Alguém ainda leva a sério a conversa do gestor antipolítico?

 

Lucas Lacaz Ruiz/Futura Press

Por Matheus Pichonelli

A crise de confiança dos eleitores sobre seus representantes, aprofundada pela Lava Jato e pela queda na economia, pariu um (nem tão) novo tipo de discurso político: o discurso do antipolítico.

É mais ou menos assim: o sujeito parece político, age como político, negocia como político, mas se vende como representante de outra estirpe, como se o ser humano não fizesse política desde quando negociava uma rabeira na arca de Noé.

Ainda assim o discurso demonstrou apelo eleitoral, sobretudo quando o candidato se apresentava como gestor, prometendo aplicar no serviço público as metas e estratégias da iniciativa privada.

Noves fora uma empresa privada ter um dono e prestar conta aos acionistas, que investem para lucrar e não para atender o conjunto da população, a conversa alavancou candidaturas de variadas colorações em tempos recentes.

Dilma Rousseff, vale lembrar, se cacifou como candidata a presidente como um quadro técnico do governo Lula. Em seu mandato, após estrear em eleições, demonstrou mais de uma vez falta de tato ou mesmo vontade para se relacionar com o Congresso, que não pensou duas vezes em rifá-la do cargo quando a crise para o lado deles também engrossou.

O próprio Lula, em entrevista para livro “A verdade vencerá”, lançado pela Boitempo na época de sua prisão, citou uma brincadeira recorrente entre aliados dos anos Dilma: eles tinham duas alegrias na vida, quando conseguiam uma audiência com a presidenta e quando ela desmarcava.

Mais recentemente, em 2016, exemplos de candidatos com os pés em outros campos além da política pareciam despontar como uma nova força eleitoral.

Nos EUA o empresário e ex-apresentador Donald Trump foi eleito presidente com um discurso anti-establishment.

No Brasil, os eleitores das duas maiores cidades, Rio e São Paulo, apostaram no “novo” para vencer o “velho”.

O resultado, lá como cá, pode ser observado dois anos depois.

Trump, após uma série de bravatas, ameaças e decisões que mais serviram para isolar do para fortalecer os EUA diante do mundo, é hoje criticado por aliados e opositores por ter se rebaixado diante do presidente da Rússia, Vladimir Putin. Para quem prometia colocar a América em primeiro lugar, soou estranho, para não dizer humilhante, lançar dúvidas sobre órgãos de investigação, espécie de patrimônio do país, que apuram a influência de hackers russos na eleição americana. Uma vergonha nacional.

No Rio, quem se elegeu na onda antipolítica foi Marcelo Crivella (PRB), bispo da Igreja Universal investigado agora por oferecer, em uma reunião quase secreta, vantagens aos amigos religiosos nas filas e serviços prestados pela prefeitura. Um crise contra a impessoalidade da gestão pública.

João Dória (PSDB), por sua vez, estava tão pouco interessado em fazer política que mal esquentou a cadeira de prefeito em São Paulo e já saiu para fazer política novamente, desta vez como candidato ao governo estadual, após uma série de viagens de olho na cadeira presidencial.

Hoje até os índices para mensurar a eficiência da sua gestão são contestados. Segundo o Tribunal de Contas do Município, um dos motivos para a diminuição da fila do Corujão da Saúde alardeada pela prefeitura foi o encaminhamento de pacientes para reavalização. De acordo com o órgão, a prefeitura retirou da lista quase 20% das pessoas para avaliar se elas ainda precisavam fazer o exame em janeiro de 2017. A estratégia empresarial, veja só, não sobreviveu à primeira auditoria.

A experiência dos outsiders eleitos em 2016 prometendo resolver os males da rede pública coloca agora em xeque a conversa do antipolítico na eleição de 2018.

Será que, dessa vez, vai colar?