Almoço de Lula com bispo da Assembleia de Deus irrita evangélicos e anima petistas

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***ARQUIVO***SÃO BERNARDO DO CAMPO, SP, 10.03.2021 - O ex-presidente Lula durante coletiva no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, dois dias depois de o ministro Edson Facchin anular suas condenações no âmbito da Lava Jato; Lula fica livre para disputar eleições. (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress) ORG XMIT: AGEN2103101958673296
***ARQUIVO***SÃO BERNARDO DO CAMPO, SP, 10.03.2021 - O ex-presidente Lula durante coletiva no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, dois dias depois de o ministro Edson Facchin anular suas condenações no âmbito da Lava Jato; Lula fica livre para disputar eleições. (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress) ORG XMIT: AGEN2103101958673296

SÃO PAULO, SP, E RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Uma foto de Manoel Ferreira, bispo primaz de um dos mais poderosos galhos da Assembleia de Deus, o Ministério Madureira, entre Lula e outro petista, o líder da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), André Ceciliano, agitou os bastidores evangélicos. Seria sinal de uma igreja de peso disposta a fazer as pazes com o ex-presidente?

A imagem foi compartilhada na quarta (16) por Anthony Garotinho, ex-governador do Rio e primeiro presidenciável evangélico competitivo que o país teve, em 2002. Naquele pleito, quem venceu foi o PT, e com apoio de nomes evangélicos que hoje se dizem alérgicos ao partido, como o pastor Silas Malafaia e o bispo Edir Macedo.

A reportagem teve acesso a outro retrato: além de Manoel, Lula, Ceciliano, lá estão a deputada Benedita da Silva, única petista da bancada evangélica, e a presidente da legenda, deputada Gleisi Hoffmann. O grupo está sentado em volta de uma mesa, todos de braços dados e erguidos. Só o bispo não usa máscara, medida de proteção na pandemia da Covid-19.

O almoço ocorreu duas semanas atrás, na véspera do feriado de Corpus Christi, no sítio de Ceciliano, em Mendes (RJ). Lula se hospedou ali durante seu tour pelo Rio.

O convite partiu do presidente da Alerj, que é padrinho político do vereador Júnior Martins, do PT de Japeri (RJ). Júnior é evangelista e trabalhou por 15 anos com Manoel, tendo sido seu assessor na Câmara dos Deputados. Ele quem levou o bispo à mesa. "André é meu padrinho. O bispo é meu paizão".

O vereador diz que o ex-presidente manifestou o desejo de ter um vice evangélico na chapa para 2022. Ainda segundo Júnior, o bispo de 89 anos respondeu que estava "em idade avançada" e que essa seria uma missão que caberia ao filho Samuel Ferreira, que o substituiu na dianteira da Assembleia de Deus Madureira.

Acontece que a mesma Madureira sobe, literalmente, na garupa de Bolsonaro. Atual presidente da bancada evangélica, o deputado Cezinha de Madureira (PSD-SP) foi o passageiro carona do presidente na motociata bolsonarista de sábado (12), batizada Acelera para Cristo.

A hierarquia do Ministério Madureira é rígida nesse sentido, e Cezinha, que carrega o nome da igreja em sua alcunha política, não dá nenhum passo político sem orientação da cúpula pastoral. Hoje quem comanda de fato este ramo da Assembleia de Deus é o bispo Samuel.

Em anos passados, a romaria de políticos até Samuel incluiu João Doria (PSDB-SP), Michel Temer (MDB-SP), Aécio Neves (PSDB-MG) e o antigo aliado Eduardo Cunha (MDB-RJ).

O PT tenta reconstruir pontes com um segmento que lhe tinha simpatia, mas que em 2018 mostrou uma coesão em torno de Bolsonaro que Lula nunca conseguiu.

Estima-se que sete em cada dez eleitores evangélicos tenham votado no atual presidente, patamar que superou a melhor performance do petista neste eleitorado. Em 2006, nas projeções para o segundo turno contra o tucano Geraldo Alckmin, seis em cada dez fiéis apertaram o 13.

Naquela campanha, o candidato à reeleição declarou em evento da igreja de Manoel: "Somos todos crentes e somos todos brasileiros". O bispo retribuiu dizendo que "o poder deve estar na mão daquele a quem realmente Deus e o povo outorgaram".

Os pastores das maiores igrejas evangélicas do Brasil mostraram unidade inédita na eleição que consagrou Bolsonaro. O petista jamais teve respaldo de todos, mas com Manoel, que presidiu a bancada evangélica durante o governo lulista, tinha boa relação.

A fotografia de Manoel e Lula ativou o desconfiômetro, entre pares evangélicos, de que a Assembleia de Deus Madureira poderia estar preparando terreno para uma reaproximação com o PT, sobretudo após o favoritismo detectado por pesquisa Datafolha de seu provável candidato à Presidência.

Até mesmo com eleitores evangélicos, a princípio mais refratários a ele por conta da ascensão das pautas identitárias, Lula empatou com Bolsonaro nas intenções de voto.

Após Garotinho reproduzir a reunião de Lula e Manoel, o deputado Cezinha telefonou para Wladimir Garotinho (PSD-RJ), prefeito de Campos de Goytacazes, e reclamou do post do pai. Ganhou direito a uma correção.

Cezinha afirmou "que o encontro do bispo com Lula foi uma cortesia", escreveu o ex-governador. "A igreja Assembleia de Deus de Madureira segue firme com Bolsonaro. Feito o registro."

"Nós, igrejas evangélicas, estamos com Bolsonaro, ponto", diz à reportagem o líder do bloco evangélico na Câmara. "Nunca houve na história um presidente da República que acorda falando em Deus, termina falando em Deus, que ora no Palácio, ora nas reuniões ministeriais."

A posição do Ministério Madureira é encarada com ambiguidade no grupo. Um parlamentar evangélico descreveu-a assim: um pé em cada canoa. Ou seja, seja quem for o vencedor em 2022, Lula ou Bolsonaro, o canal está aberto.

Além de Cezinha na garupa, há várias imagens de Manoel com o presidente. Numa delas, o bispo primaz sorri enquanto Bolsonaro faz um coraçãozinho com a mão, numa visita à igreja. Em outra imagem, já na pandemia, os dois se abraçam, ambos com máscara no queixo.

Alguns pastores contemporizam, dizendo que Manoel só foi cordial com o petista e que não apita mais nas decisões políticas da congregação. Outros resgatam um vídeo em que o bispo Abner Ferreira, outro filho, apoia Dimas Gadelha, o candidato do PT à Prefeitura de São Gonçalo (RJ). Isso em 2020.

Abner faz parte do cinturão pastoral que orou com Bolsonaro no Planalto em mais de uma ocasião neste ano.

Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, dá voz à má impressão sobre a foto de Manoel.

"Como é que um líder da envergadura dele, que sabe muito bem que o governo Lula foi o mais corrupto da história política do país... Lamento que um líder ainda vá se encontrar com ele", diz à reportagem. "Não sei que Bíblia que ele usa, só posso ficar admirado. Mais nada. Aí não adianta mandar nota, dizer que apoia Bolsonaro. É um negócio muito estranho na minha visão. Encontros secretos que ninguém sabe não me cheiram bem."

Segundo Júnior, o vereador que levou Manoel a Lula, o PT tem buscado outras lideranças evangélicas, como o missionário R.R. Soares e o apóstolo Valdemiro Santiago.

Não é um jogo ganho. Líder da Igreja Mundial do Poder de Deus, Valdemiro foi um dos expoentes da elite pastoral que saiu contrariado com o primeiro discurso que Lula deu após o ministro do STF Edson Fachin abrir alas para sua candidatura no ano que vem, ao anular condenações contra ele.

"Muitas mortes poderiam ter sido evitadas", afirmou o petista sobre as vítimas da pandemia. "E que o papel das igrejas é ajudar para orientar as pessoas, não é vender grão de feijão ou fazer culto cheio de gente sem máscara, dizendo que tem o remédio pra sarar".

"O senhor acabou com sua pretensa campanha. Nem sabe se vai fazer isso, alguém vai te botar de novo na cadeia", rebateu Valdemiro, que no ano passado ofertou num culto sementes de feijão, por até R$ 1.000 cada. Dizia que cultivá-las levaria à cura da Covid-19.

O petista Júnior conta que, além do angu com taioba e frango com quiabo, naquele almoço digeriu-se ainda a relação do governo Dilma Rousseff (PT) com evangélicos.

A então presidente se desgastou com o segmento em diversos momentos. Um material apelidado por conservadores como kit gay, formulado em 2011, gerou o maior atrito.

No sítio de Ceciliano, contudo, lembrou-se também que Dilma cumpriu acordos caros aos evangélicos. Um deles foi o de não apresentar, via executivo, pautas como legalização do casamento homoafetivo e criminalização da homofobia, deixando a agenda a cargo do Congresso.

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