Setor funerário vê risco de colapso: "Uma cidade média do Brasil que desaparece por mês"

Rafael Garcia
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Familares se despedem de ente morto por Covid-19 em Brasília - Foto: AP Photo/Eraldo Peres
Familares se despedem de ente morto por Covid-19 em Brasília - Foto: AP Photo/Eraldo Peres
  • Brasil já quebrou a marca de 3 mil óbitos diários pela doença nesta semana

  • Segundo representante do setor, 500 mil óbitos estão previstos no país para o trimestre

  • Associação pediu suspensão de férias de agentes funerários e aumento na fabricação de urnas

Ao bater a sombria marca de 300 mil mortos pela Covid-19, os enterros no país são acelerados, e a ausência de velórios impõe às famílias um ritual de sepultamento solitário e rápido. O Extra acompanhou cinco enterros de vítimas da Covid-19 no Cemitério do Caju, na última sexta-feira. O mais longo levou 12 minutos. O mais rápido, quatro. Num deles, a neta, de 24 anos, enterrava sozinha o avô, de 78, depois de a mãe ter a suspeita de Covid confirmada.

O cenário visto no Caju se repete por todo país. Para o presidente da Associação de Empresas e Diretores do Setor Funerário (Abredif), Lourival Panhozzi, o Brasil vive período de descarte de corpos, e não sepultamento de pessoas.

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— O que estamos fazendo hoje é indigno, com enterros em poucos minutos. Esses corpos merecem respeito — diz Panhozzi, que não descarta colapso funerário no Brasil: — Seria prepotência dizer que não existe risco de faltar urna funerária. Estamos com 500 mil óbitos previstos no trimestre, ou 5.555 óbitos por dia. A média normal era de 3.575. É uma cidade média do Brasil que desaparece por mês.

A Abredif fez uma chamada aos cemitérios para que suspendam férias de agentes funerários e solicitou a fabricantes de urnas que trabalhem em sua capacidade máxima.

Despedidas têm sido distantes e breves

Perigo de contágio muda até forma de familiares enterrarem seus entes - Foto: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP via Getty Images
Perigo de contágio muda até forma de familiares enterrarem seus entes - Foto: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP via Getty Images

Bruna Silva deixou o marido no hospital na primeira semana de março. Foi quando viu Bruno Silva, de 38 anos, pela última vez. A suspeita de Covid-19 se confirmou, e o analista de dados foi internado no mesmo momento em que chegou à emergência do Hospital Balbino, em Olaria, na Zona Norte do Rio. Vinte e um dias depois, ela seguia o caixão lacrado com o corpo do marido no Cemitério do Caju.

— Pode abrir um pouquinho para eu ver meu marido pela última vez? — pediu Bruna ao agente funerário. A resposta foi não.

Em menos de cinco minutos, o caixão deixou o carro da casa funerária e foi sepultado, cercado por cinco familiares. O filho de 8 anos não estava entre eles — a mãe decidiu poupar a criança.

— Está aqui mais uma vítima do desgoverno — dizia, entre lágrimas, a tia de Bruno, Claudia dos Santos Silva.

Segundo a Prefeitura do Rio, o protocolo exige que as urnas sejam lacradas e que não ocorram cerimônias fúnebres. De 1º de março até o último dia 21, foram realizados (não apenas de vítimas de Covid) 4.644 sepultamentos na cidade, um aumento de 33% com relação ao mesmo período do ano passado. Professora de psiquiatria da Unicamp, Clarissa de Rosalmeida Dantas trabalha no serviço de Apoio Emocional aos Pacientes com Covid-19 e seus Familiares, criado no Hospital das Clínicas da Universidade de Campinas (SP). Para ela, a experiência do luto sofreu ruptura:

— Os rituais funerários ajudam a assimilar a passagem. A falta do velório e da possibilidade de ver o corpo dá ao luto um sentimento enorme de irrealidade.

Fantasia sobre troca de corpos

Ela lembra que muitos dos atendidos no HC da Unicamp criavam “fantasias acerca da troca de corpos, ou mesmo a ideia de que a morte de seu ente querido havia sido erroneamente comunicada, algo acentuado pelo cenário político de negação da pandemia”. Há, segundo ela, algo semelhante ao que foi experimentado pelos familiares dos desaparecidos políticos durante a ditadura militar.

— O desaparecido torna-se uma figura envolta por penumbra, não está morto, tampouco está vivo. Está presente e ausente. É como se fosse negada à família a certeza da morte. A última despedida, a última homenagem, a reunião em torno do corpo pela última vez, tudo isso dá materialidade à morte. É possível criar outros rituais, uma forma de compartilhar memórias da pessoa que morreu, por exemplo.