Alexandre de Moraes enquadra ensaio golpista de PL e Bolsonaro onde mais dói: o bolso

Brazil's Liberal Party President Valdemar Costa Neto speaks during a news conference in Brasilia, Brazil November 23, 2022. REUTERS/Ueslei Marcelino
O presidente do PL Valdemar Costa Neto. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

"Vai a pé. De carro, não passa”.

Foi o que disse o líder de uma manifestação golpista em Sorriso, no interior de Mato Grosso, a um homem que tentava levar o filho de nove anos até um hospital da capital do estado, Cuiabá.

O garoto, que teve um olho perfurado num acidente na escola, passaria naquele dia por uma cirurgia para evitar a perda de visão.

No caminho, pai e filho, que viajavam com outros 24 pacientes em um ônibus disponibilizado pela Secretaria de Saúde, esbarraram com um bloqueio na BR-163. Era um dos muitos pontos interditados no estado em protesto contra o resultado das urnas.

Ao explicar o contexto e tentar negociar a liberação, o pai ouviu do patriota: “Eu não tenho problema com o olho do seu filho. Pega um avião e vai. Aqui não vai passar”.

É gente assim que Jair Bolsonaro (PL) e seus comparsas alimentam quando decidem patrocinar, sem provas, apenas com o intuito de causar tumulto e manter sua base de seguidores mobilizada, a lisura do processo eleitoral.

A brincadeira está saindo cara e quem paga é o país inteiro.

No início da semana, o presidente do PL (Partido Liberal) Valdemar Costa Neto foi a público, sob ordens de Bolsonaro, pedir a invalidação de votos depositados em urnas que, segundo os interessados na causa, apresentaram “mau funcionamento”.

Na prática, o pedido visava melar o resultado da eleição – mas apenas no segundo turno, já que no primeiro, que contou com os mesmíssimos equipamentos, o PL elegeu a maior bancada da Câmara, e aí era melhor não mexer para “não causar confusão”. Ah, tá.

O pedido foi baseado em um suposto estudo feito por um suposto instituto contratado pelo próprio PL. Em menos de 24 horas, especialistas apontaram diversas falhas técnicas no suposto laudo apresentado pelo PL e a empresa contratada. Um deles foi apontar a impossibilidade de rastrear equipamentos que poderiam ser perfeitamente rastreados.

A tentativa de ganhar na mão grande era notória, pedestre e vergonhosa.

Presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes percebeu a manobra e, no dia seguinte, aplicou uma multa de R$ 22,9 milhões contra o partido por litigância de má-fé – um jeito técnico de dizer que os espertinhos usaram a Justiça para fins escusos e de modo irresponsável.

O ministro afirmou, na decisão, que os argumentos apresentados pelos aliados de Bolsonaro são “absolutamente falsos” e determinou que a Corregedoria-Geral Eleitoral apure um suposto desvio de finalidade na utilização da estrutura da legenda. Afinal de contas, alguém pagou pela encomenda. Por isso Moraes determinou que o acesso do PL ao seu fundo partidário seja bloqueado até que multa de R$ 22,9 milhões seja quitada.

De quebra, o ministro incluiu que os (ir)responsáveis pelo pedido no chamado inquérito das milícias digitais que hoje tramita no Supremo Tribunal Federal — justamente para apurar quem ganha e quem financia a indústria de desinformação contra o sistema político e o Judiciário.

Na ponta, essa indústria é o que permite a uma galera levar o terror para ruas e estradas brasileiras sob o argumento alucinógeno que estão lutando pela democracia. Muitos sabem o que estão fazendo. Outros pensam que sabem. Foram alimentados esse tempo todo com teorias da conspiração que começam nas redes sociais e chegaram ao ponto de serem referendadas por lideranças políticas que não valem o papel que assinam.

Quem sabe, com a medida de Moraes, Valdemar e companhia sintam no bolso a dor da irresponsabilidade golpista. É pouco.

Atentar, com emprego da violência ou grave ameaça, abolir o Estado democrático de Direito, impedindo ou restringindo o exercício dos poderes constitucionais é crime previsto na Constituição e pode render pena de quatro a oito anos de prisão, além da pena correspondente à violência.