Almanaque Carioquice: veja curiosidades de algumas das localidades retratadas no guia

Gilberto Porcidonio
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RIO - Bonita por natureza, o Rio de Janeiro não é cheio apenas de atrações explícitas. Algumas precisam de um pouco mais de faro e espírito de observação. No Almanaque Carioquice 2021 recém-lançado digitalmente pelo Instituto Cultural Cravo Albin, essas belezas "da natureza e da civilização", como diria Caetao Veloso, aparecem elencadas em 120 opções pela cidade.

Autor da revista que está em seu quarto número, o musicólogo Ricardo Cravo Albin comemora o sucesso do guia digital que já foi baixado mais de 5 mil vezes. De acordo com Ricardo, o segredo foi a originalidade da abordagem:

— A característica principal dele é colocar os lugares que estão às nossas vistas e que ninguém para para ver. Esse que é o segredo. E isso também recupera um pouco da história da imprensa, pois os almanaques eram os resumos do que se passava pela capital e pelo país.

Para o musicólogo, que, dentre muitos lugares, tem um grande apreço pelo centor cultural Solar de Botafogo; pelo Museu da Humanidade, em Anchieta; e pelo prédio inglês da Fábrica de Tecidos Bangu que, hoje é um shopping; a pandemia também acentuou a procura das pessoas pela história dos lugares que lhes são familiares:

— Neste momento, todos estamos inquietos e insatisfeitos, e isso recupera um pouco da auto-estima e da alegria do passado. Eu estou muito confinado por conta da Covid-19 e, antes, eu sempre saía em peregrinação por esses lugares.

Para facilitar o garimpo, selecionamos algumas das atrações que podem ser apreciadas junto de suas histórias:

Casa Villiot, em Copacabana

Apelidada de "casa sem janelas" por conta de seus traços excêntricos que lembram uma fortaleza, o prédio de 306 metros quadrados que fica no número 80 da Rua Sá Ferreira é tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), sendo construído pelo arquiteto italiano Antônio Virzi em 1929 para ser a moradia do engenheiro Victor Villiot Martins. Hoje, a casa que também tem elementos art déco abriga a Biblioteca Municipal Carlos Drummond de Andrade.

Esta é uma das poucas construções restantes de Virzi, que, com a chegada do modernismo, sofreu duras críticas por conta de sua liberdade criativa. Em 1951, o arquiteto Lúcio Costa chegou a se referir ao italiano como a "ovelha negra da crítica arquitetônica contemporânea". Outras construções do mestre, como o palacete do Barão Smith de Vasconcelos (vulgo "máquina de escrever"), acabaram indo abaixo junto de outras obras ecléticas pela cidade.

— Virzi foi o nosso mais alucinado arquiteto. Ele também fez o mais importante prédio Art Nouveau do Brasil, a Fábrica do Elixir de Nogueira, na Rua da Glória, criminosanente demolido às vésperas de ser tombado em 1970 — disse o marchand Marcio Roiter, presidente do Instituto Art Déco do Brasil.

Paróquia São Conrado

Tombada pelo Iphan em 2005, a igreja do santo que denomina também o bairro da Zona Sul foi erguida em 1914 pelo comendador Conrado Jacob Niemeyer, como um presente para a sua esposa, bem no topo do terreno da antiga Praia da Gávea. A obra intimista é considerada uma joia da arquitetura eclética em elementos neoclássicos.

Em 2014, quando completou cem anos, a cantora e compositora Maria Bethânia, que mora no bairro e costuma frequentar a paróquia, gravou o hino “Pequena canção para São Conrado”.

Casa Julieta de Serpa, na Praia do Flamengo

Construída em 1920 e se destacando do paredão de prédios nobres da região, o palacete que emula o estilo neoclássico francês que já pertenceu à família Seabra e, em 2002, o educador e antiquário Carlos Alberto Serpa de Oliveira comprou a casa que batizou de Casa de Arte e Cultura Julieta de Serpa em homenagem à sua mãe, dona Julieta, que se dedicada às artes. A casa abriga um restaurante e um bar, além de alugar o espaço para festas e eventos.

Reserva Florestal do Grajaú

O parque estadual do arborizado bairro da Zona Norte ocupa os 55 hectares da encosta nordeste da Serra dos Três Rios até os limites do Parque Nacional da Tijuca. A área foi criada em 1975 quando uma imobiliária cedeu o espaço ao governo do estado como uma forma de se sanar dívidas, e três anos depois passou por um processo de reflorestamento dos morros vizinhos para se conter os constantes deslizamentos no local. Hoje, é ideal para recreação e atividades ao ar livre, como piqueniques, trilhas e também montanhismo.

Bar da Pracinha, no Alto da Boa Vista

O clima de montanha de um dos bairros mais frescos da cidade é ideal para quem deseja "fugir" do Rio sem sair dele. O restaurante que funciona desde 1943 em um antigo terminal de bonde na Praça Afonso Viseu, oferece fondues, filé de mignon, avestruz e feijoadas, além de mantas e lampiões durante os dias de frio mais intenso.

No ano passado, a pandemia quase fez com que a casa fechasse as portas de vez. Porém, a migração para o delivery e a solidariedade dos clientes salvou o bar do fechamento.