Alemanha e a delação em tempos de coronavírus

Por David COURBET
Consumidores usando máscaras esperam para entrar em loja em Berlim, em 29 de abril de 2020, em meio à pandemia de coronavírus

Vinte pessoas participavam de um churrasco em Schwerin, no norte da Alemanha, no último domingo de abril, quando, de repente, alertada por uma vizinha, a polícia chegou e multou os anfitriões por quebra do confinamento.

A mulher que alertou a polícia - "escandalizada com o comportamento" de seus vizinhos - se orgulha de sua atitude nas redes sociais, abrindo um debate sobre o retorno da delação em meio à crise epidêmica do coronavírus.

A questão é particularmente sensível em um país atormentado por sua história, onde a denúncia chegou a ser quase uma doutrina estatal sob o regime nazista e depois na República Democrática da Alemã (RDA), durante o regime comunista que reinou na Alemanha Oriental.

Os tuítes com a palavra #Denunziant ("informante") inundam a rede e multiplicam as comparações com o III Reich ou com a polícia política da ex-RDA.

"Tudo isso reforça um preconceito arraigado dos alemães contra si mesmos", estima Christian Stocker, professor de psicologia no semanário Spiegel.

Mas, para ele, isso não é algo específico da Alemanha. Em todas as partes do mundo, em um clima de ansiedade, a população se divide entre reflexos de solidariedade e aspiração à ordem, com a consequente sanção dos infratores.

- Desconfiança -

Muitos países que estabeleceram o confinamento para conter a disseminação da COVID-19 estão recebendo um fluxo semelhante de mensagens.

Na Nova Zelândia, um site especialmente dedicado às denúncias ficou saturado.

Na África do Sul, um casamento foi interrompido após uma ligação anônima e, na França, o número de emergência 17 congestionou pelas chamadas.

"O fenômeno é universal, mas com características regionais diferentes. Isso ocorre com mais frequência em aglomerações urbanas, onde muitas pessoas dependem umas das outras, do que em áreas menos povoadas, onde há mais espaço", disse à AFP Rafael Behr, professor de criminologia e sociologia na Academia de Polícia de Hamburgo.

Segundo ele, "quanto mais o estado de emergência durar, mais a atitude pró-social diminui e mais a desconfiança aumenta, por exemplo, se o vizinho é contagioso e a suspeita aumenta".

Na Alemanha, a polícia recebe centenas de queixas diariamente, por telefone, e-mail ou redes sociais.

Sven Muller, porta-voz da polícia de Munique, explica que "entre 100 e 200 cidadãos ligam todos os dias" sobre o assunto.

Em Brandemburgo, a polícia atuou 2.930 vezes por violações das recomendações sanitárias entre 20 de março e 7 de abril. "Quase dois terços dessas operações estavam relacionadas a reclamações de cidadãos", disse sua porta-voz, Stefanie Klaus.

A maioria dos casos foi de acesso a locais públicos proibidos, como estádios ou festas em apartamentos.

"No entanto, nem todas as ligações envolvem sempre intervenção", diz Heidi Vogt, porta-voz da polícia de Berlim.

No final de março, a polícia da capital alemã pediu no Twitter que os habitantes parassem de saturar o número de emergência 110, "que não é voltado para denúncias de violações do confinamento".

O senador para Assuntos Internos de Berlim, Andreas Geisel, pediu aos eleitores que tenham discernimento.

"Com um confinamento leve, como na Alemanha atualmente, a liberdade relativa está na capacidade de obrigar a si mesmo (a cumprir as recomendações)", explica à AFP o historiador e cientista político Klaus Peter Sick.

Na ausência de autodisciplina, comportamentos considerados "irresponsáveis" podem ser denunciados.

No entanto, além de proteger a comunidade denunciando crimes, alguns podem querer tirar proveito da situação para acertar contas pessoais.

Esse é sempre o caso em tempos de crise, especialmente quando dão origem a novos regulamentos que permitem evocar a justiça. Quem tem ciúmes do vizinho agora tem a possibilidade de denunciá-lo pela menor violação das regras do coronavírus", resume Behr.