Aluguel em tempos de pandemia: jovens negros sentem a crise financeira

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As vulnerabilidades sociais aprofundadas pela pandemia gerou mais dificuldades para a parcela da mais jovem população negra, que sonhava com a independência financeira e se vê sem perspectivas para pagar aluguel
As vulnerabilidades sociais aprofundadas pela pandemia gerou mais dificuldades para a parcela da mais jovem da população negra, que sonhava com a independência financeira e se vê sem perspectivas para pagar aluguel

Texto: Victor Lacerda I Edição: Lenne Ferreira I Imagem: Agência Brasil

A pandemia pela COVID-19 escancarou diversas desigualdades raciais e sociais nos mais variados âmbitos no país e ampliou discussões sobre como o sistema político e econômico não prioriza as necessidades de quem, tradicionalmente, vive em situação de vulnerabilidade. Isso não foi diferente para a juventude negra e de periferia. Nos primeiros passos para a construção de uma vida adulta, o sonho da moradia independente decaiu de juntar capital para a casa própria, algo já distante para a maioria, e passou a adaptar a planilha de gastos mensais para, se possível, viver de aluguel.

O direito à moradia para esta população já é, historicamente, renegado ou uma conquista realizada sob dificuldade e perpassa gerações. O desejo de conquistar independência e uma casa própria está diretamente relacionado com estabilidade financeira. Portanto, ter uma casa é sinônimo de ter um emprego. Segundo o dossiê “Um olhar sobre a juventude e periferia em tempos de CoronaChoque”, apresentado em outubro de 2020, revelou que o, no primeiro trimestre de 2020, cerca de 27,1% dos jovens entre 18 a 24 anos ficaram desempregados, tornando-se uma crescente pelos efeitos seguidos da crise sanitária.

O estudo, realizado pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, ainda revelou que o recorde de falta de oportunidades no mercado de trabalho foi protagonizado pela região Nordeste, que totalizou 34,1%. O estudo ainda revelou a crescente inserção de jovens negros em empregos informais, afirmando que, funcionários de aplicativos, que trabalham com suas motocicletas ou, muitas vezes, em bicicletas alugadas, são em grande parte das periferias.

No Recife, o graduando em administração Jefferson Aguiar, de 25 anos, conta em conversa com a Alma Preta Jornalismo que, após 1 ano sem morar na casa dos pais, na comunidade da Guabiraba, na Zona Norte do Recife, teve que recalcular a rota do seu desenvolvimento pessoal e profissional por conta da pandemia. Com tempo de 1 mês empregado em uma concessionária da capital, a empresa em que trabalhava suspendeu o contrato de 80% dos funcionários no início da pandemia, durante lockdown.

“Morava com meu ex-companheiro na época e com mais duas pessoas e, depois do anúncio, a empresa já foi informando que não ia ter previsão de retorno das funções rapidamente, o que me desestabilizou. Um dos primeiros demitidos, ainda consegui passar um tempo me virando com o pessoal, mas, após um término, vi que não tinha condições de morar sozinho. Foi quando decidi voltar à casa do meu pai”, conta Jefferson.

O jovem relata que, vivendo no bairro da Boa Vista, no centro do Recife - o que o ajudava sobre oportunidades de trabalho e locomoção - pagava mensalmente um aluguel de R$1.100,00 em um apartamento simples e funcional, valor referente ao atual salário mínimo. A volta para a periferia o fez refletir sobre diminuir os custos para garantir outras necessidades, como a comida na mesa, e ajudar, em tempos de pandemia, os seus pais.

“A gente vem de uma realidade de periferia que é praticamente impossível suprir uma casa com muitas pessoas. O dinheiro é contado para atender a todos. Ou tem aquele valor no mês para ter o básico ou é uma bola de neve de despesas, descompleta tudo. Vi isso com possibilidade de acontecer quando me vi desempregado e com aluguel para pagar todo mês”, relata.

Questionado sobre os passos que já havia dado após sair de casa e o sonho de construir uma vida adulta diante de menos vulnerabilidades, o jovem afirma que a situação o levou ao descontentamento e pensamentos de que não poderia alcançar seus objetivos.

“Fiquei totalmente frustrado. Além de voltar para a casa dos meus pais, o que não pensava na época por estar empregado, também tive que trancar meu curso de administração prestes a me formar, o que me deixou ainda mais sem perspectiva. Para quem é da periferia, é ver os caminhos se fechando para o sonho. É difícil para gente, então precisa ter muita coragem e força de vontade para meter a cara. Fiquei pensando como faria depois disso”, finaliza.

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A situação de Jefferson se assemelha ao da assistente de compras e produtora cultural Ane Dilei, 26, que foi despedida em setembro de uma empresa de delivery do Rio de Janeiro e veio tentar novas oportunidades no Recife, em fevereiro. No intervalo de tempo, entre a demissão e a tentativa de novas oportunidades em outra região, Ane passou os meses vivendo com o pai, na Baixada Fluminense.

“Considerando as opções, eu precisei também abandonar o aluguel e voltar para casa do meu pai. Normalmente, a segurança de conseguir um novo contrato trabalhista já é difícil para nós, mas dentro das condições atuais tem parecido uma fé completamente cega, o que dificulta os planos de uma moradia independente”, conta.

Compartilhar espaços é alternativa para jovens de baixa renda

Mirando em uma nova vida, longe dos centros urbanos do sudeste, Dilei foi convidada para dividir um apartamento com um amigo no Recife, mas segue desempregada desde que chegou. No segundo semestre de 2021, a jovem se vê sem perspectiva não só da independência financeira e de viver no seu próprio lar, mas de garantir o básico no dia a dia.

“Sendo uma pessoa que saiu do sudeste por já conhecer as impossibilidades do mercado do trabalho formal lá, vindo pro Nordeste e tendo um panorama daqui, fico com uma sensação de beco sem saída. Me pergunto, onde nesse país estão as possibilidades de trabalho remunerado para nós que atenda as necessidades básicas como o direito à moradia de qualidade?”, finaliza.

A Síntese de Indicadores Sociais, encomendada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2020, pode responder o questionamento feito pela jovem. Em dados apresentados em menos de um ano, 45,2 milhões de pessoas residiam no ano passado em 14,2 milhões de domicílios com algum tipo de inadequação. De toda a população analisada, 13,5 milhões eram de cor branca e 31,3 milhões eram pretos ou pardos. Um problema estrutural e de difícil perspectiva de melhora para a população negra como um todo.

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