‘Alta crueldade’: inquérito sobre tráfico de armas revela à polícia esquema de tortura de animais silvestres no RS

Investigações da Polícia Civil do Rio Grande do Sul sobre uma quadrilha de tráfico de armas que atua em pelo menos nove municípios gaúchos, comercializando os armamentos pela internet, acabou revelando aos agentes, não só uma rede de abastecimento à caça ilegal de animais silvestres em diferentes regiões, como também um mercado cruel – e pouco usual, mesmo entre estes criminosos – de torturadores de espécies ameaçadas. Fotos e vídeos compartilhados pelos suspeitos em redes sociais surpreenderam até os policiais. Nesta sexta-feira (18), a Operação Arca Especial II, liderada pela delegacia de Nova Santa Rita, prendeu 8 homens em flagrante e apreendeu 17 armas, entre pistolas, fuzis e espingardas.

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– As investigações começaram apurando denúncias sobre estes traficantes de armas. Monitoramos aplicativos de mensagens como o WhatsApp e outras redes sociais, onde eles comercializavam ilegalmente esses armamentos. Nessa apuração, que durou 4 meses, acabou surgindo essa questão ligada à caça ilegal – conta o delegado Mário Souza, à frente da operação. – Nos chamou atenção o perfil diferente de caçador ilegal. São pessoas que mostram alto índice de brutalidade contra esses animais. Em um dos vídeos que obtivemos, um deles brinca de furar o olho de uma capivara com o cano da espingarda. Em um outro, homens atiçam cães raivosos e entregam a eles o filhote de um javali abatido, para que seja estraçalhado.

A reportagem teve acesso a alguns dos vídeos, de conteúdo forte, compartilhados pela quadrilha. Em um deles, os caçadores ilegais utilizam os filhotes de javali para vender "cachorros de caça". A quadrilha, afirmam os investigadores, negociava através de diferentes redes sociais a venda de armas longas, revólveres, carabinas, fuzil, pistolas e munições. Mais de 5 mil cartuchos foram apreendidos.

A operação contou com 143 policiais civis e o apoio de homens da Patrulha Ambiental da Polícia Militar. Diligências foram realizadas nos municípios de Nova Santa Rita, Portão, Igrejinha, Canoas, Guaíba, Gravataí, São José do Sul, Terra de Areia e Três Forquilhas.

Origem das armas é investigada

Os investigadores ainda apuram a origem das armas ilegais. Nenhuma possibilidade é descartada ainda, inclusive a possível participação de pessoas registradas como Colecionadores, Atiradores Esportivos e Caçadores (CACs), que podem estar facilitando a obtenção dos armamentos por parte dos criminosos.

– É algo que vem acontecendo, de CACs comprarem e repassarem armas. Mas ainda não temos isso externado nos autos. Por enquanto, a principal suspeita é do tráfico tradicional de armas: vamos apurar se foram desviadas de algum lugar ou mesmo se chegaram através das fronteiras – concluiu o delegado.