Algoz de Neymar em 2014, Zúñiga sofreu com lesão crônica no joelho e ainda recebe ofensas

Para além da goleada por 7 a 1 sofrida para a Alemanha na semifinal, o episódio mais traumático para o torcedor da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2014, no Brasil, foi a lesão de Neymar na fase anterior, em duelo contra a Colômbia. Personagem central do lance, uma entrada com o joelho que atingiu a coluna do camisa 10, o lateral-direito Juan Camilo Zúñiga não foi poupado do escrutínio nas redes sociais, situação que não mudou oito anos depois, à beira de um novo mundial: hoje aposentado, o colombiano segue perseguido, em comentários que frequentemente cruzam a linha da simples crítica.

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Na penúltima foto postada em seu Instagram, por exemplo, há comentários racistas, bem como xingamentos, que partem tanto de perfis brasileiros quanto de estrangeiros. A coisa fica ainda pior quando o lateral faz menção ao futebol e à Copa do Mundo. Em junho, o Zúñiga postou foto da seleção colombiana de 2014, relembrando sua última participação em mundiais, e recebeu uma torrente de críticas e ofensas.

"Não entra na minha cabeça como alguém pode entrar assim pelas costas", reclama um seguidor. "Quase arruína a carreira de um futebolista", critica outro. Ambos os comentários feitos em espanhol. Há também aqueles que, críticos do brasileiro, agradecem de forma irônica ao colombiano pelo lance.

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Marcado pelo lance da lesão, Zúñiga também viu seu fim de carreira ser atormentado pelos próprios problemas físicos. O lateral se aposentou precocemente em 2018, aos 32 anos, muito por conta de uma lesão crônica no famigerado joelho direito. O anúncio foi feito quando atuava no Atlético Nacional, clube que o revelou, numa passagem conturbada pelas lesões.

"Hoje penso mais no meu futuro, na minha família, em me afastar e amanhã, quando quiser ir a um parque com os meus filhos, poder fazer isso. Desde que cheguei ao Nacional dei a minha palavra que ia fazer o possível para voltar aos gramados, mas sinto que não cheguei aos 40% do que era. Concretizei meu sonho e estou tranquilo porque quero me aposentar em casa, onde me deram a oportunidade de me mostrar, de ir em frente, ir para o futebol europeu, de vestir a camisa da seleção colombiana. Sou muito grato a todos. Dói, mas sou grato a Deus pela carreira que me deu, por me deixar realizar meus sonhos", declarou, emocionado, na época.

Querido na Colômbia

De lá para cá, Zúñiga de fato passou mais tempo com a família — seu perfil é dominado por fotos com a esposa Maria Angélica e com as filhas, Esmeralda e Sofia. O ex-atleta também passou a atuar no mundo dos negócios: tem sua própria empresa de serviços agrícolas, a "Agricola ZM", em Medellín. Na sua cidade natal, Chigorodó, mantém um centro comercial chamado "Pasaje Comercial La Dieciocho".

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Mas a atividade principal de Zúñiga, hoje, é a sua fundação social e escolinha esportiva que leva seu nome. O atleta faz visitas frequentes ao local e mantém contato próximo com os alunos, crianças e jovens atendidos pelo projeto. "Nós que tivemos a oportunidade de conviver com Camilo Zúñiga nos damos conta que é um homem cheio de virtudes e sobretudo =, humildade. Abraço gigante, ídolo da Colômbia", escreve um frequentador em um dos comentários.

O carinho pode parecer excessivo para quem conheceu o lateral após o lance polêmico de 2014, mas de fato, o ex-atleta é um dos grandes nomes do futebol colombiano. Fez longa carreira no futebol europeu, em especial pelo Napoli (clube no qual atuou de 2009 a 2016). Na Itália, passou a jogar também como lateral-esquerdo. Foi também onde ganhou duas Copas da Itália, os principais títulos de seu currículo. Os grandes momentos da carreira foram acompanhados por prestígio na seleção colombiana, pela qual atuou desde as categorias de base e totalizou 65 jogos, com um gol marcado. Além do mundial, também disputou a Copa América em 2007 e 2015.

Quanto a Neymar, a relação foi de altos e baixos. Depois do trauma, ainda em 2014, o brasileiro chegou a convocar o colombiano a fazer o "desafio do balde de gelo", uma campanha nas redes que visava chamar atenção para a esclerose lateral amiotrófica (ELA), na época. O pedido foi atendido com bom humor. Mais tarde naquele ano, se enfrentariam novamente em amistoso, quando se cumprimentaram de forma amigável. No segundo e último encontro, pela Copa América do ano seguinte, se estranharam em novo lance ríspido.

"Camilo! Camilo! Depois me liga para pedir desculpas. Filho da...", reclamou Neymar em campo. Dias depois, Zúñiga minimizou: "A verdade é o que acontece em campo fica no campo. Fora dali temos vida, temos filhos, família". A partir dali, pouco comentaria sobre o lance, no que parecia ser uma espécie de tabu. Numa das poucas oportunidades em que quebrou esse silêncio, em entrevista à emissora colombiana Caracol TV concedida em 2020, relembrou o lance com leveza.

"Não me arrependo, quem deveria (se arrepender) era o árbitro, que não apitou. Era um escanteio, um rebote, se ele girasse para cima de mim, passava e eu não o alcançaria. Mas nunca foi com intenção (de machucá-lo). Se fosse para machucar, entraria por baixo, não sei. Glória a Deus, ele está bem, jogando. Nunca foi com intenção. Fica para a história, mas não foi com maldade".