Algumas pessoas estão bebendo mais na pandemia; quando isso deve ser uma preocupação?

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Você também passou a beber mais na pandemia? (Foto: Getty Images)
Você também passou a beber mais na pandemia? (Foto: Getty Images)

A pandemia mexeu com as emoções até de quem se considerava no controle. Com o medo de sair de casa e ser infectado, de não conseguir se tratar ou cuidar de alguém amado, veio também alto nível de estresse no trabalho – ou pela falta de emprego – menos interações sociais, entre vários outros motivos que tornaram a ansiedade um estado quase comum para muitos.

No Brasil e no mundo, as bebidas alcóolicas funcionaram como válvula de escape. “Seja para amortecer sofrimento, promover relaxamento, recreação... O álcool é um dos ansiolíticos usados há mais tempo e na pandemia não é diferente”, comenta Felipe Ornell, psicólogo e pesquisador do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas - CPAD-HCPA/UFRGS (Hospital de Clínicas de Porto Alegre/ Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

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De acordo com a pesquisa “Uso de álcool e covid-19”, publicada pela Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) – feita entre 22 de maio e 30 de junho de 2020 com mais de 12 mil pessoas de 33 países da América Latina e Caribe (30,8% eram brasileiros), 35% dos entrevistados com idades entre 30 e 39 anos relataram aumento na frequência do consumo de álcool.

Do total, 52,8% dos entrevistados que exageraram na dose relataram ao menos um sintoma emocional como ansiedade, nervosismo, insônia, preocupação, medo, irritabilidade e dificuldade para relaxar.

Em outra pesquisa, feita pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), que avaliou 44 062 brasileiros entre abril e maio de 2020, revelou que 18% dos participantes relataram aumento do consumo de álcool com a pandemia.

No país, a venda online de bebidas alcoólicas subiu 93,9%, com 248,9 mil compras realizadas, segundo um levantamento feito pela plataforma Compre & Confie – empresa de inteligência de mercado focada em e-commerce. A pesquisa analisou o consumo de 24 de fevereiro a 3 de maio de 2020 e comparou os resultados com o mesmo período de 2019.

Quais são os sinais de que o consumo de álcool virou um problema?

“Os principais são a dependência psicológica, que faz com que a pessoa só se sinta bem se beber, e a dependência física, caracterizada pela síndrome de retirada, que é quando o álcool sai do organismo e causa sintomas de abstinência, e a tolerância, quando o corpo precisa de mais doses para sentir um efeito que antes era alcançado com uma quantidade menor”, explica Fábio Gomes, psiquiatra e professor do Departamento de Medicina Clínica da UFC (Universidade Federal do Ceará).

Usado por especialistas, há um questionário chamado de CAGE (Cut down/Annoyed/Guilty/Eye‑opened Questionnaire), que pode ajudar a identificar o abuso com quatro perguntas: Você já sentiu que deveria diminuir a quantidade de bebida ou parar de beber?; As pessoas o aborrecem se criticam seu modo de beber?; Você se sente culpado pela maneira como costuma beber?; Você costuma beber pela manhã para diminuir o nervosismo ou a ressaca?

“Se temos um ‘sim’ para qualquer uma das perguntas é um indicativo de que o problema deve ser investigado mais a fundo”, comenta Ornell.

Dados sobre a pandemia não refletem a realidade de todo o Brasil

Conforme aponta Ornell, é importante lembrar que os estudos realizados até agora foram feitos com populações e recortes específicos.

“A saúde mental é historicamente negligenciada em políticas públicas de saúde – investimento, qualidade, pessoal, infraestrutura é menor, e nos últimos tempos, ainda foram enxugados para a covid. Dados de pessoas que dependem desse serviço, à margem do serviço de saúde. É uma trama complexa da qual só saberemos os efeitos em médio e longo prazo.”

Transtorno geralmente é diagnosticado depois de anos

O alcoolismo está relacionado com mais de 200 doenças e, de acordo com a OMS, é considerado responsável por 5% de todas as doenças no mundo.

O grande desafio para pacientes e médicos é detectar o transtorno no início. “Ainda que já possa ser um problema, é muito raro ver pessoas na faixa dos 20 ou 30 anos buscando tratamento. Em geral, os pacientes começam a procurar mais tarde, quando o problema já é mais grave”, explica Ornell.

Para o psiquiatra Kalil Duailibi, professor do curso de Medicina da Unisa (Universidade Santo Amaro), é importante que as pessoas prestem atenção a si mesmas e entendam o que exatamente as faz beber. “A partir disso, procurar ajuda profissional é fundamental, principalmente porque provavelmente teremos que lidar com mais um ano de isolamento”, recomenda.

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