Aluguel 'ilegal' de jatos e saída de casa solitária, o que se sabe da fuga de Carlos Ghosn

O Aeroporto Internacional de Kansai foi construído sobre uma ilha artificial na Baía de Osaka

TÓQUIO, BEIRUTE e ISTAMBUL — Passados alguns dias da fuga espetacular de Carlos Ghosn do Japão para o Líbano, alguns mistérios começam a ser desvendados. Segundo a emissora estatal japonesa NHK, câmeras de segurança instaladas para vigiar a movimentação no apartamento em que o ex-titã da indústria automobilística vivia, em Tóquio, flagraram sua saída, sozinho, por volta do meio-dia de domingo, pelo horário local. Nada de caixas de instrumentos musicais, como chegou a ser especulado, tampouco a companhia de policiais e promotores, como esperado.

De Tóquio, Ghosn percorreu uma distância de pouco mais de 500 quilômetros, até o Aeroporto Internacional de Kansai, uma estrutura moderna erguida sobre uma ilha artificial no meio da Baía de Osaka, entre os municípios de Izumisano, Sennan e Tajiri. Por lá, ainda existem dúvidas de como o conhecido executivo, que era tratado como celebridade no Japão, conseguiu passar despercebido pela segurança.

O embarque e desembarque de jatos privados é realizado num portão chamado Premium Gate Tamayura, no Terminal 2 do aeroporto. A área de 300 metros quadrados oferece um lounge exclusivo para passgeiros VIP, a custo de 200 mil ienes, o equivalente a R$ 7,5 mil. Mas o tratamento especial não dispensa a alfândega, a imigração e os procedimentos de segurança, comuns a todos os viajantes. Além da checagem de documentos, as bagagens são checadas com raios-X e contêineres maiores são checados manualmente.

Existe, porém, a isenção de inspeção sobre bagagens de agentes diplomáticos, conforme a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas. Porém, ainda não se sabe se Ghosn usou deste artifício para passar pela segurança. O que se sabe é que não há registros de seu embarque, mas as investigações devem revelar, em breve, os passageiros que se registraram para o embarque para Istambul, na Turquia.

— Eu acho que reconheceria Ghosn se olhasse bem para o seu rosto, mas a gente não olha realmente para as pessoas — afirmou um guarda de segurança no Premium Gate Tamayura, à agência Reuters. — E seria mais difícil identificá-lo se ele estivesse vestindo um disfarce ou em grupo.

De alguma forma, Ghosn conseguiu embarcar no Bombardier Global Express, registrado como TC-TSR, de propriedade da empresa turca MNG Jet. A aeronave decolou do Japão às 23h10 do dia 29 de dezembro, num voo de 12h05 que pousou às 05h15 do dia 30, no aeroporto Ataturk, na Turquia. Menos de uma hora depois, às 06h02, Ghosn deixou a Turquia rumo ao seu destino final, Beirute, no Líbano, num Bombardier Challenger 300, registro TC-RZA, também da MNG Jet.

Nesta sexta-feira, a empresa se manifestou publicamente, informando o registro de queixa-crime sobre “o uso ilegal de seus serviços de charter relacionados com a fuga de Carlos Ghosn do Japão”. Um dia antes, autoridades turcas prenderam sete pessoas, incluindo quatro pilotos. De acordo com o comunicado da MNG Jet, a empresa recebeu em dezembro o pedido de dois jatos privados, para dois clientes diferentes.

O primeiro deles, para uma viagem de Dubai para Osaka e de Osaka para Istambul. O outro, de Istambul para Beirute. “Os dois alugueis pareciam não conectados um com o outro”. A empresa acrescenta ainda que “o nome do senhor Ghosn não aparecia na documentação oficial de nenhum dos voos”. Após o noticiário, foi realizada uma investigação interna, e a queixa-crime foi apresentada no dia 1º de janeiro, para processar os envolvidos.

“Um empregado da companhia, que está sob investigação das autoridades, admitiu ter falsificado os registros”, diz a MNG Jet. “Ele confirmou ter agido em sua capacidade individual, sem o conhecimento ou a autorização do gerenciamento da MNG Jet“.

Pelo acordo fechado com a Justiça japonesa para a liberdade condicional, Ghosn concordou em entregar todos os seus passaportes — brasileiro, libanês e dois franceses — a seus advogados. Em maio, porém, o acordo foi revisto. Para não violar outra legislação que obriga estrangeiros a portarem identificação, um dos passaportes franceses foi devolvido a Ghosn, para ser mantido numa espécie de estojo transparente lacrado, com o código de abertura em posse de seus advogados.

No desembarque em Beirute, segundo autoridades libanesas, Ghosn apresentou um passaporte francês e seu documento de identidade libanês.

A fuga foi concluída, mas a história está longe do fim. Na semana que vem, no dia 8, Ghosn irá participar de uma entrevista coletiva, para apresentar sua versão versão dos fatos. Envergonhada, a Justiça japonesa emitiu uma ordem de prisão para a Interpol, que já foi entregue às autoridades libanesas. Como determina o protocolo, Ghosn será convocado para depor, informaram fontes à agência AFP.

— A justiça libanesa é obrigada a ouvi-lo — disse a fonte. — Mas pode decidir se quer detê-lo ou deixá-lo livre.