Alemanha eleva nível de alerta energético após cortes de gás russo

A Alemanha elevou nesta quinta-feira seu nível de alerta energético frente às disrupções no fornecimento de gás da Rússia, deixando o país mais próximo de um racionamento. Berlim acusa os russos de "atacarem" a Europa com os cortes, uma resposta à enxurrada de sanções europeias após a invasão da Ucrânia, e desencadearem uma crise de gás que ameaça a estabilidade do mercado.

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A medida põe o plano emergencial alemão iniciado em março em seu nível intermediário, preparando terreno para a a possibilidade de uma interrupção total do gás russo ou de não conseguir armazenar energia suficiente para os meses de outono e inverno. Há apenas um patamar mais elevado, em que a demanda de gás seria maior que a oferta e o governo teria a possibilidade de controle estatal sobre a distribuição.

Em um pronunciamento à imprensa, o ministro da Economia, Robert Habeck, afirmou que a energia está sendo usada como uma “arma contra a Alemanha” e fez um pedido para que os alemães economizem energia:

— Nós estamos em uma crise de gás (...). Daqui para frente, o gás é um bem escasso — disse ele, que também é vice-chanceler. — Os preços já estão altos e nós devemos nos preparar para novos aumentos. Isso terá um impacto na produção industrial e pesará significativamente para os consumidores. É um choque externo.

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O novo alerta indica uma "deterioração substancial” das entregas, mas que pode ser resolvida pelo mercado, afirmou Habeck. A etapa autoriza a ativação de uma lei que permite às distribuidoras de energia repassarem os custos crescentes para os consumidores, algo que o ministro disse estar temporariamente fora da mesa, até que fique claro qual será a reação dos mercados.

O primeiro sinal não foi positivo: o preço do gás na Holanda, a referência europeia, registrava uma alta de 7,7% no início da tarde em Amsterdã, chegando a 137 euros — um aumento de mais de 50% desde que os cortes começaram. O preço do produto no mercado alemão, por sua vez, cresceu 8.8%.

— O corte de gás é um ataque econômico contra nós feito por [Vladimir] Putin — afirmou Habeck, no mesmo dia em que os chefes de governo da União Europeia começam sua cúpula em que a crise energética e a candidatura ucraniana ao bloco serão temas centrais. — É obviamente uma estratégia do Putin para alimentar a insegurança, aumentar os preços e nos dividir como uma sociedade. Vamos lutar contra isso.

Cortes no Nord Stream 1

Há nove dias, a estatal russa Gazprom reduziu em 60% as entregas pelo Nord Stream 1, alegando problemas técnicos — justificativa rejeitada pelos europeus, que a caracterizam como uma “decisão política”. O gasoduto, que cruza o Mar Báltico da Rússia até o território alemão, era responsável por entregar mais de 40% de todo o gás que chegava na UE antes da guerra.

Dias após a queda do volume persistir, Berlim já havia aumentado o uso das mega poluidoras usinas de carvão, uma guinada drástica para o governo de coalizão composto por social-democratas, liberais e verdes. Habeck, um dos ambientalistas, reconheceu que a decisão era “amarga”, mas que não afetará os planos do país de abandonar o combustível fóssil até o fim da década.

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No momento, as reservas da Alemanha estão em 58%, um nível superior ao dos últimos anos nesta mesma época. Se o fornecimento via Nord Stream continuar "em um nível baixo", contudo, o nível de reserva de 90% recomendado pela lei alemã para enfrentar o inverno não será alcançado.

Na quarta, a taxa de abastecimento dos estoques chegou a seu menor nível desde junho, segundo números da reguladora energética alemã, a BNetzA. Neste ritmo, levaria mais de 100 dias para que o país atingisse sua meta, adentrando significativamente na temporada em que o consumo de energia aumenta devido aos sistemas de calefação.

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O fornecimento de gás no próximo mês pode ser ainda mais apertado, já que o Nord Stream 1 deve ser desligado por 10 dias para manutenções anuais a partir do dia 11 de julho — e o ministro alemão disse temer que o gasoduto não volte à sua capacidade normal após o período. Diante do cenário atual, disse ele, “todo o mercado está em risco de colapsar em algum momento” se o aumento dos preços da energia continuar:

— Algo como um efeito Lehman no sistema energético — disse ele em uma entrevista coletiva convocada às pressas, referindo-se à falência do Lehman Brothers, então o quarto maior banco de investimentos dos EUA, evento catalisador da crise econômica que começou em 2007.

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Impactos na Europa

A Alemanha havia ativado o “alerta inicial” de seu plano energético semanas após o início do conflito ucraniano, que completa cinco meses na sexta-feira, em resposta à decisão russa de demandar pagamento em rublos. Antes da invasão, o país importava cerca de 55% do seu gás natural da Rússia, porcentagem que hoje fica ao redor de 35% — mas que ainda assim deixa os alemães vulneráveis.

O impacto, é evidente, não se restringe a Moscou: os russos suspenderam o financiamento para países como Bulgária, Polônia, Finlândia, Holanda e Dinamarca, que se recusaram a acatar os termos de Putin. Outras nações, como a França e a Itália, também sofrem cortes nos fluxos que recebem regularmente.

Segundo Frans Timmermans, o responsável pela política climática do bloco, as interrupções e reduções já afetam 12 países-membros. Dez nações emitiram alertas preventivos sobre riscos à segurança energética:

— O risco de uma disrupção total no gás é mais real do que nunca — afirmou ele, em um discurso para o Parlamento Europeu. — Tudo isso é parte da estratégia russa para minar nossa unidade.

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