Alvo de duas operações da PM por semana, Cidade de Deus é cobiçada pela milícia

Rafael Soares
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Tráfico da Cidade de Deus aumentou poder de fogo nos últimos meses

Desde outubro, a Cidade de Deus foi alvo de 17 operações da Polícia Militar — uma média de mais de duas incursões por semana. As ações resultaram em seis mortes, 14 prisões de traficantes e apreensões de 15 armas, 3kg de cocaína e 13kg de maconha. A favela é a única de Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio, ainda dominada pelo tráfico de drogas: desde 2015, uma ofensiva da milícia expulsou traficantes de todas as outras comunidades do bairro. Os paramilitares, entretanto, não estão satisfeitos: as polícias Civil e Militar já sabem que o principal alvo da milícia na região é a Cidade de Deus.

A frequência de operações da PM e a iminência de uma invasão de paramilitares da Gardênia Azul acendeu o alerta da maior facção do tráfico no Rio, que domina a Cidade de Deus. Nos últimos dois meses, chegaram à favela cerca de 50 criminosos de pelo menos outras cinco comunidades dominadas pela quadrilha para reforçarem a segurança das três bocas de fumo do local. Duas dezenas de fuzis e três metralhadoras calibre .30 — arma mais potente usada pelo tráfico do Rio — foram incorporadas ao arsenal da Cidade de Deus, provenientes de outras favelas.

O aumento do poder de fogo dos criminosos já foi sentido por policiais militares do 18º BPM (Jacarepaguá) na semana passada: na noite do último dia 18, a blindagem do caveirão do batalhão não suportou uma série de tiros disparados por uma metralhadora .30. O pneu também foi estraçalhado, e o veículo ficou quase a semana toda fora de serviço.

Na última quinta-feira, uma nova operação do batalhão — desta vez com apoio de outras quatro unidades da PM — revelou uma nova estratégia do tráfico contra os blindados da polícia e carros de invasores: os traficantes passaram a prender no chão das principais vias da comunidade, com cadeados e correntes, barras com espetos de ferro que furam os pneus dos veículos. Foi a primeira vez que os agentes viram o objeto afixado dessa maneira numa favela.

A ação teve como objetivo principal cumprir um mandado de apreensão expedido pela Justiça a favor de duas crianças moradoras da favela que estavam sendo vítimas de agressões da mãe, uma usuária de crack. Os meninos não foram encontrados. Durante a operação, traficantes foram flagrados fugindo da favela rastejando dentro de um lamaçal.

— Não me lembro de um ano com tantas operações na Cidade de Deus como 2019. Alunos perderam muitas aulas, já faltei ao trabalho várias vezes. Vivemos uma rotina de guerra — lamentou um morador.

O avanço da milícia

No final do ano passado, um criminoso que integrava o bando que dominava o tráfico na Cidade de Deus fugiu da favela levando dois fuzis rumo à favela vizinha, Gardênia Azul. O homem estava devendo a uma das bocas de fumo da favela e tinha medo de ser morto pelos comparsas. Recebeu refúgio na área dominada pela milícia. A partir de então, segundo informações da PM, o traficante prometeu vingança aos ex-comparsas, ameaçando invadir a Cidade de Deus.

Desde então, moradores da favela vivem um clima de apreensão com possíveis tentativas de invasão. A Polícia Civil já monitora uma tática usada pela milícia para tentar enfraquecer o tráfico na Cidade de Deus: denúncias anônimas à PM e ao Disque-Denúncia sobre o paradeiro de alguns traficantes e sobre a realização de bailes funk na comunidade.

Uma investigação do Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio revela que o envolvimento de policiais militares do 18º BPM com a milícia foi fundamental para o avanço dos paramilitares sobre Jacarepaguá desde 2015. Conversas encontradas no celular de Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica, e reveladas pelo EXTRA em junho mostram que o batalhão era informado com antecedência sobre invasões de milícias a favelas e fazia vista grossa para os ataques.

Em outubro de 2017, por exemplo, quando a milícia se preparava para tomar a Favela do Tirol, um dos seguranças do grupo paramilitar disse ao chefe que iria “avisar ao setor e ao GAT (Grupo de Ações Táticas, unidade operacional do batalhão) no sábado” sobre a invasão, programada para a madrugada de domingo.

Tráfico em família

O tráfico da Cidade de Deus ainda conserva uma estrutura familiar. O nome mais alto na hierarquia da favela solto é Edvanderson Gonçalves Leite, o Deco. Ele é irmão de Éderson José Gonçalves Leite, o Sam, chefe do tráfico da favela preso desde 2003. Deco chegou a ser preso em 2016, mas foi solto apenas um ano depois, beneficiado por uma decisão da Justiça.

Carlos Henrique dos Santos, o Carlinhos Cocaína, é o segundo homem da quadrilha. Em agosto deste ano, a Justiça determinou o sequestro de cerca de R$ 5 milhões em bens do traficante — apontado como o braço financeiro da facção fora das cadeias.

Uma investigação da Polícia Civil revelou que Carlinhos era dono de uma mansão em um condomínio na Freguesia avaliada em cerca de R$ 2 milhões. A casa, considerada de alto padrão, tem dois andares, piscina, churrasqueira e circuito interno de monitoramento por câmeras.

Desde janeiro, o 18º BPM apreendeu 57 armas na Cidade de Deus — sete delas são fuzis.