Aluna de Medicina da USP se desculpa por perda de R$ 1 milhão da formatura: 'Escrevo para dizer que não temos mais dinheiro'

“Escrevo para dizer que não temos dinheiro. Com toda dor, culpa e arrependimento que vocês podem imaginar. (...) Nosso dinheiro foi todo repassado para a Sentinel Bank, uma investidora que, no fim das contas, não se passava de um grande golpe e nunca mais retornou nem com o dinheiro investido, nem com os rendimentos”, escreveu Alicia Dudy Muller, de 25 anos, estudante de Medicina da USP, na mensagem em que se desculpou com os amigos pela perda de quase R$ 1 milhão da festa de formatura. "Eu não tinha experiência em investir, então eu fiz o que parecia o óbvio e seguro na época, que era procurar uma investidora". Procurada, a financeira não se pronunciou.

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Na terça-feira da semana passada, estudantes da turma 106A de Medicina da universidade foram à polícia denunciar Alicia pelo desvio de recursos do fundo criado para a realização da festa. Agora, os investigadores apuram se o dinheiro foi usado em apostas milionárias feitas por Alicia em uma casa lotérica que a acusa de ter dado um golpe com repasses falsos de Pix, em outro inquérito, de julho do ano passado.

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No relato, a estudante acrescentou que, em setembro de 2021, alertou a comissão sobre uma suposta falha no pagamento da empresa que estava responsável por gerir a festa,, a Ás Formatura. A empesa nega a acusação e afirma que “não se comprometeu com a realização ou produção de qualquer evento”. “A responsabilidade da Ás no contrato limitava-se a arrecadar os valores dos formandos e transferir para a turma, além da realização da cobertura fotográfica”, informou a empresa. A Ás ressaltou que “todas as transferências foram realizadas rigorosamente conforme estabelecido nas cláusulas contratuais” e está à disposição da Justiça para “fornecimento de contratos, documentos, e-mails e demais informações”.

A versão dos colegas do curso de Medicina é de que havia uma comissão responsável pela formatura, da qual Alicia era presidente, que só tomou conhecimento da fraude no dia 6, através de mensagem de WhatsApp da jovem. Nessa mensagem, ela confessaria transferências dos valores para uma conta pessoal. A jovem alegava ter perdido cerca de R$ 800 mil investindo em um esquema fraudulento da corretora Sentinel Bank. O restante, ela admitiu ter usado na contratação de advogados para tentar reaver o dinheiro perdido. O montante de cerca de R$ 927 mil foi arrecadado durante quatro anos pela empresa Ás Formaturas.

Além de responder por apropriação indébita, Alicia é investigada por aplicar um golpe em uma casa lotérica na Vila Mariana, na Zona Oeste paulistana, que pode estar ligado ao desvio do dinheiro coletado para a formatura. Ao jornal O Estado de S. Paulo, a delegada Katia Regina Cristófaro Martins afirmou que Alicia conseguiu faturar R$ 326 mil em premiações da Lotofácil, após fazer apostas milionárias, usando o dinheiro economizado pelos colegas.

Mas ao tentar fazer uma última aposta, ela tentou simular um pagamento por meio do Pix para confundir os funcionários da lotérica, que a denunciaram à Delegacia Especializada em Investigações Criminais de São Benardo, comandada por Kátia.

— Solicitamos informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e vimos que ela havia recebido vários prêmios, mas, como eram valores de origem lícita, isso não dizia muita coisa — afirmou Katia ao Estadão.

Segundo a Secretaria de Segurança de São Paulo, a suspeita é de que Alicia teria deixado um prejuízo de R$ 192.908,47, “após ter feito o agendamento do valor via Pix, sem pagar efetivamente pelas apostas que realizou”. A estudante teria pedido R$ 891,5 mil em apostas. Ao ser questionada pela gerente da lotérica sobre o pagamento, Alicia respondeu que havia sido realizado um agendamento para a quitação do valor. Mas a estudante teria feito uma transferência muito inferior, de R$ 891,53, na tentativa de confundir os funcionários da lotérica. Mesmo assim, após uma breve discussão, a suspeita conseguiu sair da lotérica com cinco apostas de R$ 38,7 mil cada, totalizando R$ 193,8 mil.

Segundo o depoimento de um representante da lotérica no inquérito, as apostas de Alicia superaram o valor de R$ 461 mil. O caso é investigado como estelionato e lavagem de dinheiro. No entanto, a revelação do desvio de quase R$ 1 milhão fará com que a Deic de São Bernardo procure os estudantes da turma da formatura e a Ás para novos depoimentos e tentar relacionar os dois casos.

“Que horror, não”

Ao GLOBO, Cristina Muller, mãe de Alícia, disse ontem que a filha prestará, em breve, esclarecimentos à polícia. A jovem está reclusa, afirmou, e já foi chamada para depor. Cristina negou que a estudante tenha usado o dinheiro para viajar aos Estados Unidos e fazer um implante de silicone, acusações feitas nas redes sociais.

— Que horror, não — negou Cristina, mostrando-se surpresa com as acusações.

A mãe disse que está triste e abalada com a situação, e a filha contou a ela o mesmo relato de ter sido vítima de fraude que alegou aos colegas. Cristina acrescentou que Alicia ainda quer concluir o curso de Medicina. Cristina afirmou também desconhecer a investigação sobre a filha instaurada desde o ano passado.

A Faculdade de Medicina da USP informou que foi avisada sobre o golpe e “os fatos estão sendo apurados, buscando-se identificar os responsáveis pela fraude, e a diretoria está apoiando na orientação aos alunos envolvidos”. Questionada sobre a permanência de Alicia no curso, a instituição respondeu que ela não foi expulsa e o episódio é analisado pela reitoria. A universidade ressaltou ainda que nenhum outro caso semelhante ocorreu no local.

A comissão de formatura da turma divulgou uma nota em que defende que “a atitude isolada (de Alicia) não representa moral e eticamente a postura dos demais membros desta comissão e os mais de 110 alunos aderidos vítimas dessa conduta”.

— Nós já emitimos nota e demos as declarações que entendemos pertinentes ao assunto. Agora precisamos focar em buscar soluções para esse problema e na nossa própria formação acadêmica, de maneira que achamos que mais exposição apenas nos desvia desses objetivos — disse uma aluna da turma que faz parte da comissão e pediu para não ser identificada.