Aliados comemoram Bolsonaro 'tímido', e ministros do STF, baixa adesão

*ARQUIVO* BRASILIA, DF,  BRASIL,  31-03-2022, 12h00: O presidente Jair Bolsonaro. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASILIA, DF, BRASIL, 31-03-2022, 12h00: O presidente Jair Bolsonaro. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Ainda que desaconselhada pelo seu entorno, a participação do presidente Jair Bolsonaro (PL) neste domingo (1) em atos que tiveram o Supremo Tribunal Federal (STF) como alvo foi minimizada tanto por aliados quanto por ministros da corte.

Interlocutores do presidente celebraram a participação tímida de Bolsonaro, que falou rapidamente, por chamada de vídeo com apoiadores na avenida Paulista, sem menções diretas ao STF.

A declaração genérica de Bolsonaro, tanto em Brasília, onde ele sequer discursou, quanto em São Paulo, ao menos não escalou a crise entre os Poderes, como ocorreu em outros momentos e como era esperado.

Para esses aliados, o chefe do Executivo fez um gesto aos seus eleitores, mas manteve o tom dos seus conselheiros, de não esticar a corda com o STF -em especial neste momento em que, pela primeira vez, consideram que teve uma vitória política diante da corte.

Já ministros do STF, reservadamente, disseram que as manifestações foram completamente distintas do atos de raiz golpista de 7 de Setembro, quando o presidente xingou e exortou a desobediência a decisões da Justiça.

Os magistrados reconhecem que atos em que eleitores do presidente pediam a destituição deles ou o fim da "ditadura da toga" são ruins, mas se tranquilizaram com a baixa adesão, que era esperada na corte.

Na avaliação de um ministro do STF, há uma antecipação da campanha eleitoral, mas o fato de o protesto ter sido esvaziado, principalmente em Brasília, demonstra certo exaurimento por parte da população.

Na capital, o ato ocupou menos de uma quadra da Esplanada, numa proporção muito inferior às manifestações bolsonaristas que tiveram o mesmo palco.

Organizadores esperavam que Bolsonaro fosse ao palco, mas ele apenas passou para cumprimentar manifestantes e falou rapidamente em uma live no seu Facebook ao deixar o local.

"[Vim] cumprimentar o pessoal que está aqui na manifestação pacífica em defesa da Constituição, da democracia, e da liberdade. Então parabéns a todos de Brasília, bem como todos brasileiros que hoje estarão nas ruas", disse.

Já em São Paulo, os atos foram recheados de ataques ao STF e ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), mas o chefe do Executivo se conteve em falar sobre temas "conservadores" e não mencionou o Judiciário.

Em seu breve discurso, enalteceu seus apoiadores e disse dever "lealdade a todos vocês" e que irá "onde vocês estiverem". Ele falou ainda em "liberdade" e repetiu ser o chefe de um governo que "acredita de Deus" e que "defende a família".

O presidente participa, desde 2020, de atos que têm o Supremo como alvo. Os primeiros falavam em intervenção militar e levaram à abertura de inquérito na Corte.

A tensão entre os Poderes, elevada com o decreto de indulto do chefe do Executivo a Daniel Silveira (PTB-RJ), continua. Mas a sua participação não reeditou os piores momentos de crise institucional, como temiam integrantes dos Legislativo e do Judiciário.

Bolsonaro tem moderado o discurso desde o final da semana, quando passou a dizer que Silveira falou coisas absurdas, mas o Supremo exagerou.

A fala está em sintonia com o que aliados e integrantes da campanha de reeleição identificaram nas pesquisas: a defesa de Silveira divide o eleitorado, mas há sentimento de que a dosimetria da pena (oito anos e nove meses de prisão) teria sido exagerada.

Ainda assim, Bolsonaro não pretende explorar eleitoralmente o episódio. O baixo quórum deste domingo comprova o que campanha já constatou: o indulto concedido ao deputado teve efeito positivo sobre a base que já é cativa de Bolsonaro. Há uma divisão em outra parcela do eleitorado, mais moderada.

Além disso, embora inflame uma parcela dos eleitores, o perdão dado a Daniel Silveira não impacta a principal fatia da população que Bolsonaro precisa conquistar para ser eleito e que está mais preocupada com os efeitos da economia.

Na última semana, ministros da Suprema Corte e interlocutores de Bolsonaro passaram a tentar costurar uma forma de pacificar o caso de Silveira.

O decreto foi considerado irremediavelmente constitucional, mas há uma tentativa de manter a cassação dos seus direitos políticos, tornando-o inelegível. O deputado é pré-candidato ao Senado.

A avaliação no Supremo é que o clima continua na mesma situação, e a ida de Bolsonaro aos atos não piora a tentativa de costurar uma saída para o imbróglio.

No Legislativo, parlamentares de oposição focaram no discurso de ataque à Corte presente nas falas e nos cartazes do ato bolsonarista. Vice-presidente do União Brasil, o deputado federal Junior Bozzella (SP) afirmou que não há mudança de postura do presidente no seu rápido discurso na Paulista.

"Nunca houve mudança de tom. Tem oscilação de acordo com o momento, mas o enredo é o mesmo, de afrontar o Estado Democrático e os demais Poderes. A simples participação dele já é agressiva. Porque não deixou de ser um ato antidemocrático", disse.

O deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP), que participou dos atos com Lula na cidade de São Paulo, lamentou que o discurso de Bolsonaro não tenha sido usado para anunciar novas medidas do governo federal voltadas à classe trabalhadora, como é tradição. E concordou que não houve mudança de tom no pronunciamento.

"As manifestações [que o apoiam] falam por si. São manifestações autoritárias, fazem parte de um movimento orquestrado por ele de ataque às entidades democráticas. Ele deve ter sido aconselhado a ficar quieto, porque a tensão está alta, mas as manifestações falam por si", afirmou.

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