Alta de juros traz ‘volta à racionalidade econômica’, diz gestor brasileiro com apostas que vão da SpaceX a imóveis na Flórida

Enquanto a escalada dos juros “amassa” Bolsas e fundos mundo afora, Emmanuel Hermann enxerga no movimento um bem-vindo retorno do “business as usual”. O brasileiro é fundador da Leste, plataforma de investimento em ativos alternativos com quase US$ 2 bilhões sob gestão e cuja carteira abrange de um naco da SpaceX a imóveis em Miami.

— Estamos passando por uma correção depois da pandemia. Não é um processo disruptivo, é o ajuste a uma nova realidade, uma volta à normalidade. As coisas estão voltando a uma racionalidade econômica. Passamos por uma fase de investimento muito especulativo, que muitas vezes não estava lastreado em geração de valor, mas em teses comportamentais — diz Hermann, que falou à coluna do escritório da Leste em Miami ao lado do sócio Stephan de Sabrit.

Cancelada: Brasileiros iriam investir quase R$ 2 bilhões na compra do Twitter por Musk

Exterior: Leste, de Emmanuel Hermann, traz fundo exclusivamente europeu para o investidor brasileiro

Ele cita o caso dos SPACs — as chamadas “empresas do cheque em branco” —, que, na sua opinião, muitas vezes compravam empresas que ainda não haviam atingido estágio de maturação adequado.

— É claro que a freada tem um impacto, o mundo inteiro vai ter que passar por uma pequena recessão, mas não vejo um risco sistêmico, como em 2008 — afirma o gestor, que antes foi sócio do BTG Pactual.

Colecionadores de cripto

Uma classe de ativos que vinha sendo inflada pelo período de taxas de juros inusualmente baixas é a das criptomoedas:

— Embora eu veja projetos interessantes, não acho que o bitcoin seja necessariamente uma reserva de valor. O problema era que havia um contexto que fazia com que as pessoas se tornassem colecionadoras de criptomoedas. Isso casa com minha percepção de que tinha gente ganhando dinheiro em cima de teses, não de geração de valor. Por isso não tenho no meu radar o plano para uma estrutura cripto “long only” (aposta na valorização).

A gestora chegou a avaliar a criação de um fundo de “mineração” de criptomoedas, mas desistiu diante da elevação dos juros.

O patrimônio sob gestão na Leste dobrou em 2021, para US$ 1,2 bilhão, e fechou o primeiro semestre deste ano com US$ 1,8 bilhão. A carteira contempla de fundos líquidos, mais tradicionais, a venture capital (investimento em startups). Segundo Hermann, a guinada dos juros tem despertado interesse por ativos de crédito privado, um dos filões explorados pela gestora:

— Os investidores querem estar do lado ativo do incremento das taxas de juros. Na época que começamos com isso, achavam que a gente era maluco, embora seja algo comum nos principais mercados do mundo.

‘Gestão da mediocridade’

Plataforma com vocação internacional, a Leste mantém cerca de 20% do seu patrimônio alocados no Brasil. (Os brasileiros são pouco mais de metade dos seus investidores, porém). Mas Hermann admite que a conjuntura brasileira torna as oportunidades locais mais escassas:

— No Brasil, cada vez que há um novo ciclo, todo mundo vai para a mesma direção, o que diminui o spread (ganho possível). É perverso brincar com a poupança das famílias de maneira tão volátil. A oportunidade que a gente vê é oferecer alternativas para exposição a outros mercados, sobretudo o americano, o que pode estabilizar parte da carteira do investidor brasileiro.

Uma das “vítimas” da rápida elevação dos juros no Brasil foi a rede de academias Bluefit, controlada pela Leste e que teve que engavetar seu IPO diante do cenário adverso para Bolsa. Com a inflação comprometendo o bolso dos consumidores, o ritmo de crescimento da rede também caiu à metade, admite Hermann.

— Continuamos achando que saúde para a população de baixa e média renda é o que dá pra fazer no Brasil, mas mesmo assim a gente sente. Continuamos fazendo gestão na fronteira da eficiência e vamos buscar uma nova janela para vir a mercado. Mas é uma pena. Temos 300 mil alunos, número que poderíamos estar dobrando neste momento (com o IPO) — observa.

Segundo Hermann, o cenário eleitoral contribui para dificultar a visualização de cenários de médio e longo prazo para o Brasil:

— Ao mesmo tempo em que está claro que o Brasil não vai acabar, a geração de valor será pequena. A gente vive uma gestão da mediocridade.

Foco em cidades pujantes

Mesmo assim, a Leste está posicionada em ativos alternativos brasileiros, como nos Fiagros, uma nova categoria de fundos exclusivamente voltada à cadeia do agronegócio.

Nos EUA, a principal aposta é em ativos imobiliários. O plano é comprar ou desenvolver empreendimentos em regiões com mercado de trabalho resiliente, como Charlotte, cidade da Carolina do Norte que abriga as sedes de companhias como Bank of America e a gigante do material de construção Lowe’s.

De acordo com Hermann, a estratégia proporciona brechas para contornar o obstáculo dos juros altos:

— A gente tenta comprar ativos fora dos padrões normais, depreciados, adicionar valor e vendê-los. Os EUA estão passando por um vento contra, com uma inflação de ativos que precisa ser corrigida por meio dos juros, mas existem regiões que continuam com um mercado super aquecido, como a de Miami.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos