Aliados de França usam prefeituras para fazer campanha e atacar tucano

ARTUR RODRIGUES
Lucas Lacaz Ruiz/Futura Press

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Apoiadores de Márcio França (PSB) têm usado a estrutura de prefeituras do interior e litoral geridas por aliados para fazer campanha pela reeleição dele e atacar João Doria (PSDB).

A reportagem teve acesso a dados de processos judiciais que mostram que perfis anônimos pró-França e com informações falsas contra adversários são mantidos por servidores em repartições e em horário de expediente. Com material gráfico e posts pagos, manter as páginas custa tempo e até dinheiro aos militantes.

Os nomes dos administradores das páginas e os IPs usados para fazer as postagens foram revelados após a equipe de advogados de Doria entrar com ações no TRE (Tribunal Regional Eleitoral).

A equipe do tucano mapeou dados de uma rede de cerca de 30 páginas, voltadas a atacar o tucano com o que classificam como fake news e a fazer propaganda antecipada para França. Até o momento, porém, ordens judiciais ajudaram a revelar apenas os dados de dois desses perfis.

A página Lampião, voltada a fazer ataques a Doria, por exemplo, é mantida por João Henrique Gonçalves. Ele é chefe de gabinete da Prefeitura de Caconde, no interior paulista, governada por José Bento Felizardo Filho (PTB), parte da coligação de França.

Segundo dados de processos no TRE, um dos IPs usados para manter a página é da prefeitura. Os posts, muitas vezes, são feitos em horário comercial.

Com cerca de 6.700 seguidores, desde o ano passado, o perfil reveza a divulgação de memes, vídeos e notícias contrários a Doria. Em alguns casos, os posts ultrapassam a crítica e a sátira, ao trazer informações falsas e imprecisas.

Em ao menos três publicações, por exemplo, a página refere-se a Doria como político ficha suja. Apesar de responder a processos por improbidade administrativa por sua atuação na prefeitura, Doria não foi condenado e, portanto, não pode ser configurado como ficha suja.

Outro exemplo classificado como fake news pela defesa de Doria é a acusação de que ele teria mandado guardas-civis baterem em professores. Os docentes foram feridos pelos agentes em um protesto contra a reforma da Previdência.

A principal página de apoio a França, "Com Márcio"‚França SP Avança", com 22 mil seguidores, é atualizada de um IP da Prefeitura de São Vicente. O prefeito da cidade é Pedro Gouvêa (MDB), aliado e cunhado de França.

Segundo os processos, nos meses de abril e maio, o perfil foi administrado a partir de um prédio da prefeitura dezenas de vezes, muitas delas em horário comercial.

O autor da página é identificado como Roberto Sampaio Junior, conhecido como Juneca. No site da prefeitura, consta o nome de Sampaio Junior como chefe do departamento de manutenção da educação infantil, com salário de R$ 2.200.

A página não publica fake news, mas acabou sendo contestada pela defesa de Doria por divulgar uma pesquisa eleitoral proibida pela Justiça. Na ação, a defesa de Doria pede a identificação do autor.

Bastante ativa, a página chegou a ter mais de dez posts em um dia, alguns deles com linguagem visual própria do perfil. A página também faz uso de posts patrocinados para impulsionar a visualização.

Nas redes sociais, Juneca demonstra intimidade com França e Gouvêa. Uma publicação de abril deste ano mostra Juneca e a mulher com o atual governador no Palácio dos Bandeirantes.

Questionada, a Prefeitura de São Vicente afirmou que os funcionários "têm toda liberdade de expressar suas opiniões", desde que "usando seus celulares e laptops pessoais, fora de expediente". A cidade afirma que abrirá investigação se houver notificação de irregularidade.

A reportagem ligou para Juneca, mas ele desligou o telefone ao saber do que se tratava.

A Prefeitura de Caconde diz que as postagens foram feitas do celular do servidor, por meio do wifi. A rede aberta da prefeitura será desligada até o fim do período eleitoral. João Gonçalves disse que o perfil Lampião não tem ligação com seu trabalho e que as postagens foram feitas em intervalos do serviço.

Márcio França não comentou o caso.