Alice Pataxó, que encantou Malala com discurso na COY16, diz que foi à conferência desmentir Bolsonaro: 'Eles ficam dizendo que está tudo bem no Brasil, são absurdos'

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RIO — Fã de funk, Kanye West, Marina Sena, aspirante a advogada, blogueira e bissexual. A jovem Alice Pataxó, cujo discurso em defesa dos territórios indígenas na cerimônia de encerramento da COY16 - versão jovem do COP26 - gerou até postagem especial da Malala, quebra os estereótipos frequentemente associados aos indígenas no Brasil. Da Escócia, ela disse que a sua luta voltará fortalecida e se mostrou surpresa com o nível de informação do público estrangeiro em relação ao governo Bolsonaro.

— Até os jovens de 16 anos vinham falar, curiosos, contando que os jornais escoceses acompanham o governo do Brasil. Eles sabem que essa situação política causa grande impacto ambiental — afirmou Alice Pataxó, que cita prejuízos causados pelo governo durante a pandemia dentro de sua aldeia, como as fake news sobre vacinas, que chegaram a assustar, inicialmente, os indígenas na sua aldeia. — Não tivemos contato com integrantes do governo brasileiro, e nem gostaríamos, até porque não seríamos bem recebidos. Eles ficam dizendo que está tudo bem no Brasil. São absurdos que viemos aqui para desmentir.

Atualmente moradora de Porto Seguro em função da faculdade, Alice vivia na aldeia Craveiro, na cidade de Prado, também no sul da Bahia. Atualmente, ela faz graduação de bacharelado interdisciplinar em humanidades na Universidade Federal do Sul da Bahia, curso que, após o ciclo básico, encaminha estudantes para outras graduações de humanas. Seu objetivo é fazer direito, provavelmente a partir do ano que vem.

Foi ao viver na pelos conflitos que marcam a resistência dos indígenas brasileiros, durante o processo de reintegração de posse na aldeia Araticum em 2015, que Alice se engajou na militância da causa, como ativista digital. Nas redes sociais, passou a produzir conteúdos direcionados aos não indígenas, com muitas referências pop, a fim de debater questões e informar a sociedade sobre as ameaças que sua etnia vive. Hoje, ela possui 107 mil seguidores no Instagram e 102 mil no Twitter.

— Eu já era ativa no movimento estudantil, mas a reintegração de posse tem um reflexo muito forte na minha vida até hoje, é muito difícil lidar com o que aconteceu, mas isso me fez ter ainda mais garra na luta, não desistir dela, porque eu senti a responsabilidade e a necessidade de mudar as coisas, de permitir que isso não aconteça com outras crianças — explicou Alice, que lembra que, desde o governo Bolsonaro, o interesse do público sobre seu conteúdo aumentou.

Malala indica Alice nas redes

Em Glasgow, sede da COP26 e COY16, Alice fez sua primeira viagem internacional, acompanhada de outros cinco indígenas, das etnias Inãn (Karajá), Hunikuin e Munduruku, e seu discurso impactou os presentes. No encerramento da Coy16, nesta segunda (1), ela fez uma introdução no seu idioma nativo, para explicar suas origens, e depois, em português, destacou a importância da união na luta em preservação do meio ambiente:

"É a primeira vez que saio do meu território, em um momento onde o Brasil vive uma forte decisão sobre as terras indígenas. Mas eu entendo a necessidade de me unir à juventude do mundo para falar sobre isso, para lutar pelo meio ambiente e criar soluções juntos. Estou orgulhosa de poder voltar para minha casa e dizer para meu povo: não estamos mais sozinhos", discursou, arrancando aplausos efusivos da plateia.

O vídeo do discurso, intensamente compartilhado, também foi motivo para Malala, ativista paquistanesa e a pessoa mais jovem a já ter vencido um Prêmio Nobel da Paz, jogar luz sobre o nome de Alice Pataxó. Nas redes sociais, Malala indicou a brasileira, bem como outras mulheres, como uma das jovens lideranças que merecem ser ouvidas e acompanhadas de perto pelo planeta. A menção foi motivo de "surto", disse Alice.

— Ter essa indicação direta da Malala foi muito especial, ter esse reconhecimento, saber que podemos nos fortalecer juntas — explicou Alice, que é bolsista do instituto que Malala mantém no nordeste, para mulheres indígenas, o Malala Fund. — Faço parte desse projeto que ajudam as meninas indígenas a se tornarem futuras lideranças. Lutamos muito pela igualdade de direitos, porque muitas meninas, por exemplo, acabam casando cedo e abandonando a escola. A Malala é uma referência que tenho na luta pela conquista de direitos das mulheres.

Se não recebe apoio do governo brasileiro, Alice disse que teve encontros produtivos, na França — onde passou antes da Escócia — e em Glasgow. Como, por exemplo, com a prefeita de Paris e pré-candidata a presidência do país.

— Tivemos várias reuniões para termos apoio aos nossos projetos. Na nossa comitiva, eu trouxe o projeto de reflorestamento de mangue de Prado — afirmou Alice, que também compartilhou experiências com outras jovens lideranças globais, incluindo indígenas das Américas e da África.

— Com os indígenas, fizemos rituais de cantos, para exercitar nosso lado espiritual e trocamos sementes nativas. Foi encantador, muito bonito e incrível vivenciar e conhecer realidade com outros pontos. As lutas são parecidas com a nossa, história intensa e sangrenta. Mas compartilhamos esperança de que nossa luta agora é em conjunto, nos unimos para conquistar o que sonhamos e o direito de existir enquanto indígenas.

Sexualidade e quebra de estereótipos

Nas suas postagens, Alice alia conteúdos didáticos para não indígenas a doses de humor e referências pop. Não são raros os conteúdos a la TikTok, como forma de naturalizar sua identidade jovem, que ouve música, usa muito o celular, se relaciona e se diverte.

— Somos mais do que as pessoas pensam, somos seres sociais e por tanto diferentes, e complexos também, não somos a caricatura do “índio “ que conhecemos no Brasil — resume. — Eu quero que as pessoas entendam que somos indígenas, mas somos jovens, também estamos nas redes, e fazer parte disso não nos tira nossa identidade e cultura, mas se bem usadas, elas fortalecem nossos laços culturais, e exercem um poder de auto estima e orgulho de ser quem somos

Dentro de seu ativismo, Alice Pataxó abriu espaço para a luta contra a homofobia. Abertamente bissexual, a jovem explica que "precisava desmistificar a sexualidade e o gênero indígena". Ao identificar traços da intolerância e opressão como heranças da colonização e catequização dentro das aldeias, Alice trava uma luta dentro da cultura indígenas contra essa "coisa que não nos pertence".

— Eu sou bissexual, e eu precisava desmistificar a Sexualidade e o gênero indígena. A homofobia não deve ser bem vinda em nossos territórios, sempre fomos livres e precisamos continuar sendo. Eu fico muito feliz de como meu povo recebe o que tenho produzido. E de como isso impacta as pessoas, algumas por incômodo, outros por admiração de uma sociedade em que todos gostariam de viver e que nós tentamos construir.

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