Aluno usa suástica nazista em protesto anti-vacina durante aula virtual no Mackenzie

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Após reprovação de TCC sobre racismo, estudante acusa universidade de racismo institucional. Foto: Reprodução/Mackenzie
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  • Alunos organizaram abaixo-assinado

  • Universidade afirma que está apurando o caso

  • Aluno afirma que protestava contra obrigatoriedade de servidores públicos se vacinarem

Na noite da última quarta-feira (15), durante uma aula virtual da turma do 10º semestre de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, um aluno entrou na sala de Google Meet com a imagem de uma suástica nazista como foto de perfil. O caso causou revolta entre os alunos e viralizou nas redes sociais.

O estudante em questão estava identificado apenas como Rafael. A imagem de perfil era uma suástica formada por quatro seringas para aplicação de vacinas. Ao se justificar, ele afirmou que estava fazendo um protesto contra a obrigatoriedade da vacinação.

Foto: Reprodução/Redes Sociais
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A estudante Gabriela Pepe Romano, de 27 anos, estava na aula de Laboratório de Direito Público e contou ao Yahoo Notícias como ocorreu o caso.

“A aula estava transcorrendo de forma totalmente normal. Era uma aula sobre algo de pandemia, inclusive. Um dos nossos colegas, que a família dele é judia, viu [a imagem da suástica]”, relata. “Aí a atenção de todo mundo foi para essa situação”.

A turma, segundo ela, pensou que se tratava de uma invasão de sala, algo que tem sido comum em reuniões virtuais durante a pandemia de covid-19.

“No começo a gente pensou que se tratava de uma invasão. O professor ficou visivelmente incomodado, sem saber como reagir”, afirma. “Aí a pessoa se identificou e disse que era aluno”.

Frente à situação, o professor tentou explicar porque o símbolo não poderia ser usado. “O professor ficou claramente chocado e tentou explicar porque a suástica é um símbolo controverso, algo que não deve ser vulgarizado”, afirmou Gabriela.

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Não apenas controverso, o uso da suástica é crime. De acordo com a lei 7.716/1989, é proibido “fabricar, comercializar, distribuir ou veicular, símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo”. A pena para a infração é de dois a cinco anos e multa.

Questionado, o aluno que se identifica como Rafael afirmou que era servidor público e estava protestando por ter sido obrigado a se vacinar contra a covid-19 naquela semana. Nos prints da conversa que circularam, ele diz a um colega: “estou sendo vítima de nazismo nesse exato momento. Esse é meu protesto, não sei se você entendeu”.

Foto: Reprodução/Redes Sociais
Foto: Reprodução/Redes Sociais

“Não vou entrar nem na discussão de porque você está usando isso daí, mas o símbolo da suástica ele não tem um respaldo. Se eu tivesse reparado antes, já teria mencionado. Não sei quem deu o alerta aí, eu agradeço”, disse o professor, em vídeo gravado por um dos participantes.

Em seguida, ele pede: “é uma questão de trocar essa imagem”. No chat, o estudante em questão disse que trocaria.

Gabriela afirma que prontamente os integrantes da turma se organizaram no grupo de WhatsApp da sala, no qual Rafael não está, para notificar a coordenação do curso e da Universidade sobre o caso.

“Aí veio o abaixo-assinado para enviar para coordenação. Só que ele vazou, então tiramos o nome do aluno no formulário”, explica. “Decidimos não divulgar o nome de ninguém. Reivindicamos que a coordenadoria suspendesse o aluno e investigue e, se for o caso, encaminhe o ocorrido para o Ministério Público”.

O Centro Acadêmico João Mendes Júnior, que representa os estudantes de Direito da Universidade Mackenzie, se pronunciou em um comunicado.

“Em um país que se aproxima de 600 mil mortos vítimas da COVID-19, e que tem, como única medida efetiva de contenção da pandemia, a vacinação, a associação da vacina à suástica nazista é inadmissível”, declara a carta.

“A suástica nazista é símbolo que acompanha uma série de memórias abomináveis à história mundial, que marcaram a primeira metade do século XX. Calcula-se que, à época, mais de cinco milhões de judeus foram vítimas do holocausto promovido por Adolf Hitler”.

O CA também lembra que o nazismo é uma forma de preconceito segregacionista e que “Nos termos do art. 5º, XLII, da CRFB, ‘a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei’”.

Agora, os alunos esperam um posicionamento tanto da coordenação quanto da Universidade. Ambas instituições afirmaram que estão cientes e apuram o caso. 

Sobre a ação dos estudantes de levar o caso adiante, Gabriela assegura que "não estamos discutindo ideologia político-partidária. Estamos falando do acontecimento, da ocorrência".

Entidades estudantis se manifestam

Ao Yahoo Notícias, líderes das entidades que representam os estudantes em todo o país comentaram o caso. Para a presidente da União Nacional dos Estudantes, Bruna Brelaz, o assustador é se tratar de um estudante de Direito.

"É um absurdo que ainda exista quem defenda o nazismo ou que utilize seus símbolos para protestar sobre a vacina, sendo a forma mais eficiente de evitar ainda mais mortes por Covid-19. Ainda mais assustador é que a atitude seja de um estudante de Direito", afirmou

"A narrativa sobre a necessidade de tomar vacina entre os negacionistas, inflados pelo próprio presidente Bolsonaro, de que se trata de falta de liberdade, cria esse cenário obscuro e confuso no Brasil. Por isso, hoje, é urgente que a universidade seja um espaço de defesa da Ciência e de amplo debate de defesa da democracia", completou. 

Já a presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), Rozana Barroso, afirma que a Universidade e os estudantes não podem aceitar o discurso de ódio.

“Nosso país vive sob constantes ataques à nossa democracia. Jair Bolsonaro é o maior exemplo disso. Vemos o reflexo de suas ações neste ato feito pelo estudante da Mackenzie. O discurso de ódio que ocorreu na Universidade não pode ser aceito pelos estudantes e nem pela própria instituição. Além disso, em um país que teve mais de 580 mil mortos pela Covid aceitar qualquer protesto contra a vacina é descabido é inadmissível", declarou Rozana.

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