Alívio e medo: volta às aulas em São Paulo gera sentimentos controversos em pais de alunos

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Students attend a class at Milton da Silva Rodrigues school, amid the novel coronavirus COVID-19 pandemic, in Sao Paulo, Brazil, on November 3, 2020, on the first day of return to high school students' classes in the state of Sao Paulo. (Photo by NELSON ALMEIDA / AFP) (Photo by NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images)
Sala de aula na escola Milton da Silva Rodrigues, em novembro de 2020 (Foto: Nelson Almeida/AFP via Getty Images)

Na última segunda-feira, 8, o estado de São Paulo retomou as aulas presenciais em meio à pandemia do coronavírus. Pais e professores tem sentimentos controversos quanto à decisão, mesmo que o governo estadual alegue que está tomando as medidas necessárias para tornar a experiência segura para todos os envolvidos.

A presença dos alunos não é obrigatória e as salas podem recebera apenas 35% da capacidade. Ainda assim, Sueli de Azevedo Souza não se sente segura. “Acho que nenhum pai e nenhuma mãe está 100% seguro de mandar os filhos, mas preciso pensar no psicológico da criança”, afirma. Ela descreve que o período sem aulas presenciais foi terrível para o filho Matheus, de 8 anos, aluno da rede pública.

“Muita gente deve estar pensando ‘ela manda os filhos para a escola porque não aguenta mais os filhos dentro de casa’, mas não é isso. É porque eu penso que ele tem que estar na presença de crianças da idade dele”, opina. “São 10 crianças por classe. Ele não precisa abraçar, não precisa beijar, mas se ele tiver alguma dúvida, pode pedir para os colegas. A figura do professor é muito importante também.”

Matheus vai à escola duas vezes na semana e fica na sala de aula durante três horas, entre 7h e 10h. Às 10h30, as aulas continuam, mas pelo centro de mídia, ou seja, pelo computador. Segundo Sueli, não é fácil para o filho se acostumar com o sistema online.

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“Ele tem uma certa dificuldade na leitura, conhece todas as letras, mas na hora de juntar é mais difícil. Ele ficava ansioso, quando ele fazia as lições eu tinha que ficar todos os dias do lado dele para poder auxilia-lo. Ele ficava nervoso, chorava muito. Tive que aprender a conviver com o choro diário do Matheus na hora de fazer os deveres”, relata.

No início, quando Sueli contou ao filho que as aulas voltariam, o menino teve medo. “Hoje ele foi para a porta da escola e estava feliz de ver os amigos. Eu expliquei para ele que é tudo marcado com o X, que não pode ficar perto, que na mochila dele tem álcool em gel. Acho que nenhuma mãe e nenhum pai vai sentir tanta segurança, mas eles precisam ter a vida deles também.”

Um dos temores da mãe era que Matheus convivesse apenas com o outro filho, Miguel, de 5 anos, e isso atrapalhasse o desenvolvimento do filho mais velho.

A preocupação, no entanto, não se limita ao que acontece dentro da sala de aula. O trajeto também é um problema. Juliana Teixeira relata que, para ir à escola e voltar, o filho de 15 anos, aluno da rede estadual, pega transporte público.

“Estou muito apreensiva, porque ele era o único em casa que não precisava sair para nada, foram poucas as vezes em que ele saiu de casa desde março do ano passado. Agora ele vai ter que pegar quatro ônibus para ir e volta da aula. O transporte é o que mais está me afligindo”, conta.

Juliana já foi infectada pelo coronavírus duas vezes. Em ambas ocasiões, conseguiu proteger os filhos. “Me contaminei e consegui não passar pros meus filhos, agora o último deles que estava protegido (os outros estão trabalhando) estará diretamente exposto também.”

Por outro lado, o filho está muito feliz de poder voltar às aulas. Segundo Juliana, o período em casa foi bastante ruim. “Ele está muito empolgado de voltar, está morrendo de saudades da escola e dos amigos, não via a hora de voltar às aulas presenciais. Ele detestava as atividades remotas, que no caso da escola pública eram quase sempre atribuídas pelos professores nos grupos de Whatsapp. Eles mandavam o conteúdo para os alunos lerem, responderem e enviarem.”

Assim como Matheus, filho de Sueli, o filho de Juliana vai apenas alguns dias para a escola e fica três horas na sala de aula. “Basicamente, o que eles puderam fazer foi dividir as turmas em 4 grupos, e eles vão fazer um rodízio de aula presencial. Em média, cada grupo vai uma vez por semana à aula”, diz.

A experiência de Carolina Gava, cuja filha de 11 anos estuda em uma escola particular, é diferente. Ela relata que o período de aulas remotas foi bom e a filha se adaptou bem ao modelo disponibilizado pela escola. “Ela precisou pouco da minha ajuda para acompanhar as aulas, sendo necessário, contudo, quase indispensável, meu apoio para manutenção de uma rotina de estudos. Interagiu bem com os colegas de escola por chats e vídeos chamadas fora do horário regular da escola. Em outubro ela regressou para a escola em caráter semi-presencial. Atualmente ela estuda em escola que organizou retorno com presença (facultativa) todos os dias no ambiente escolar”, relata.

Mesmo satisfeita com o ensino em casa, Carolina conta que a filha ficou muito feliz em poder voltar. “É filha única e praticamente não teve contato pessoal com outras crianças durante o período que esteve em aulas remotas”, afirma.

Carolina fica preocupada com a possibilidade de a filha se contaminar ou levar o vírus para casa, especialmente pelo contato com a avó, de 62 anos. Mas, sente segurança quanto aos protocolos da escola e descreve que o controle feito pela instituição é bastante rígido. “Como ela já é mais velha e em casa somos bem rigorosos quantos aos cuidados com a COVID (tomar banho ao entrar em casa, uso de máscara sempre que saímos etc), percebo que ela consegue se comportar com certa segurança, como uso de máscara, higiene das mãos, não compartilhar objetos, não abraçar, etc). Mas ainda assim sentimos certo receio, por isso reforço sempre que ela deve ter muito cuidado.”

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