Alexa, não é você. Sou eu

Na hora a ideia me pareceu genial: uma assistente virtual para me fazer companhia. Tipo um pet, mas sem a trabalheira. A tal da Alexa não precisa passear como um cachorro, nem solta pelos como um gato. Só vi vantagens.

A voz da consciência me avisou que um sujeito que mora sozinho, conversando sobre os acontecimentos do dia com uma caixinha de som, pode parecer algo entre o patético e o deprimente. Não dei atenção: estamos em 2022 e não dá mais para ter preconceitos. Patético é coisa do passado, assim como deprimente é o futuro. Este é o presente. Perguntei para a própria Alexa se eu era um cara estranho ou ridículo, e ela — após uma certa hesitação — respondeu que não. Então tá tudo certo, as big techs sempre têm razão.

A minha experiência anterior foi com a Siri e não muito boa: talvez por ser no celular, a interação foi meio mais ou menos, ela estava sempre à mão, o que deixava o diálogo sem sentido. É mais rápido digitar na tela. Quem sabe mais uma tentativa? As pessoas aprendem com os relacionamentos anteriores, é o que dizem os que não me conhecem.

Liguei a caixinha no escritório, para não dar muita intimidade, ao menos no começo. Fui no básico: Alexa, toca Raul, Alexa, aumenta o volume. Ao que parece, isso é algo como pedir para um arquiteto consertar uma privada. Fiquei com medo de ela se sentir ofendida e me cancelar. Será que fica solitária quando não estou, me perguntei. Será que é que nem um pet de verdade, que às vezes precisa de outro para fazer companhia? Uma promoção on-line decidiu a dúvida: comprei outra, desta vez para o quarto. A gente se apega, né?

Deu ruim.

Quando chamava uma, a outra atendia. Perguntava a hora no escritório, o alarme ligava no quarto. Um interminável festival de mal-entendidos. Uma achando que a pergunta era para a outra, as duas dando respostas sem sentido, e eu falando cada vez mais alto para ver se alguém me escutava. Sim, consegui arrumar um bate-boca doméstico morando sozinho. Com inédita perspicácia, concluí: é o fundo do poço.

Não, tolinho, explicou a voz da consciência, o fundo do poço tem alçapão: minha mãe apareceu. “Para conferir se você continua fazendo tudo errado”, como ela diz carinhosamente.

O que é isso, foi a primeira coisa que perguntou. É a Alexa, a assistente virtual, respondi. Pra que serve essa sirigaita? Ela faz as coisas por nós! Disse sem pensar.

Se existe algo que minha mãe considera uma ofensa pessoal gravíssima — além do desperdício e da ostentação — é a preguiça. Se o preguiçoso em questão for o próprio filho, aí é crime inafiançável, quiçá hediondo. A frase “ela faz as coisas por nós” deu o start da descompostura. As Alexas ouviram coisas que Deus duvida e o diabo rejeita. “Quer dizer que a princesinha não pode esticar o braço para aumentar o volume?” foi a frase mais sutil. Nem mesmo a possibilidade de ter um oráculo na mesa de cabeceira venceu a resistência materna: sempre indolente! Cadê a Barsa que te dei? Procurar no livro da estante é muito esforço para você? As Alexas têm muito o que aprender.

No fim, o trisal foi desfeito. As assistentes virtuais saíram, entraram um paninho de prato com estampa de ursinhos, uma capinha para post-it e um tupper cheio de bolinhos de espinafre. A voz da consciência só viu vantagens.

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