Europa espera recessão histórica por COVID-19 e China rejeita investigação

Por Mathieu FOULKES con Esther SANCHEZ en París y las oficinas de la AFP en el mundo
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Aulas reiniciadas nas escolas do ensino médio de Wuhan, China, em 6 de maio de 2020

A Europa espera uma recessão histórica em 2020, em particular dos países do sul, pelo freio do turismo e da economia provocado pelo coronavírus, enquanto a China rechaçou, nesta quarta-feira (6), a abertura de uma investigação internacional sobre a origem da pandemia.

Em Wuhan, cidade do centro da China onde surgiu a pandemia, os estudantes de Ensino Médio voltaram às aulas de máscara, com a orientação de manter uma distância segura e sendo submetidos a controles de temperatura.

Até o momento, o coronavírus já deixou 257.000 mortos no mundo e obrigou mais da metade da população do planeta a permanecer em casa.

Muitas incógnitas permanecem, porém, sobre a origem da pior crise mundial em décadas.

Nesta quarta-feira, a China reagiu à acusação do secretário de Estado americano, Mike Pompeo, de que o novo coronavírus teria saído do Instituto de Virologia de Wuhan.

Para Pequim, Pompeo não pode apresentar "provas", "porque não tem" nenhuma evidência.

Neste sentido, a China considera que é prioritário derrotar o vírus antes de investigar sua origem.

"Agora, a principal prioridade é se concentrar na luta contra a pandemia até a vitória final", afirmou o embaixador chinês na ONU em Genebra, nesta quarta.

- Normalização

Na Europa, a Alemanha entra hoje em uma etapa decisiva da saída do confinamento, com a reabertura de todos os estabelecimentos comerciais e escolas do país este mês, a partir da próxima semana, segundo um projeto de acordo entre o governo e as regiões, ao qual a AFP teve acesso.

As medidas são possíveis porque, desde o início do desconfinamento em 20 de abril, "o número de novas infecções" de coronavírus "permanece baixo" e não foi observada uma nova onda de contaminação, afirma o projeto de acordo.

Berlim também autorizou a retomada ainda em maio do campeonato de futebol da primeira divisão, a Bundesliga, com partidas disputadas sem a presença de torcedores.

Os grandes eventos esportivos, culturais e festivos permanecerão, no entanto, proibidos até pelo menos o fim de agosto no país, onde cerca de 7.000 pessoas morreram vítimas da COVID-19.

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump também quer passar para uma "nova fase da batalha".

Na terça, o número de vítimas fatais havia passado de 71.000, conforme a Universidade Johns Hopkins, o balanço mais elevado do mundo, e o país pode alcançar 100.000 óbitos até o início de junho, de acordo com diferentes modelos epidemiológicos.

Apesar dos dados, o presidente Donald Trump fez um apelo a favor da retomada da economia do país.

"Precisamos abrir nosso país", disse o presidente durante uma visita a uma fábrica de máscaras em Honeywell, Arizona.

"Não estou dizendo que tudo está perfeito. Algumas pessoas serão seriamente afetadas? Sim. Mas devemos reabrir nosso país e devemos fazer isso em breve", acrescentou Trump, que não usou máscara durante a visita, apenas óculos de proteção.

Uma nova etapa pode estar a caminho no país, onde a Casa Branca se prepara para desmantelar a célula de crise contra a COVID-19 nas próximas semanas, segundo um anúncio do vice-presidente Mike Pence.

A maior potência econômica mundial, onde a taxa de desemprego deve alcançar 20% em abril, não deseja ficar para trás, enquanto a Ásia, onde a pandemia surgiu, começa a levantar a cabeça.

À medida que dados econômicos ruins se acumulam, aumenta a pressão para a saída do confinamento - nos EUA e no restante do mundo.

- Turismo parado -

A Comissão Europeia previu, nesta quarta, uma recessão "histórica" na UE este ano, com uma queda recorde de 7,7% do PIB na zona do euro, e crescimento de 6,3% até 2021.

A "rapidez" na suspensão do confinamento, a "importância de serviços como o turismo" e os "recursos financeiros" nacionais vão condicionar a situação, de acordo com o comissário para a Economia, Paolo Gentiloni, que alertou para uma "ameaça ao mercado único e ao mercado da zona do euro".

Os países onde se espera uma recessão mais forte são Grécia (-9,7%), Itália (-9,5%) e Espanha, cujas economias dependem fortemente do turismo. O setor, do qual dependem mais de 300 milhões de empregos e 10% do PIB mundial, é um dos mais afetados pela pandemia.

Segundo destino turístico mundial, a Espanha viu o número de visitantes cair 64,3% em março, na comparação com o mesmo mês do ano anterior.

A Airbnb, hoje uma das empresas emblemáticas do turismo mundial, anunciou a demissão de 25% de seus 7.500 funcionários. A plataforma diz enfrentar duas "realidades difíceis: não sabemos quando as viagens serão retomadas e, quando isso acontecer, será diferente", alegou seu cofundador, Brian Chesky.

Sem turistas, grandes capitais ocidentais, como Berlim, Paris e Nova York, querem se adaptar à pandemia, facilitando o uso de bicicletas. No Reino Unido, Londres criou uma rede temporária de ciclovias para multiplicar por dez o número de quilômetros disponíveis.

Um exercício físico útil que será saudável após meses de confinamento. Os franceses, por exemplo, ganharam uma média de 2,5 quilos desde o início do confinamento em 17 de março, de acordo com uma pesquisa realizada em um site de nutrição.

No Reino Unido, o primeiro-ministro Boris Johnson foi criticado nesta quarta-feira pelo líder da oposição pelo número de mortos no país, oficialmente em 29.427.

A taxa de mortalidade está diminuindo, mas o número total já é maior do que na Itália e fica atrás do dos Estados Unidos.

"Como chegamos até aqui?", questionou o líder da oposição trabalhista, Keir Starmer, em uma Câmara dos Comuns vazia.

Na Espanha, com 25.857 mortos, o primeiro-ministro Pedro Sánchez disse que suspender o confinamento do país "de maneira precipitada" seria "um erro absoluto, total e imperdoável". A declaração de Sánchez foi dada no Parlamento, onde defendeu a necessidade de se estender o estado de emergência.

Durante o dia, os deputados devem aprovar a extensão de duas semanas deste regime, que limita estritamente o deslocamento, apesar da oposição dos conservadores e da extrema direita.

A Rússia se tornou, por sua vez, o quinto país mais afetado pelo coronavírus na Europa, em número de infecções, depois de registrar cerca de 10.000 novos casos pelo quarto dia consecutivo.

- "Não voltar ao normal" -

Se a Europa parece ter superado o pico da epidemia, o balanço tem um ritmo acelerado na América Latina e Caribe, com mais de 286.000 casos e mais de 15.000 mortos, segundo um balanço da AFP com base em dados oficiais.

O Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro estimula a abertura do comércio e critica as medidas de prevenção, é o país mais afetado da região, com 107.780 casos e 7.321 mortes. Preocupado, o Uruguai anunciou a intensificação do controle sanitário na fronteira.

O México contabiliza mais de 2.200 vítimas fatais, e o Equador registra cerca de 1.500 óbitos.

O governo mexicano divulgou uma projeção que indica a possibilidade de alcançar o pico da pandemia possivelmente na próxima sexta-feira, 8 de maio.

O presidente do Equador, Lenín Moreno, anunciou que o país ampliará até 15 de junho o estado exceção, que permite a manutenção das medidas para o confinamento da população.

A Colômbia prorrogou as medidas de confinamento até 25 de maio.

De Madonna a Alfonso Cuarón, passando por Pedro Almodóvar, Julianne Moore e vários ganhadores do Nobel, 200 personalidades se manifestaram, em um artigo de opinião publicado nesta quarta, contra uma "volta ao normal" após a pandemia de coronavírus, pedindo ação para evitar uma "catástrofe ecológica".

"Parece inconcebível para nós 'voltar ao normal'", escreve o grupo no artigo publicado no jornal francês "Le Monde", também assinado pelo cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu e por atores como Robert de Niro, Jane Fonda, Jeremy Irons, Cate Blanchett, Penélope Cruz, Juliette Binoche e Ricardo Darín, além do ganhador do Prêmio Nobel da Paz Muhammad Yunus.