Aliados e adversários veem candidatura de Moro mais distante

IGOR GIELOW
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*ARQUIVO* BRASÍLIA, DF, 19.03.2020 - O então ministro da Justiça, Sérgio Moro. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASÍLIA, DF, 19.03.2020 - O então ministro da Justiça, Sérgio Moro. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A ida do ex-ministro Sergio Moro à iniciativa privada foi recebida com surpresa por entusiastas de sua eventual candidatura à Presidência, vista agora como uma possibilidade mais remota por políticos com quem ele vinha conversando.

Moro foi contratado pela consultoria de gestão de empresas internacional Alvarez & Marsal, que administra o processo de recuperação judicial da Odebrecht. O anúncio foi feito nesta semana.

Empresa no centro das investigações da Operação Lava Jato, a construtora teve seu ex-presidente Marcelo Odebrecht preso e condenado por Moro, então juiz federal em Curitiba.

Para políticos ouvidos pela reportagem, tanto apoiadores seus quanto detratores, o ex-ministro da Justiça de Jair Bolsonaro sinalizou com a escolha que não quer ser candidato.

O emprego é considerado um seguro milionário, ainda que valores sejam sigilosos.

Moro não avisou integrantes de siglas interessadas em filiá-lo, como o Podemos, de sua decisão.

Um líder do DEM, partido que não via com bons olhos as conversas entre Moro, o apresentador Luciano Huck e o governador João Doria (PSDB) mirando 2022, diz que a margem de manobra do ex-ministro se reduziu.

Para ele, a associação com uma empresa com ligação com a Odebrecht, por mais que não haja conflito de interesses no trabalho de ajudar com o compliance de clientes, dilapida a imagem de justiceiro da Lava Jato de Moro, talvez seu único patrimônio político.

Além disso, há o fato de que Moro viu sua estatura se reduzir após a estrondosa crise de sua demissão do governo.

Naquele momento, em abril, líderes de partidos de centro-direita e mesmo na esquerda, onde Moro é tão odiado quanto, viam nas acusações do ex-ministro a chave para um eventual impeachment de Bolsonaro.

Só que o inquérito acerca da influência, acusada pelo ex-ministro, do presidente na Polícia Federal se arrastou e perdeu gás político. E, após ver a crise institucional chegar a um paroxismo em junho, Bolsonaro acomodou-se com o centrão.

Segundo aliados de Doria, que teve um encontro com Moro em setembro para discutir a ideia de uma frente, o ex-ministro poderá ter um papel de influenciador em 2022, mas não de protagonista.

Descontando o fato de que o governador, que disse que Moro teria papel numa frente em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, é presidenciável, a avaliação é mais ou menos comum no meio político.

Já para um presidente de sigla do centrão, grupo que assim como o DEM e a esquerda nutre ojeriza ao papel de Moro na Lava Jato, talvez seja cedo para descartar o ex-juiz.

Na sua visão, a boa imagem de Moro entre estratos de classe média que aderiram ao bolsonarismo por serem lavajatistas é um ativo com boa validade.

Não concorda com ele um ministro do Supremo, que lembra do caso de seu ex-colega Joaquim Barbosa.

Desde que deixou a corte em 2014, após ter presidido o espetaculoso julgamento do mensalão, o ex-ministro teve seu nome citado como alguém que poderia surfar a onda moralista na política.

Dando sinais contraditórios, ele acabou se filiando ao PSB em 2018, mas não concorreu a nada. Para o magistrado ainda na ativa, o tempo político dos salvacionistas parece ter passado.

Essa visão encontra amparo no desempenho do bolsonarismo nas eleições municipais deste ano, pífio e com vexames em locais como São Paulo. Dois anos atrás, havia o pico da vaga bolsonarista, que se alimentou bastante da devastação dos partidos tradicionais imposta pelas revelações da Lava Jato. O ímpeto parece ter refluído.

Mas, como diz esse líder do centrão, o caráter pendular do ânimo popular tem de ser levado em conta, então a prudência sugere que é melhor esperar até 2022 para saber que fim levará Moro.

Sua passagem traumática pelo governo Bolsonaro também pesa. Moro não conseguiu deixar uma marca como ministro e saiu atirando, o que pode aliená-lo junto aos estratos à direita.

Já a esquerda, que o demonizava pelas revelações da Lava Jato contra o PT, o exorcizou de vez devido à associação entre a condenação do ex-presidente Lula por Moro, que o tornou inelegível em 2018, e a eleição de Bolsonaro.