Alunos de escola da Fundação Roberto Marinho participam de formatura no Complexo da Maré

“A educação é tudo". É com essa afirmação que o estudante Denílson Pirelli, de 18 anos, planeja seu futuro. O jovem morador do Parque União, no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio, sonha cursar Direito. Ele é um dos 63 estudantes — jovens e adultos, todos moradores da Maré e matriculados nas turmas de 2021 da Escola Fundação Roberto Marinho — que vão concluir os ensinos fundamental e médio. A cerimônia de formatura será nesta sexta-feira, no Centro de Artes da Maré, na Nova Holanda.

Denilson, que desde os 15 mora sozinho na comunidade do Parque União, se forma no ensino fundamental e já está matriculado para começar o ensino médio ano que vem.

— Vou fazer a faculdade de Direito para atuar como advogado na área do Direito Administrativo e da Gestão Pública. Sem educação, não chegamos a lugar nenhum e não alcançamos objetivo algum — afirma o jovem que trabalha como vendedor ambulante.

Do total de formandos, dez são do ensino fundamental e 53 do ensino médio. Para Ludmila Pinheiro, de 28 anos, a graduação está bem perto. Após concluir o ensino médio, ela quer agora cursar Gastronomia:

— Sempre vi a minha avó cozinhando e cresci com essa vontade também.

Moradora da Nova Holanda, Ludmila é mulher trans e preta. Ela é mobilizadora na Casa Preta da Maré e destaca que, como mulher trans, não se sente discriminada na escola:

— Antes de me tornar uma mulher trans, ouvia muitas piadinhas preconceituosas. Mas na atual escola onde estudo, isso não acontece. Lá, todos são maravilhosos.

A inclusão social é um dos pilares da metodologia da escola, mas vai além. É durante as aulas que os alunos vão percebendo o quanto podem conquistar sonhos. Renan Carlos, diretor da Escola Fundação Roberto Marinho, explica que a metodologia de ensino da unidade é integrativa:

— Nossa metodologia de ensino é diferente do que as pessoas conhecem como tradicional. É uma metodologia de ensino integrativa, que traz o estudante como protagonista da própria vida. Para a maioria desses alunos, o ambiente escolar traz um gatilho emocional, pelas experiências negativas que tiveram, por terem passado por bullying. Nós trabalhamos muito o ser humano, ao longo desses 24 meses. De início, eles têm um estranhamento porque a sala de aula é em círculo, a didática é diferente daquela com a qual estavam acostumados no ensino regular. Com o tempo, eles vão se integrando com o professor e entre eles mesmos, e começam a perceber que também são capazes de mudar a própria história de vida.

A Escola Fundação Roberto Marinho usa a Metodologia Telessala — Incluir para Transformar, que tem como base o Telecurso. A formação se dá em dois anos.

Renan enumera os fatores que levam alguns alunos a não acreditarem neles próprios, mas ressalta a importância da escola:

— Muitos do que estão se formando não têm alimentação adequada, nao têm estrutura familiar, são vários vieses que fazem com que não acreditem neles mesmos. Nossa metodologia, além de trabalhar os componentes curriculares, trabalha o desenvolvimento do ser humano, o fortalecimento da autoestima, e em cima das habilidades socioemocionais. Então, eles começam a ter sonhos de querer fazer o Enem e entrar na universidade, ou de fazer um curso técnico, de começar a trabalhar. São várias sementes que são plantadas nesses 24 meses.

É o caso de Gisele Nascimento, de 20 anos, que acaba de concluir o ensino fundamental e seguir com o ensino médio na Escola Fundação Roberto Marinho. A jovem moradora do Parque União trabalha em um supermercado no Leblon, mas pretende cursar Medicina:

— Quero ser pediatra e ajudar a minha mãe financeiramente, para que ela possa ter uma vida melhor.

Gerente de implementação do laboratório de Educação da Fundação Roberto Marinho, Heloisa Mesquita explica que os alunos saem prontos para as próximas etapas de ensino:

— Se o aluno fez o fundamental, está pronto para ir para o ensino médio e, se fez o médio, está pronto para ir para a faculdade. Por mais que sejam dois anos, a gente consegue exponenciar aquele aprendizado e consegue, com isso, trazer vários outros projetos complementares e transdisciplinares. Então, trabalham a educação antirracista, as africanidades, a florestabilidade, enfim, tem uma série de outros projetos ao longo desses dois anos. É um curso bem engendrado porque, em dois anos, deixa o aluno bem preparado para a segunda etapa da continuidade. Trabalhamos muito para que ele tenha o aprendizado ao longo da vida. Não pode parar nunca.

O Telecurso na Maré começou em 2003, quando foi criado o programa Maré do Saber, voltado para jovens e adultos que não haviam concluído o ensino fundamental. Novas turmas foram abertas em 2022, e mais uma, de ensino médio, será inaugurada na Maré em fevereiro de 2023. A Redes da Maré, parceira da Fundação Roberto Marinho na iniciativa, tem uma lista de interessados

Criada em 2011, a Escola Fundação Roberto Marinho utiliza a metodologia do Telecurso e já formou cerca de 1.800 estudantes no ensino fundamental e no ensino médio. A proposta é atender estudantes que não conseguiram concluir a educação básica no tempo certo ou estão fora da escola.

As aulas são presenciais e com atividades on-line. No Rio de Janeiro, a Escola Fundação Roberto Marinho está presente no Centro, no Complexo da Maré, em Del Castilho e São Gonçalo, reunindo 197 alunos, cujas idades variam entre 15 e 69 anos.