a vontade de voltar àquele bar e promover uma festa a todos eles.

Cada passo era uma martelada na vontade de viajar enquanto ouvia a resposta de Aldir Blanc (em parceria com Cristóvão Bastos) ao tempo que ele acaba de vencer.

A música, cinematográfica, é um embate entre um homem e o seu esquecimento.

As batidas na porta da frente prenunciam o ajuste de contas com o tempo -- um ajuste que tentamos, em vão, adiar o tempo todo.

Do lado de dentro há alguém calado, sem jeito, bebendo para ter argumento. O tempo sabe passar, por isso zomba do quanto choramos ao recordar um amor perdido. Perdemos por não saber ficar.

O diálogo é um jogo de xadrez bergmaniano regado a álcool: a certa altura, o tempo sussurra, zombeiteiro, lembrando que apaga os caminhos e que os amores terminam sozinhos no escuro.

É quando o homem se rebela. Se o tempo aprisiona, ele liberta; se o tempo adormece as paixões, ele desperta.

Se não, de que vale ter vivido?

É quando o tempo se rói de inveja, querendo aprender como é possível morrer de amor para poder reviver. “No fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer”, debocha, vitorioso, o compositor.

A música é a trilha sonora do embate dos embates. Reviver é revolver a memória, é amarrar tudo o que mexe, dói, sangra e queima. É trazer à tona o que se viveu para não se dobrar nem ao tempo nem ao esquecimento.

Aldir Blanc arrefeceu o tempo e nos libertou.

A dor, agora, pode doer em paz. O tempo que espere.