Aline Wirley já trabalhou como faxineira e, na pandemia, lembrou ter sofrido racismo: 'Sofri muito'

Aline Wirley, anunciada nesta quinta (12) como participante do "Big Brother Brasil", integrou o grupo Rouge, fez trabalhos como atriz, é empresária e, na pandemia, emocionou-se na pandemia ao lembrar a época em que trabalhou como empregada doméstica. Ela explicou como, ao longo de sua vida, o imaginário construído por uma sociedade racista a prejudicou:

— O racismo é algo muito sério. Sou uma mulher preta, de 38 anos, lutei muito para chegar onde estou hoje. E é inadmissível continuarmos vivendo como estamos vivendo (...) Me despertei como mulher negra há três anos. Este momento aconteceu para mim quando tirei meu aplique, minhas madeixas louras. O dia que tirei foi um dos mais difíceis da minha vida inteira. Nunca achei que aquilo pudesse ser tão doído. Isso acontece porque o povo preto, a nossa história é apagada. Quando se nasce preto num país como o nosso a gente não tem referência do que é bom (...) A maioria da população do nosso país é preta e sobrevive da maneira que pode. Assim é a minha família — disse, em vídeo de 2020, no Instagram.

Na época, Aline também recordou que uma de suas primeiras apostas de trabalho foi como empregada doméstica:

— Venho de uma família de classe média baixa, cresci tomando banho de bacia e com a minha avó cozinhando o que dava num fogão a lenha. Para mim, é natural. Para mim, era assim que pretos viviam. (Pensava:) "Assim que é para ser". Eu não tinha referência de que não podia ser assim. Ao longo da vida, eu sofri muito racismo. Mas eu era tão... A sociedade faz com que os negros não compreendam, até aqui, esse momento, o quanto é nocivo, o quanto é doído, porque a gente "nasceu para ser assim". Eu não entendia o que estava errado o que faziam comigo porque para mim era o normal. Eu fui crescendo, buscando meus caminhos... Assim como as mulheres da minha família eu também fui empregada doméstica... Até que aconteceu o Rouge na minha vida.

A artista se referiu ao concurso que, no início dos anos 2000, deu origem ao grupo musical Rouge, prêmio do talent show "Popstar", no SBT.

— Éramos três finalistas negras e tínhamos certeza que só seria uma de nós. Porque só tinha espaço para uma negra. Só uma! Fomos eu e a Karin (Hills). Naquela época eu não entendia como era importante para mim ocupar aquele espaço. O tempo foi passando, eu fui amadurecendo, fui querendo me instigar mais, me aceitar como sou... Foi quando comecei meu processo de olhar para mim com mais verdade e clareza (...) Eu sempre tentava ser a mais engraçada, a mais legal, a mais tranquilona para que eu conseguisse acessar os lugares que eu consegui acessar. Para ter uma vida mais digna e dar uma vida mais digna para a minha família - disse ela, que é casada com o ator Igor Rickli e com ele tem Antônio, de 7 anos.

Já com a família constituída e a vida artística consolidada, Aline Wirley diz que a herança do imaginário construído na infância permanecia:

— Eu tinha uma secretária em casa que me ajudava na casa. Eu tive um insight. Eu não pedia coisas para ela, não falava para fazer as coisas. Eu mesma fazia. Até que um dia o Igor (Rickli) falou: "Amor, pede para ela fazer". E eu fui questionar por que isso acontecia. Acontecia porque ela era uma mulher branca e porque, na minha cabeça, estávamos num lugar trocado. Na minha cabeça, eu deveria estar no lugar dela, limpando para ela, eu deveria estar fazendo aquele serviço (...) É muito maluco. São crenças limitantes que nós carregamos: de que nós somos inferiores, somos menos importantes, de que nossas vidas são menos importantes do que outras vidas. Espero que as pessoas que assistam (a esse vídeo) exercitem a empatia.