Alianças passadas de Bolsonaro recomendam cuidado ao Centrão no futuro

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Ao receber na Casa Civil o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e dizer que é "do Centrão", o presidente Jair Bolsonaro demonstra que quer reforçar o apoio do grupo nas eleições de 2022 e se proteger de pedidos de impeachment. A disposição de Bolsonaro em ir para o PP, legenda presidida por Nogueira e que tem como filiado o presidente da Câmara, Arthur Lira, é mais um passo.

É motivo para os caciques do grupo comemorarem. Mas também ficarem preocupados. Pelo menos se olharem o que aconteceu com outros que se aliaram ao presidente, confiando que ganhariam poder e a capacidade de, se não tutelar, ao menos negociar algum limite de previsibilidade com Bolsonaro.

O PSL, partido com que Bolsonaro se elegeu, tornou-se uma das maiores bancadas na Câmara. O custo foi uma divisão interna, a partir da saída do presidente e de parte dos aliados, com que o partido ainda tem de lidar.

Conservadores ganharam espaço no debate político. Mas de estrela que atraiu a órbita de ideias opostas à da esquerda, Bolsonaro tornou-se um buraco negro que tragou o conservadorismo para um universo paralelo em que é associado à rejeição à ciência e à credibilidade das instituições.

O liberalismo do ministro da Economia, Paulo Guedes, que Bolsonaro prometeu encampar, foi se enfraquecendo a cada demissão de executivos de estatais ou na equipe econômica. Ou na defesa de privilégios para policiais e militares em reformas para reduzir gastos públicos. A volta do Ministério do Trabalho, com o novo nome de Emprego e Previdência é a nova, mas provavelmente não a última, martelada a desmontar o discurso de enxugamento do tamanho do Estado.

A substituição do general Luiz Eduardo Ramos por Nogueira na Casa Civil materializa o esvaziamento de outro sustentáculo: os militares. Bolsonaro deu às Forças Armadas um espaço na administração civil nunca antes visto, desde o fim da ditadura. Em troca, gerou divisões internas e o temor de politização das Três Armas, e Eduardo Pazuello encarnou a desorientação do governo no combate à Covid-19. Além disso, o ex-ministro da Saúde, cuja ausência de punição por ir a um ato político com Bolsonaro jogou sobre o Exército a sombra de tolerância com indisciplina, batiza uma proposta de mudança da Consituição para impedir que miltares da ativa ocupem cargos no serviço público civil.

Sempre se pode argumentar que o Centrão não tem uma reputação ilibada que Bolsonaro possa manchar. Mas o grupo tem um princípio que o une: é preciso gastar dinheiro público primeiro e perguntar depois qual é o custo, ocupando cargos no Estado. Como Bolsonaro pode desfazer essa união? É difícil prever. Mas de alguém que ficou contra o isolamento social para combater a Covid, desconfiou das vacinas e agora luta contra a urna eletrônica que o elegeu, pode-se esperar que, se houver alguma forma de semear a cizânia, ele descobrirá.

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