A aliados, Bolsonaro elogiou polêmica entrevista de Regina Duarte na CNN

Naiara Trindade
Bolsonaro e Regina Duarte durante a cerimônia de posse da atriz como secretária da Cultura (Andre Borges/NurPhoto via Getty Images)

BRASÍLIA — Após sofrer forte repercussão e muitas críticas, a entrevista da secretária especial da Cultura, Regina Duarte nesta quinta-feira, recebeu elogios do presidente Jair Bolsonaro. A aliados, o presidente afirmou ter ficado satisfeito com os posicionamentos de Regina, que minimizou a censura e a tortura durante a ditadura, relativizou o impacto do coronavírus e minimizou seu papel ao mencionar mortes de artistas durante a pandemia.

A avaliação de interlocutores de Bolsonaro no Palácio do Planalto é de que — apesar do clima de tensão ao final da entrevista à CNN Brasil — a secretária conseguiu sair “de cima do muro” e se posicionar como uma defensora das ideias do presidente. Eles observam que Regina evitou criticar a ala ideológica, apesar de alfinetar o escritor Olavo de Carvalho — que exerce forte influência sobre este grupo — alegando que um de seus livros traz “muitos palavrões”. Pessoas próximas ao presidente acreditam que as declarações de Regina garantiram a sobrevida dela à frente da Cultura.

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A secretária conversou com alguns aliados de Bolsonaro nesta sexta-feira e explicou as razões que a levaram a decidir dar a entrevista à emissora. Em sua defesa, alegou ter “caído em uma armadilha” ao ser colocada pelos jornalistas para comentar vídeo enviado pela atriz Maitê Proença, no qual questionava seu silêncio diante do falecimento de colegas, citando Moraes Moreira e Aldir Blanc. Regina sequer ouviu a mensagem, tirou os fones e deu chilique dizendo se tratar de vídeo antigo.

No Palácio do Planalto, foi observada a postura da secretária após ter sido questionada sobre a fritura que vinha sofrendo no cargo de secretária. Regina desconversou por duas vezes neste momento da entrevista, evitou confirmar que estava demissionária e também poupou o presidente de qualquer constrangimento. "Estava um clima super bom. Ele estava superanimado", afirmou, frisando ter apresentado seus planos para a pasta e fazendo questão de ler as colinhas de propostas que pretende implantar.

Um dos mais influentes conselheiros do presidente, o general Villas-Boas elogiou o desempenho da ex-atriz em suas redes: "Fiquei encantado com a Regina pela demonstração de humanismo, grandeza, perspicácia, inteligência, humildade, segurança, doçura e autoconfiança que nos transmitiu". O ex-comandante do Exército criticou a condução da entrevista. ""Admirei também a habilidade com que desvencilhou das armadilhas que os entrevistadores tentaram colocar a ela, que visivelmente havia se preparado para, numa atitude totalmente desarmada, abordar temas relativos a sua pasta. Apreciei a firmeza com que reagiu à desleal tentativa de confrontá-la com a igualmente artista Maitê Proença".

O depoimento de Regina repercutiu, chegando aos assuntos mais comentados do Twitter logo após o seu encerramento e suscitando manifestações nas redes sociais. A entrevista de 40 minutos foi picotada em vários curtos vídeos e replicada milhares de vezes nas redes sociais.

Nesta sexta-feira, a atriz Maitê Proença, que defendeu o direito de Regina Duarte pensar diferente da classe artística durante a campanha que elegeu Jair Bolsonaro, criticou duramente a entrevista da atual secretária especial da Cultura à Rede CNN na tarde de quinta-feira.

— A brigada bolsonarista atira pedras por não entender que, quando menciono as vaquinhas que têm sustentado os trabalhadores do setor cultural, significa que aqueles que tem uma reserva de dinheiro, dão para quem está passando fome. Assim tem sido no nosso meio, desatendido, como tantos. Enquanto isso os dirigentes não encontram uma forma rápida e eficaz de assistência para ajudar a população, pagadora de impostos escorchantes — disse Maitê, ao GLOBO.

Ex-ministro da Cultura na gestão Michel Temer, o deputado Marcelo Calero (Cidadania) diz que a secretária demonstrou, na entrevista desta quinta, sua "total incapacidade" para ocupar o cargol. O parlamentar lamentou tanto o nível do discurso, relativizando mortes e torturas, quanto a falta de respostas e soluções para o setor da cultura.

— Infelizmente ela aderiu ao padrão Bolsonaro e à retórica da morte. Talvez isso faça parte de um papel de sobrevivência — afirmou o deputado. — Acho que ela demonstrou sua total incapacidade (para o cargo). Uma pessoa que relativiza mortes estar à frente de qualquer órgão de gestão pública é inacreditável. E até aqui não temos medidas concretas para o setor cultural. Não é só uma questão de identidade nacional, que está calcada na cultura, mas vai além disso. É um setor que gera muito emprega e muita renda. É muito temerário a economia criativa não ter um plano ou um gabinete de crise nesse momento.

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