Alta do dólar não influencia expectativa de inflação, afirma presidente do BC

Renata Vieira

BRASÍLIA - Ao ser questionado sobre a desvalorização do real frente ao dólar, durante audiência da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou que a frustração com o leilão do excedente da cessão onerosa teve influência no câmbio, contribuindo para a alta da moeda americana.

Nesta terça-feira, o dólar voltou a subir frente ao real, ultrapassando a marca dos R$ 4,20 - e próximo a um novo recorde histórico. Nas casas de câmbio do Rio, o dólar turismo está sendo vendido a até R$ 4,44.

Campos Neto, no entanto, atribuiu com tranquilidade parte do movimento recente da moeda à quebra de expectativas com o megaleilão do petróleo no Brasil, e afirmou que não há mudanças quanto à política cambial. O governo pretendia arrecadar R$ 106,5 bilhões com o leilão do pré-sal, realizado no início do mês, mas o arremate chegou a R$ 69,9 bilhões.

- O movimento mais recente que ocorreu foi por conta da cessão onerosa, que alguns agentes do mercado esperavam uma entrada maior do que a que ocorreu. Então, como a entrada de recursos foi menor do que a esperada, e muitos agentes de mercado se posicionaram para capturar esse dólar caindo, você tem agora uma volta (da alta do dólar) - afirmou.

Na segunda-feira, ao ser questionado sobre a alta do dólar, o presidente Jair Bolsonaro sugeriu que jornalistas falassem com o presidente do Banco Central, e perguntou se eles queriam o telefone de Roberto Campos Neto.O presidente da autoridade monetária ponderou que, além desse, outros fatores vem influenciando o câmbio. Ele voltou a mencionar as empresas que estão optando pelo endividamento dentro do país, em detrimento do endividamento em dólar, a exemplo da Petrobras, e destacou ainda o caso de exportadores que têm demorado a repatriar receitas externas.

A despeito da alta histórica do dólar, registrada na segunda-feira, Campos Neto enfatizou que a percepção de risco acerca da economia brasileira vem melhorando, sem impactar a expectativa de inflação.- Essa desvalorização do câmbio, ao contrário do que acontecia no passado, veio acompanhada de melhora de percepção de risco. Você teve uma desvalorização que não influenciou a expectativa de inflação. As inflações esperadas futuras caíram - afirmou.

Expectativa quanto ao PIB

Na apresentação a senadores, Campos Neto também explicou que a expectativa de crescimento da economia brasileira estaria na faixa de 1,6% não fossem os choques sofridos este ano - principalmente a guerra comercial entre Estados Unidos e China, o desastre de Brumadinho, que atingiu em cheio os resultados do setor minerador no país, e a crise na Argentina, um dos principais parceiros comerciais do Brasil.

PIB: Projeção de economistas para crescimento em 2020 sobe a 2,17%Hoje, explicou, a projeção de expansão do BC para a economia brasileira em 2019 é de 0,9%, e os choques custaram ao Brasil um crescimento de 0,67%: 0,30% se devem às tensões comerciais, 0,20% à Brumadinho e 0,18% à crise da vizinha Argentina.

Infraestrutura

Campos Neto também afirmou que o BC já enviou à Receita Federal um projeto que visa a facilitar o investimento em infraestrutura no país no longo prazo. O objetivo é que os investidores sofram menos o impacto da oscilação cambial nesse ínterim, e isso torne esse tipo de investimento mais atrativo aos estrangeiros - o chamado hedge cambial.

Viu isso?Leilões de infraestrutura já contam R$ 22,4 bi em investimentosO hedge cambial é um tipo de operação financeira que protege investimentos no exterior, comumente usada por quem importa e exporta produtos.

Campos Neto explica que, no caso de investimentos em infraestrutura, que duram cerca de dez anos, por exemplo, o imposto que se paga pela desvalorização da moeda não é compensado pelo que se ganha com a valorização da moeda.- Basicamente, o que acontece hoje é que se uma empresa faz um investimento longo em infraestrutura, a tributação sobre esse hedge, sobre essa proteção de moeda, ela é muito perversa. O que a gente fez é um projeto de hedge cambial que a longo prazo os ganhos e perdas se compensem, para que você (investidor) não pague imposto se de fato não teve ganho no hedge - disse.