Alinhados a Bolsonaro, capitão e delegados disputam segundo turno em 3 capitais

MARCEL RIZZO
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FORTALEZA, CE (FOLHAPRESS) - Ao iniciar a campanha para a Prefeitura de Fortaleza em setembro, o deputado federal Wagner Sousa Gomes, 41, o Capitão Wagner (Pros), queria evitar que a segurança pública se tornasse como em 2016 o tema central do debate na capital cearense. Para isso, preparou um plano de governo no qual educação e saúde tivessem tanto destaque quanto armar a guarda municipal, uma de suas bandeiras naquela eleição. O currículo de policial militar reformado, porém, continuou como ganha-voto e também como munição para os adversários. Wagner é um dos policiais que participarão do segundo turno das eleições municipais pelo Brasil em 2020, que tem também representantes em Belém, com o deputado federal educhi (Patriota) e em Vitória, com o Delegado Lorenzo Pazolini (Republicanos). Capitão Wagner, que obteve 33,3% dos votos no primeiro turno, enfrentará no segundo o candidato governista dos irmãos Ciro e Cid Gomes e que tem também apoio do governador petista Camilo Santana. Em 2016 o adversário foi o prefeito Roberto Cláudio (PDT), que acabou reeleito, e desta vez é o deputado estadual José Sarto (PDT), que conseguiu 35,7% dos votos neste domingo (15). O nome de capitão Wagner estava entre os citados pelo presidente Jair Bolsonaro no domingo, em post depois apagado. O motim dos policiais militares no Ceará em fevereiro de 2020 acabou protagonizando a reta final da campanha depois que Camilo Santana, costumeiramente comedido, decidiu confrontar Wagner diretamente o acusando de participar da paralisação que afetou a segurança pública no estado. "Não participei do movimento e não tinha nenhum motivo para desejar a paralisação, ainda mais em ano eleitoral", disse Wagner ainda antes do primeiro turno. A uma semana do primeiro turno até o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro, que esteve no Ceará durante o motim, entrou no assunto: ele gravou um vídeo em que afirmava que Wagner havia pedido a ele que ajudasse no fim do movimento. O plano de Wagner de evitar ser monotemático já estava danificado e ele passou a parte final da campanha precisando negar sua participação no motim. E foi justamente uma paralisação de policiais militares, em 2011, que o projetou para a política. Wagner liderou o motim de dezembro daquele ano, que segundo ele ocorreu por causa de circunstâncias inevitáveis, e acabou eleito vereador de Fortaleza em 2012. Daí foi como deputado estadual para a Assembleia Legislativa do Ceará em 2014 e, em 2018, se elegeu deputado federal, sempre com a segurança pública como especialidade, o que fez o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) declarar apoio a ele nesta eleição de 2020. Um apoio que Wagner, de fato, não utilizou. Em nenhum momento da campanha o candidato citou Bolsonaro como seu apoiador e, quando no único debate em TV aberta realizado a oito dias da eleição os adversários o colocaram como candidato do presidente, Wagner se limitou a dizer que era importante uma parceria com o governo federal para facilitar o acesso a verbas federais que são disponibilizadas para os municípios. Se em Fortaleza Capitão Wagner usou com moderação o apoio de Bolsonaro no primeiro turno, em Belém Everaldo Jorge Martins Eguchi, 57, o Delegado Federal Eguchi, não economizou a imagem do presidente, mesmo sem ter tido o apoio explícito de Bolsonaro. Na redes sociais, o delegado da Polícia Federal aparecia em foto ao lado de Bolsonaro e avisava que "só Eguchi pode vencer a esquerda no segundo turno". Em outra imagem ele estava segurando uma algema e ao lado a frase "Belém está em nossas mãos, vote no delegado ou no ladrão", em estratégia de polarização direita x esquerda bem parecida com a usada por Bolsonaro em 2018. Seu adversário no segundo turno será Edmilson Rodrigues, do Psol, que venceu o 1º turno com 34,2%, contra 23,06% de Eguchi, o que surpreendeu já que a última pesquisa divulgada, o Datafolha de 14 de novembro encomendada pelo jornal o Libertal, colocava Eguchi em terceiro lugar. "O segundo turno é uma nova eleição. Vamos sentar com todos que quiserem participar desse grande projeto, inclusive os candidatos que foram derrotados, mas sem corrupção e sem politicagem", disse Eguchi após o anúncio dos resultados, no domingo (15) à noite. Em Vitória, outro candidato ligado à polícia e que não se coloca como bolsonarista venceu o primeiro turno. O Delegado (da polícia civil) Lorenzo Pazolini (Republicanos) teve 30,9% dos votos contra 21,8% seu adversário no segundo turno, João Coser (PT). "Para esclarecer, sou da carreira policial mas também fui auditor do Tribunal de Contas, não se restringe portanto somente à carreira policial mas também a gestões públicas", disse Pazolini à reportagem. "E minha candidatura é independente, o candidato do Bolsonaro era outro nesse primeiro turno, inclusive com fotos nas redes sociais", afirmou Pazolin, se referindo a Capitão Assumção (Patriotas), que ficou em quarto lugar com 7,2% dos votos. Pazolini se elegeu em 2018 deputado estadual e teve repercussão nacional em 2020 depois de, ao lado de outros quatro deputados, entrar em junho num hospital em Serra, na grande Vitória, para averiguar as condições ao tratamento da Covid-19. O governo do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), considerou o ato uma invasão, já que dias antes Bolsonaro havia incentivado pessoas a entrarem em hospitais e filmar se de fato havia muitos pacientes internados por Covid-19. "Foi coincidência a live do Bolsonaro. A visita havia sido marcada anteriormente à fala do presidente e entramos junto com funcionários do hospital e utilizamos todo o material de proteção. Essa visita, inclusive, aumentou o número de vagas do hospital e nas condições de trabalho dos funcionários", disse Pazolini. O delegado também esteve, em setembro de 2020, envolvido no caso da menina de dez anos que teve aborto autorizado pela Justiça após ser estuprada pelo tio. Ele esteve junto com funcionários do Ministério da Família, da Mulher e dos Direitos Humanos em visita a familiares da vítima na cidade de São Mateus. "Estive como presidente da Comissão de Proteção à Criança e ao Adolescente da Assembleia Legislativa para zelar pelo bem estar da criança nesse caso triste, sempre alguém da comissão vai in loco para acompanhar e proteger a vítima", disse Pazolini.