Alta da Covid causa corrida por vacinas, mas máscaras não decolam

Com 80% da população vacinada com duas doses contra Covid-19 e metade com, ao menos, a primeira dose de reforço, o Brasil tem conseguido enfrentar a continuidade da pandemia com menos sobressaltos do que em 2021. A chegada de uma nova subvariante do vírus, entretanto, gerou um corre-corre atrás de vacinas nas últimas semanas. Mas essa preocupação não se refletiu no aumento do uso de máscaras, elemento fundamental para a proteção.

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Para se ter uma ideia do aumento na procura por imunização contra a Covid-19, a Secretaria de Saúde do Estado São Paulo registrou um salto de 81% na busca por vacinas, quando se comparam os dados de novembro com os de outubro deste ano. Na cidade do Rio, o aumento foi de 24% entre as duas últimas semanas de novembro.

Outros estados e capitais também aferiram crescimento na procura. No Acre, a secretaria de Saúde avalia um aumento de 10% na busca por doses, em todas as faixas etárias. No Rio Grande do Norte, a alta foi de 370%, considerando a média semanal da segunda quinzena de novembro, em comparação com a primeira.

Em Salvador, o número de vacinados no último dia de novembro foi quase nove vezes maior do que no dia 31 de outubro. Em Recife, o aumento na ida aos postos entre a primeira e segunda quinzena de novembro foi de 400%. Embora a busca por doses seja positiva, explicam os especialistas, a corrida por vacina neste momento escancara, mais uma vez, a falta de coordenação nacional para o controle da pandemia — que totaliza aproximadamente 690 mil mortes no país.

— A ausência de uma comunicação de risco adequada por uma liderança nacional faz com que a percepção de risco das pessoas seja reativa ao que chamamos de “novas ondas”. Só que o melhor momento para se vacinar é quando há um baixo número de casos, quando o vírus circula em menor intensidade. Assim, quando ocorre o acréscimo de casos, a população está protegida contra quadros graves e mortes — diz Nésio Fernandes, Secretário de Saúde do Espírito Santo e presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass).

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Máscaras em baixa

Se as vacinas encontraram maior adesão num período de alta de diagnósticos— as médias móveis de novos diagnósticos aumentaram quase cinco vezes entre o primeiro e o último dia de novembro — o mesmo não dá para dizer das máscaras. Médicos alertam que o uso do artigo de proteção só ganhará tração se as secretarias estaduais de saúde e o governo federal fizerem uma defesa mais enfática da necessidade de retorno da proteção.

— Os estados têm alto desgaste. É muito difícil um governador retomar obrigatoriedade de máscaras depois de uma briga tão grande entre os governos estaduais e federais. As regiões já observam aumento de internações, começam a aparecer pressões para o uso de leitos. Mesmo assim, não há mais condições políticas, diante da péssima polarização que vivemos, para instituir máscaras em locais fechados, que deveriam, sim, ocorrer — afirma a epidemiologista Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo.

A especialista diz que restrições parciais, como a exigência de máscaras em aeronaves, não são suficientes.

— A Anvisa foi a única que se movimentou para pedir o uso de máscaras em aviões, mas precisamos mesmo de uma coordenação nacional.

O médico infectologista Renato Kfouri, presidente do departamento de imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria, diz que para que a população aceite as máscaras é preciso comunicar com mais clareza a razão de seu uso, mais do que criar a obrigação legal.

— Antes as pessoas iam trabalhar gripadas, tossindo, e infectavam as outras. Agora é hora de mudarmos isso, reforçar um legado deixado pela pandemia. As pessoas precisam entender que, em caso de sintomas, ou em ambientes de risco, utilizar máscaras é uma atitude cidadã, de cuidado com o próximo. Os asiáticos fazem isso há anos, a ideia desse uso é justamente proteger quem está ao seu lado — diz o médico. — Precisamos estimular essa compreensão, ela trará mais adesão ao uso.

Resposta estadual

Apesar da resistência da população, alguns estados começaram timidamente a sugerir a retomada do acessório nas últimas semanas. A Bahia, por exemplo, anunciou um decreto na semana passada que obriga o uso do item no transporte público, em salões de beleza, bares, restaurantes e outros locais. No estado de São Paulo, a obrigatoriedade recaiu mais uma vez sobre os ônibus e o metrô.

— O Centro de Contingência retomou o uso de máscaras no transporte público. É mais difícil tomar essa medida em transição (de gestão de governo), mas mesmo assim colocamos — diz David Uip, secretário de Secretaria Extraordinária de Ciência, Pesquisa e Desenvolvimento em Saúde de São Paulo.