Alemanha e França compraram madeira ilegal do Brasil, indicam ações da PF; Bolsonaro ameaça europeus

RICARDO DELLA COLETTA, JULIA CHAIB E FÁBIO PUPO
·4 minuto de leitura

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Uma operação da Polícia Federal que apreendeu madeira ilegal que seria exportada para oito países europeus foi usada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para ameaçar divulgar um lista de nações que compram o material extraído de forma irregular da Amazônia. A operação Arquimedes da PF resultou na apreensão de 120 containers com 2.400 m³ de madeira extraída ilegalmente e que seria vendida para empresas importadoras na Alemanha, Bélgica, Dinamarca, França, Itália, Holanda, Portugal e Reino Unido. A operação foi deflagrada em 2017 e teve novas etapas nos anos posteriores. Sem citar a operação ou o nome dos países, Bolsonaro se queixou nesta terça-feira (17) de “ataques injustificáveis” à política ambiental do governo e prometeu tornar público os países que são receptores de madeira ilegal. A ameaça é mais uma reação do presidente às críticas que tem recebido diante do aumento de desmatamento na Amazônia e da onda de queimadas na região e no Pantanal. “A nossa Polícia Federal desenvolveu um método para permitir a localização da origem de madeira apreendida. Não apenas apreendida, mas o mais importante: a exportada também. Estaremos revelando nos próximos dias países que têm importado madeira extraída de forma ilegal da Amazônia”, declarou o presidente, durante a cúpula virtual dos Brics (grupo de países formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). "Alguns desses países são os mais severos críticos ao meu governo no tocante a essa região amazônica", ressaltou. “Revelaremos nos próximos dias o nome dos países que importam essa madeira ilegal nossa, através da imensidão que é a região amazônica. Porque daí sim estaremos mostrando que esses países, alguns deles que muito nos criticam, em parte têm responsabilidade nessa questão”, disse. A tecnologia para o rastreamento de madeira citada por Bolsonaro é usada pela Superintendência da Polícia Federal do Amazonas. O objetivo é analisar as moléculas de hidrogênio, carbono e enxofre para identificar a origem do material natural apreendido. Tanto os detalhes da operação Arquimedes quanto a tecnologia utilizada no laboratório da PF no Amazonas foram apresentados a embaixadores convidados pelo vice-presidente Hamilton Mourão para uma viagem à Amazônia. O roteiro foi pensado num esforço de tentar melhorar a imagem do Brasil no exterior. Na apresentação aos embaixadores, no entanto, a menção aos países onde há receptores de madeira ilegal foi feita para pedir colaboração dos respectivos governos no combate a essa prática. A fala de Bolsonaro vai por outro caminho e deve aumentar as tensões com esses países na arena ambiental, destacaram diplomatas ouvidos pela reportagem. Apesar da declaração do presidente, o próprio Ibama facilitou a exportação de madeira nativa brasileira a outros países neste ano. O presidente do instituto, Eduardo Fortunato Bim, publicou em fevereiro um despacho em que dispensou a necessidade de uma autorização específica do órgão para que outros países importassem o material extraído no Brasil. Após a publicação da nova norma, ONGs como Greenpeace e ISA (Instituto Socioambiental) entraram na Justiça para rever a regra. No processo, as organizações afirmam que o Ibama atendeu a um pedido das madereiras que inclusive agradeceram o presidente do órgão pela medida. As ONGs argumentam, ainda, que a decisão de Fortunato contrariou parecer técnico do instituto, conforme elencam na ação. Segundo dados do Ministério da Economia, o Brasil exportou, em 2020, o equivalente a 5,567 bilhões de quilos de madeira no valor de US$ 2,071 bilhões para 154 países. As organizações que tratam no tema no Brasil não têm um número estimado para o total de madeira extraída ilegalmente da Amazônia. Há, porém, recortes estaduais. Estudo do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) divulgado em abril deste ano, por exemplo, mostra que, dos 38 mil hectares de floresta amazônica no Pará explorados entre agosto de 2017 a julho de 2018, apenas 30% tinham autorização. Ou seja, 70% do total foram extraídos ilegalmente. Dados do Instituto Centro Vida indicam que, em Mato Grosso, entre agosto de 2016 e julho de 2017 mais de 60 mil hectares da floresta foram explorados ilegalmente, representando 39% do total extraído pelas madeireiras. Os países europeus protagonizaram os maiores choques com o governo Bolsonaro diante do aumento do desmatamento na Amazônia. Em 2019, às vésperas da reunião do G7, o presidente francês, Emmanuel Macron, chamou a onda de incêndios na Amazônia de “crise internacional”. A fala do francês foi vista em Brasília como uma interferência na soberania nacional. Macron e Bolsonaro trocaram ataques. A Alemanha, por sua vez, é uma das principais doadoras do Fundo Amazônia, mecanismo que financia projetos de preservação na região. No entanto, após o governo Bolsonaro promover mudanças na gestão do fundo, tanto a Alemanha quanto a Noruega —outro doador— interromperam as contribuições. A fala de Bolsonaro foi considerada problemática por diplomatas ouvidos pela reportagem. A divulgação de qualquer lista acusando governos estrangeiros de comprar madeira ilegal obrigaria esses países a responder publicamente, o que aumentaria as tensões. Também criaria um obstáculo na tentativa de atrair cooperação internacional para a redução dos índices de desmatamento. A cúpula dos Brics ocorreu virtualmente devido à pandemia de Covid-19. Durante as declarações do presidente, houve uma falha no sistema de áudio e na tradução do português para o inglês. Quando o sinal foi restabelecido, Bolsonaro ironizou: “Apenas uma coincidência, quando falei sobre Amazônia, da madeira, o sinal caiu. Com toda certeza, apenas uma coincidência”.​