'Algum parente meu poderia estar ali', relata gerente de loja de pneus que abrigou pacientes do incêndio do Hospital de Bonsucesso

Rafael Nascimento Souza
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Pacientes do Hospital de Bonsucesso foram resgatados para loja de pneus durante incêndio
Pacientes do Hospital de Bonsucesso foram resgatados para loja de pneus durante incêndio

Era por volta das 10h desta terça-feira quando dezenas de macas com pacientes, muitos em estado grave, começaram a deixar o Hospital Geral de Bonsucesso e pararem na Rua Roma, em frente a loja Rio Paiva Pneus. Naquela ocasião, Anderson de Matos Nunes, 40 anos, gerente da loja, estava na frente do computador e segurando um telefone resolvendo problemas comuns do dia a dia. Sem entender o que acontecia e num instinto de salvar as vidas dos pacientes, Nunes abriu as portas da empresa para que uma espécie de hospital de campanha improvisado fosse montado e que médicos e enfermeiros pudessem dar um mínimo de suporte para os internos. Anderson, que nasceu na maternidade da unidade de saúde há mais de 40 anos, diz que a empresa abrigou cerca de 30 macas e 60 pessoas.

— Quando a gente percebe a fumaça, a gente pensou: o hospital está pegando fogo, mas tem brigada de incêndio. Não tínhamos noção da dimensão que aquilo iria tomar. Então, num primeiro momento, é fogo e muita coisa pode causar fumaça. Quando a gente começa a ver a movimentação intensa depois de quase 40 minutos, começa a chegar polícia, que chega antes dos Bombeiros. Foi quando a gente viu que as macas começaram a descer que nós notamos a dimensão da coisa. Eles foram trazendo macas para o lado de cá e a gente não tinha ideia do que era. Foi quando eles abriram a porta do hospital que notamos o problema que era — lembra o gerente do estabelecimento.

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No momento do incêndio no hospital, os 30 funcionários atendiam cerca de 20 carros. Com empatia, Anderson pediu que todos parassem as atividades e saíssem do espaço para que as macas fossem colocadas em um corredor dentro da loja. Os automóveis que estavam no concerto só foram entregues aos donos no final da tarde de ontem.

— Quando eu dei a volta, as macas já estavam entrando na loja e os enfermeiros e médicos fizeram todo o trabalho. Eu só me preocupei em isolar a área porque não sabíamos se eram ou não pacientes de Covid. Era para proteger os nossos funcionários e todos os envolvidos — lembra o gerente.

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Em poucos minutos, dezenas de macas já estavam dentro do estabelecimento. A movimentação de pacientes, profissionais da saúde e de militares do Corpo de Bombeiros durou aproximadamente cinco horas. Durante todo esse tempo, Anderson e os funcionários ajudaram os paramédicos nos atendimentos básicos — fornecendo água e luz para que os aparelhos dos pacientes não desligassem.

— Eu e mais quatro funcionários fizemos um cordão e não deixamos nenhum colega daqui passar para não atrapalhar. Fechamos uma das portas e ajudamos no que eles pediam — destaca.

Anderson trabalha na empresa há mais de 20 anos. Pai de um menino de pouco menos de dois anos, o gerente diz que só abriu a porta da oficina para tentar salvar as vidas. O gerente rejeita o título de herói.

— Eu não me considero herói. Os trabalhadores que têm que ser exaltados são os profissionais de saúde. Foi uma coisa absurda que eles fizeram ontem. Naquele momento não tinha um protocolo, parecia uma guerra, eles não tinham uma direção para aquilo. Foram no improviso que eles salvaram tantas vidas. A gente é envolto naquela adrenalina e não tem o que pensar. Foi por instinto de sobrevivência que eu abri a loja. Eu pensei que algum parente meu poderia estar ali. Eu só fui ter noção do que aconteceu quando eu cheguei em casa, tomei banho, peguei o meu filho e fui ver as notícias.