Aliados de prefeito suspeito de elo com PCC disputam prefeituras de cidades vizinhas na Grande SP

JOSÉ MARQUES E FELIPE BÄCHTOLD
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na página do Facebook de Ney Santos (Republicanos), prefeito de Embu das Artes (Grande SP) acusado pelo Ministério Público de elo com a facção criminosa PCC, um comentarista parabeniza o político e o chama para a cidade vizinha: "Vem pra Itapecerica [da Serra]". Ney, que concorre à reeleição em Embu das Artes e tem negado as acusações, responde com um pedido de voto em um aliado: "Amigo, eu não posso, pois estou prefeito aqui em Embu kkk. Mas aí estou lançando o meu secretário de Governo". O secretário é Jones Donizette (Avante), braço direito de Ney Santos na gestão de Embu das Artes e uma das pessoas do grupo político dele que concorrerão a uma prefeitura da região. Em Vargem Grande Paulista, outro município das redondezas, Piter Santos (Republicanos) também se lançou à prefeitura. Amigo de Ney Santos, ele é réu na Justiça sob acusação de ser seu colaborador na prática de crimes. Com candidatos com ou sem acusações, o grupo político de Ney Santos tenta se expandir na região metropolitana de São Paulo e tem pretensões políticas de longo prazo. Ney, popular nas cidades do entorno, atua para expandir sua área de influência. Juntas, Embu das Artes, Itapecerica da Serra e Vargem Grande Paulista têm aproximadamente 500 mil habitantes. Conforme a Folha de S.Paulo mostrou no último dia 21, Ney responde a uma série de processos em que é acusado de crimes como corrupção e organização criminosa, incluindo a atuação em favor da mais importante facção do estado. Jones não tem acusações na Justiça por esses motivos, mas tem o apoio político de Ney, que é um de seus principais cabos eleitorais. Já Piter, assim como Ney Santos, também teve a prisão decretada e foi denunciado sob acusação de organização criminosa e lavagem de dinheiro ligado ao PCC. Naquela denúncia, Piter é apontado como laranja de Ney Santos em postos de gasolina supostamente vinculados à organização, além de acusado de ter sido proprietário de fachada de bens do prefeito, como automóvel e casa. Assim como Ney, apontado como o comandante desse grupo criminoso, Piter também ficou foragido entre o fim de 2016 e 2017 e foi beneficiado à época por um habeas corpus expedido pelo ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal. Eleito em 2016, Ney Santos não compareceu à própria posse porque estava sendo procurado. Piter, 39, nunca tinha sido candidato, mas foi assessor legislativo na Assembleia de São Paulo no gabinete de um deputado do PSC, em 2010, partido pelo qual Ney ingressou na política. Na campanha em Vargem Grande Paulista, Piter se apresenta como empresário, tendo inclusive já gravado vídeo de apoio de Celso Russomanno, candidato do partido em São Paulo. Piter declarou patrimônio de R$ 6,7 milhões, sendo R$ 350 mil em dinheiro vivo. Disse possuir ainda uma revenda de automóveis e uma factoring (empresa que compra à vista títulos que outras firmas têm a receber, como cheques pré-datados). Em evento de filiação ao Republicanos, em março deste ano, Piter chamou o amigo de irmão e o colocou como referência. Lembrou até da ocasião em que o correligionário não compareceu à posse por estar foragido, em 2017. "Eu escuto aqui nossos amigos, nossa população, dizendo que se futuramente tiver uma pessoa à frente desse governo fazendo 10% do que Ney está fazendo no Embu, Vargem Grande será uma cidade feliz." Não é a primeira candidatura de pessoas que foram denunciadas no mesmo caso de Ney Santos. Em 2018, Eliane Santos, irmã do atual prefeito de Embu das Artes, foi candidata a deputada federal pelo partido (que à época se chamava PRB). Mesmo com uma turbinada por R$ 1,4 milhão de verba partidária, não se elegeu --fez 49 mil votos e é suplente. Também foi candidato o ex-presidente da Câmara Municipal Hugo Prado (hoje no MDB, à época no PSB), atual candidato a vice na chapa de Ney Santos. Ele também não se elegeu. Jones Donizette, 40, afirma que conheceu Ney, 40, em 2015. Em 2016, foi o coordenador da sua campanha à prefeitura e, depois, virou secretário municipal, respectivamente, das pastas de Gestão Tecnológica e Comunicação, de Trabalho e, por fim, de Governo. Em 2018, ele também coordenou as campanhas de Hugo Prado e Eliane Santos. Agora, tenta pela primeira vez a prefeitura de Itapecerica, onde já foi candidato a vereador em 2008. Como bens, declarou R$ 50 mil em espécie. Antes da campanha, buscou se projetar por meio de uma ONG de atuação comunitária chamada Play no Bem, da qual diz ter se desligado. Tentou concorrer também pelo Republicanos, mas o diretório municipal apoiou o candidato Jorge Costa (PTB). Ele defende a gestão de Ney Santos e não nega que exista um projeto político do grupo para a região. "Eu não tenho vergonha nenhuma de carregar a bandeira do prefeito Ney Santos, de estar junto dele. A gente sempre fala em reunião que o trabalho vence tudo, e se eu conseguir fazer na minha cidade metade do que ele fez em Embu das Artes, estou feliz", afirma Jones. Questionado sobre as acusações, ele afirma que nunca viu "nada disso que as pessoas comentam". "Desde 2015 eu conheço o Ney e só vejo um cara que ajuda as pessoas, trabalha pra caramba. Não é qualquer pessoa que consegue acompanhar o ritmo de trabalho dele", afirma. Jones acrescenta que "estão batendo nessa tecla desde 2010", mas que a Justiça Eleitoral autorizou a candidatura de Ney esse ano. A Lei da Ficha Limpa barra condenados em segunda instância, e o prefeito é apenas réu. Na campanha em Itapecerica, ele diz que tem como foco a periferia, o fato de ser o único dos candidatos nascidos na cidade e também sua história de superação. Nasceu e família de baixa renda, diz, e trabalhou como gari durante dois anos. Prefeito diz que está provando inocência e se defende de perseguição A defesa do candidato Piter Santos afirma que o processo no qual ele é réu não contém "qualquer indício de prática criminosa ou de envolvimento em organização criminosa". "A acusação é baseada tão somente no achismo. O Ministério Público acha que teve algum tipo de coisa errada, mas não só não provou como não trouxe qualquer elemento", disse à reportagem o advogado Daniel Bialski. Os advogados de Piter obtiveram em 2019 ordem para paralisar o andamento do processo até que fossem analisados questionamentos prioritários apresentados anteriormente pela defesa. A reportagem também procurou a direção municipal do Republicanos em Vargem Grande Paulista para comentar o teor da reportagem, mas não obteve resposta. Em mensagem encaminhada por sua assessoria, Ney Santos afirmou que há dez anos vive um pesadelo e se defende de perseguição. "Estou provando a minha inocência. Um dia, vocês vão ver que tudo isso que falam de mim não é verdade." A defesa do prefeito Ney Santos nega que ele tenha qualquer vínculo com o PCC e afirma que a denúncia da Promotoria que o liga à facção tenta confundir o Judiciário. O advogado Humberto Fabretti diz que a acusação foi apresentada às pressas, após a eleição de 2016, com base em um inquérito de seis anos antes que não tinha avançado. Fabretti diz que as atividades empresariais de seu cliente na época das acusações eram de compra e venda de postos de combustíveis e que ele inclui essas empresas em sua declaração eleitoral de bens porque o processo impede que se dê baixa. O advogado diz que o conjunto de acusações contra o prefeito indica haver uma "questão pessoal" do Ministério Público contra o político, sem que a acusação tenha conseguido mostrar provas. A defesa afirma que todos os processos contra o prefeito ainda não tiveram decisão nem mesmo da primeira instância e que, pelos critérios da Lei da Ficha Limpa, ele está apto a concorrer e a ser diplomado a qualquer cargo. A reportagem também procurou o presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, que afirmou que as acusações contra os dois candidatos a prefeito não estão comprovadas. "Ainda não houve decisão colegiada e, do ponto de vista penal, há que se observar o contraditório e a ampla defesa. Portanto, não há impedimento para que os candidatos republicanos concorram."