Alimentos plant-based e os novos hábitos do consumidor

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Não faz muito tempo, quem se declarava vegano ou dizia se alimentar com produtos de uma foodtech corria sérios riscos de deixar o interlocutor com cara de paisagem. Pouca gente, afinal, sabia da existência de uma dieta que veta todos os alimentos de origem animal ou de startups dedicadas a criar produtos análogos a hambúrgueres bovinos ou peixes. Num piscar de olho, porém, os veganos deixaram de ser vistos como alienígenas e os alimentos plant-based – destinados também a vegetarianos, carnívoros e flexitarianos – ganharam espaço na maioria dos supermercados.

Para falar sobre o sucesso das comidas sem nada de origem animal, nova edição da série de encontros virtuais do projeto PEGN Labs reuniu Nathalie Passos e Amanda Pinto. A primeira é chef e dona do Naturalie Bistrô, restaurante situado em Botafogo, no Rio de Janeiro, que só serve receitas sem carne, algumas delas veganas. Amanda é CEO da foodtechN.Ovo, cujo carro-chefe é o chamado ovo vegano. A conversa da dupla foi transmitida pelos canais da revista e a intermediação coube ao repórter Rennan Julio.

Assista ao encontro PEGN Labs aqui:

Quando abriu seu restaurante, em 2015, Nathalie tinha 22 anos. Conhecimento sobre receitas sem carne ela já tinha de sobra. Antes da inauguração, ela se formou em gastronomia pela Universidade Estácio de Sá e passou dois anos nos Estados Unidos. Em Nova York, especializou-se em receitas sem carne no prestigioso Natural Gourmet Institute e estagiou em cinco restaurantes do segmento, entre os quais o Pure Food and Wine, referência em culinária crua, o One Lucky Duck e o Dirty Candy.

Para relembrar:outros encontros PEGN Labs Rio Gastronomia

Ainda em Nova York, foi voluntária da feira de orgânicos da Union Square. Antes de voltar ao Brasil, empregou-se no restaurante do The Stanford Inn, um eco-resort no vilarejo de Mendocino, na Califórnia. Nele, todos os legumes e verduras que entram na cozinha saem da horta, cujo plantio e colheita são de responsabilidade dos cozinheiros.

“A comida do Naturalie Bistrô, ao contrário do que pensam, não é nada complicada”, disse Nathalie. “Em resumo, explora ao máximo os ingredientes naturais e, por isso, é mais saudável que a dos estabelecimentos que preferem produtos industrializados e cheios de aditivos”. O salpicão de grão de bico com cenoura, tofu defumado, maçã, uva passa, milho, maionese de castanhas e palha de raízes é uma das receitas para quem não come nada de origem animal. “Quando abri o restaurante, precisava explicar muito mais qual era a proposta dele”, afirmou. “Hoje, parece que a maioria da clientela já entendeu por conta própria”.

Amanda é filha de Leandro Pinto, CEO e fundador da companhia que mais produz ovos na América do Sul, o Grupo Mantiqueira, com 11,5 milhões de galinhas. Por seis anos ela trabalhou ao lado do pai, ao final do período como gerente de inovação e marketing. Abandonou o cargo para virar CEO da N.Ovo, inicialmente um braço do Grupo Mantiqueira. “As pessoas me perguntam se a minha família parou de falar comigo, mas não houve nada disso, apesar de eu ter encontrado algumas dificuldades dentro da empresa”, contou Amanda.

Convém explicar que o ovo vegano é um pó à base de ervilha e linhaça. Ele deve ser misturado com água a uma proporção de 11 gramas para cada 39 ml. Cada unidade do produto, indicado para bolos, pães, massas e panquecas, permite o “preparo” de doze ovos. “A foodtech nasceu da vontade de criar alimentos mais sustentáveis”, disse a CEO, que se inspirou em companhias do gênero criadas no Vale do Silício, nos Estados Unidos. “Depois, percebi que estamos colaborando com a solução de problemas globais e urgentes, como a fome e a falta de área para a indústria pecuária”.

Do portfólio da N.Ovo, fundada em 2019 e hoje independente do Grupo Mantiqueira, também faz parte uma versão que permite fazer imitações de ovos mexidos e omeletes. E ainda há quatro sabores de maionese, elaborada a partir da mistura de amido de batata, milho e óleo de girassol. “Hoje, há vários produtos plant-based nos mercados, mas quando lancei o primeiro da N.Ovo ninguém sabia do que se tratava”, disse a CEO. “O intuito não é mudar hábitos dos consumidores, é oferecer alternativas sustentáveis que agradem a eles. Quem fica alguns dias da semana sem comer carne já está colaborando muito com o meio ambiente”.

Como a pandemia afetou o negócio das duas? Nathalie contou que se viu obrigada a fechar a única filial do restaurante, que ficava em Ipanema, e abraçar o delivery, usado pouco no passado. “Às vezes, apostar todas as fichas no delivery equivale a cavar o buraco ainda mais”, ensinou, argumentando que é preciso pesar custos e demanda. O início da quarentena no Brasil coincidiu com a época na qual a N.Ovo ia começar a apostar no setor de foodservice. O jeito foi mudar de planos e focar nos consumidores finais. “Não foi fácil, mas acredito que o pior já passou”, resumiu Amanda.

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