Alemão, Salgueiro e Complexo de Israel são as favelas mais citadas no Disque Denúncia

Vera Araújo
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Em 27 de junho do ano passado, chegava ao Disque Denúncia (DD), pelo WhatsApp (21-98849-6099), a informação sobre uma nova aliança entre grupos criminosos. O relato era de que o traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, e milicianos das localidades do Quitungo e Guaporé, em Brás de Pina, fariam uma festa para celebrar a união entre três quadrilhas. A fusão ganhou até nome: “trelícia”. Malaquias é apontado como o chefe do Complexo de Israel, formado pelas comunidades de Vigário Geral, Parada de Lucas e Cidade Alta, em Cordovil. Denúncias desse tipo fazem com que o conjunto de favelas ocupe a terceira posição no ranking do DD dos locais mais citados nas ligações, com 736 casos. Em primeiro lugar está o Complexo do Alemão (1.315) e em segundo, o Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (1.220).

Segundo o coordenador do serviço, Zeca Borges, as informações analisadas pelos setores de inteligência do Disque Denúncia servem para retratar o que ocorreu entre 2019 e 2020, abrangendo inclusive o período da pandemia. A pesquisa foi feita a pedido do EXTRA. Zeca ressalta que, com o fechamento de estabelecimentos comerciais e o desemprego, até milicianos e traficantes lucraram menos. As associações entre as quadrilhas foram uma forma de ampliar os “negócios”. Ele lamenta a organização entre eles.

— A crise diminuiu a venda de drogas pelo tráfico. Milicianos, por sua vez, não têm como extorquir dinheiro dos moradores como antes, porque muita gente não têm como pagar, pois perdeu o emprego. O jeito foi expandir os territórios ou se associar a outros grupos — explica Zeca. — Há um crescimento horizontal. Os traficantes da Cidade Alta, por exemplo, ficavam em seus redutos antes da crise. Agora, eles estenderam os domínios pelo bairro. Há barricadas em locais onde nunca houve.

Pelos relatos do DD, o Complexo de Israel foi um dos que mais cresceram no último ano. Numa das denúncias, o informante conta que, nos acessos à Cidade Alta, é possível ver homens armados com fuzis 24 horas por dia, às margens da Avenida Brasil. Não à toa, houve casos em que motoristas entraram por engano no reduto dos bandidos. Há denúncias ainda de que a polícia não se arrisca em algumas favelas:

— São pedidos de socorro do tipo “por favor, nos ajudem, a polícia não aparece aqui”. Isso ocorreu porque as forças policiais só conseguem entrar com blindado e helicóptero. Têm ocorrido as restrições do uso da aeronave por ordem do STF. As pessoas se ressentiram dessa ausência — analisa Zeca.

A Polícia Militar , por meio de nota, informou que as unidades “estão capacitadas para entrar em qualquer território do estado”.

Mais de 60 mil informações

Na lista das dez favelas mais citadas nas ligações do Disque-Denúncia, quatro são de São Gonçalo. Além do Salgueiro (1.220), constam o Jardim Catarina (287), a Lodial/Favelinha (361) e a Brejal (324). Nos relatos, os denunciantes citam pontos de venda de drogas, hierarquia do tráfico local, esconderijos de armas e drogas, vias fechadas com barricadas e lugares onde ocorrem bailes funk.

Entre janeiro de 2019 e dezembro de 2020, foram 60.690 informações relacionadas a tráfico de drogas e 13.757 sobre milícia. Neste último caso, o destaque foi para os conflitos em favelas da Praça Seca, como Bateau Mouche e Morro da Barão, com 575 denúncias. Apesar de estar localizada no mesmo bairro, a Chacrinha aparece na relação em separado, com 117 registros. Rio das Pedras, primeiro local dominado por milicianos, se destaca com 265 queixas.

Ronaldo Oliveira, assessor especial estratégico da Secretaria de Polícia Civil, diz que não adianta a polícia ir às favelas apenas em casos excepcionais, como ocorreu na semana passada, quando houve operação na Kelson’s, na Penha. O objetivo era prender o traficante Dalton Santana, acusado do feminicídio de Bianca Lourenço, no dia 27 de dezembro.

— A polícia tem que mostrar superioridade nas ações. As favelas de São Gonçalo, por exemplo, são de difícil acesso. São pontos estratégicos onde só se chega de helicóptero. Se a população quer a nossa presença, a sociedade tem que nos apoiar. Só assim podemos virar o jogo no combate ao crime organizado. Da nossa parte, prometemos investigação e ações com inteligência — afirmou Oliveira.

‘Drone virtual do DD’

Denúncias com riquezas de detalhes são postadas no Twitter do Disque Denúncia. Segundo o coordenador do serviço, Zeca Borges, os atendentes buscam informações minuciosas de quem passa os dados, a tal ponto, que o serviço ganhou o apelido de “drone virtual do DD”.

— Quando você vai lendo as informações, a impressão é a de que há um drone sobrevoando o local. É tão detalhada a visão de quem denuncia, que ela traz os nomes, a facção, o tipo de armas, as rotas de fuga. A impressão é de que estamos planando sobre as favelas — brinca Zeca.

Há casos também em que o denunciante não confia na polícia. Num dos relatos, feito em 19 de outubro, uma pessoa pede a presença do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio. Ela diz morar no Sítio do Pai João, no Itanhangá, e acusa milicianos de extorquirem R$ 70 de quem vive lá: “Até quando viveremos a mercê desses vagabundos? Se o Disque Denúncia puder nos ajudar, agradecemos! E se possível, avisem só ao Gaeco, os moradores do Sítio do Pai João só acreditam no trabalho dele”.