Alvo de pedido de prisão, Anderson Torres foi acusado, nas eleições, de favorecer Bolsonaro, como nas blitze da PRF

Alvo de pedido de prisão determinado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes na tarde desta segunda-feira, o ex-secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Anderson Torres, chegou a ser um dos nomes mais próximos ao então presidente Jair Bolsonaro no último governo. Torres, nomeado ministro da Justiça e Segurança Pública em março de 2021, conheceu Bolsonaro ainda como deputado federal, quando atuou como assessor do gabinete do também deputado Delegado Francischini -- que seria cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no fim de 2021, por disseminar desinformação contra as urnas eletrônicas.

No pedido de prisão, Moraes argumentou que Torres, na função de secretário de Segurança Pública do DF -- cargo que deixou para assumir o Ministério da Justiça em 2021, e para o qual retornou no início de 2023 após o fim do governo Bolsonaro --, foi um dos responsáveis pelas falhas no esquema de segurança que resultaram na invasão de bolsonaristas às sedes dos três Poderes, em Brasília, no último domingo. O ex-ministro se encontra nos Estados Unidos desde a última semana.

No governo Bolsonaro, Torres se tornou uma espécie de braço-direito do então presidente em episódios controversos. Em julho de 2021, pouco após assumir como ministro, Torres participou com Bolsonaro de uma live na qual o ex-presidente atacou o sistema eleitoral com dados falsos e distorcidos.

Na ocasião, o então ministro endossou as suspeitas infundadas levantadas por Bolsonaro sobre o sistema eletrônico ao citar um relatório da PF sobre as eleições municipais de 2016 que, sem apontar fraudes na votação, teria sugerido um "aperfeiçoamento" do processo eleitoral com a adoção do voto impresso. O relatório, no entanto, apontava que a inclusão de um sistema impresso acoplado à urna eletrônica encarecia "bastante" o processo eleitoral, com "maior possibilidade de falha mecânica".

Por conta do episódio, Torres prestou depoimento ao TSE, como testemunha, em um inquérito administrativo que apura os ataques de Bolsonaro às urnas eletrônicas. O caso segue em andamento.

Membro do quadro da Polícia Federal (PF) desde 2003, Torres passou boa parte da década seguinte, entre 2011 e 2018, cedido para o gabinete do deputado federal Delegado Francischini na Câmara. Francischini era um dos principais aliados de Bolsonaro, à época um deputado do baixo clero que começava a alimentar o projeto de concorrer à Presidência. Por conta de uma live, em outubro de 2018, na qual atacou de forma infundada as urnas eletrônicas, o TSE cassou o mandato de Francischini no fim de 2021. À época, Torres já não trabalhava com o parlamentar.

Como ministro da Justiça de Bolsonaro, Torres se envolveu em outros episódios controversos, nos quais foi acusado de empregar o cargo e as forças de segurança federais em tentativas de favorecer o então presidente. Torres atuou no planejamento, por exemplo, das blitze da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no segundo turno da eleição presidencial de 2022, que causaram transtornos ao acesso de eleitores a áreas de votação.

Ele também chegou a ser acionado por Bolsonaro para se dirigir ao município de Comendador Levy Gasparian, no estado do Rio, para acompanhar a rendição do ex-deputado Roberto Jefferson, apoiador do ex-presidente, que havia disparado com armas de fogo contra agentes da PF. Bolsonaro, na ocasião, buscava evitar ter sua imagem associada às cenas de violência protagonizadas por Jefferson, e recomendou a Torres que buscasse uma solução para o impasse.

Enquanto estava a caminho, auxiliares do presidente alertaram a Torres que sua ida ao encontro de Jefferson produziria o efeito contrário do pretendido por Bolsonaro, e o então ministro parou em Juiz de Fora (MG) para acompanhar o desenrolar da operação a uma distância segura.

A ascensão de Torres até o papel de aliado de confiança de Bolsonaro começou em setembro de 2019, quando o presidente passou a pressionar publicamente o então ministro da Justiça, Sergio Moro, pela exoneração do diretor-geral da PF, Maurício Valeixo. Na ocasião, Torres se tornou um dos nomes cotados para assumir a PF, ainda na gestão de Moro, que pediria demissão do Ministério da Justiça em abril de 2020 -- quando Valeixo, de fato, foi exonerado.

Segundo o próprio Bolsonaro declarou em 2019, a indicação de Torres era apoiada pelo então deputado Francischini, seu antigo aliado. O ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jorge Oliveira, à época chefe da Secretaria-Geral da Presidência, também disse ter "relação de amizade" com Torres e confirmou que seu nome circulava no Palácio do Planalto como um dos cotados para a PF.

Meses depois, em dezembro de 2019, Torres participou de um encontro com Bolsonaro no Planalto, ao lado de Jorge Oliveira e do governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB). O encontro ocorreu a pretexto da assinatura de uma medida provisória editada por Bolsonaro para conceder aumento salarial a policiais civis e militares do Distrito Federal -- Torres era o secretário de Segurança Pública do DF desde o início da gestão Ibaneis, em janeiro daquele ano.

Pouco depois, em janeiro de 2020, Torres reuniu-se novamente com Bolsonaro no Planalto às véspera de uma reunião entre o presidente e secretários estaduais de Segurança Pública de todo o país. No encontro, Bolsonaro disse ter a intenção de fatiar o Ministério da Justiça para recriar a pasta de Segurança Pública, possibilidade que contrariou Moro, à época titular das duas pastas, que enxergou uma tentativa de enfraquecimento de seus poderes no governo.

Torres chegou a ser lembrado para o Ministério da Justiça após a exoneração de Moro, em abril daquele ano, mas só assumiria a pasta no início de 2021, depois da passagem de André Mendonça -- posteriormente indicado para o Supremo Tribunal Federal (STF) -- pelo cargo.