Aliados e ministros de Bolsonaro se dividem entre silêncio, golpismo e respeito à eleição

*Arquivo* BRASÍLIA, DF, 15.11.2022 - Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro fazem protesto antidemocrático contra o resultado das eleições, em frente ao quartel general do Exército, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*Arquivo* BRASÍLIA, DF, 15.11.2022 - Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro fazem protesto antidemocrático contra o resultado das eleições, em frente ao quartel general do Exército, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Face ao silêncio do presidente Jair Bolsonaro (PL), seus principais aliados e ministros têm adotado posturas distintas em relação ao resultado do pleito e ao governo de transição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Os integrantes da parte mais radical do bolsonarismo aderiram ao golpismo e seguem levantando dúvidas sobre a lisura das eleições e apoiando as manifestações antidemocráticas. A ala política do governo, composta principalmente por partidos do centrão, adotou posições mais legalistas e tem pregado respeito às instituições.

A ala menos conformada com a derrota tem defendido que o PL peça até a anulação da disputa, por vias jurídicas.

"As últimas informações dão conta de que o pedido de anulação das eleições não será feito ainda pelo PL. O prazo vai até dezembro e a versão do relatório ainda não é a definitiva. Vamos aguardar um pouco mais. Um relatório que aponte inconsistências graves não poderá fugir a seu destino", disse a deputada Bia Kicis (PL-DF).

No último dia 2, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) publicaram vídeo de manifestação antidemocrática contra o resultado das eleições.

No caso de Eduardo, foi acompanhado de uma frase em que seu pai, o presidente Bolsonaro, diz que foi vítima de "injustiça" no pleito deste ano.

Dias depois, durante o feriado de 15 de novembro, o deputado publicou novamente um vídeo de manifestações e encerrou seu texto com a frase "não parar, não precipitar, não retroceder".

O senador disse: "Aplausos de pé a todos os brasileiros que estão nas ruas protestando, espontaneamente, contra a falência moral do nosso país! Confiem no Capitão!".

Do lado dos militares, a manifestação mais impactante em defesa dos protestos antidemocráticos partiu do ex-comandante do Exército general Eduardo Villas Bôas. O militar disse que os atos eram contra "atentados à democracia" e relacionados com "dúvidas sobre o processo eleitoral".

O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, se equilibra entre defender o chefe do Executivo e buscar ministros do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para dizer que acredita no sistema eleitoral.

O partido é a maior bancada da Câmara, com 99 deputados, e já anunciou que estará na oposição. Valdemar tergiversou ao ser questionado sobre a derrota, condicionando-a ao relatório da Defesa.

O documento foi divulgado, depois, e não apontou nenhuma fraude no processo eleitoral.

Os que aderiram ao respeito do resultado eleitoral, em grande parte, são parlamentares ou governadores eleitos. Ratinho Jr (PSD-PR), por exemplo, apoiou Bolsonaro e se elegeu no primeiro turno, mas seu partido aderiu ao novo governo, sem resistências.

Ele deu, inclusive, aval ao movimento do PSD de aderir à gestão Lula.

A ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (PP-MS) disse que "é hora de seguir adiante".

Nas discussões em torno da PEC (proposta de emenda à Constituição) da Transição, bolsonaristas já fazem oposição antes mesmo de Lula tomar posse.

A proposta abre espaço fora do teto de gastos para o pagamento do Bolsa Família no valor de R$ 600. O benefício nesse valor era uma das promessas do próprio Bolsonaro, embora não conste na proposta de orçamento encaminhada ao Congresso Nacional.

O deputado federal Filipe Barros (PL-PR) tem usado a expressão "cheque em branco". Já Marco Feliciano (PL-SP) chamou a proposta de PEC da Gastança e da Irresponsabilidade.

No geral, o primeiro escalão de Bolsonaro adotou a reclusão, seguindo o estilo do presidente desde a derrota. Alguns chegaram a tirar uns dias de folga, outros visitaram-no, mas têm evitado declarações públicas.

Paulo Guedes, por exemplo, decidiu romper o vácuo de declarações em relação ao novo governo para criticar a forma como vem sendo negociada a PEC.

"Já ganhou, cala a boca, vai trabalhar, construir um negócio legal. O desafio é grande, mas a oportunidade é maior", afirmou o titular da Economia durante evento de sua pasta.

Liderança do centrão e ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira anunciou até apoio à PEC da Transição, desde que retire o Bolsa Família do teto de gastos por apenas um ano.

Em outro momento, Nogueira também criticou o fato de o PT ter se colocado contrário à indicação de Ilan Goldfajn para a presidência do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).

Apesar disso, em um gesto de reconhecimento do resultado das urnas, pouco depois de o TSE oficializar a derrota de Bolsonaro, Nogueira foi para a casa do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), de onde acompanhou seu pronunciamento reconhecendo a vitória de Lula.

No dia, o ministro não deu declarações, mas publicou uma foto abraçando o mandatário, com a legenda: "Para sempre ao seu lado".

Lira, por sua vez, fez questão de se encontrar com o presidente na véspera da sua reunião com o petista, ainda na primeira semana após o resultado. O seu reconhecimento às urnas, porém, foi contundente. Ele já ensaia adesão a Lula em troca do fortalecimento de sua candidatura à reeleição para a presidência da Câmara.